A disputa por espaço na Baixada Fluminense ganhou ontem um de seus capítulos mais explícitos desde o início da campanha.
Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, desembarcou em Nova Iguaçu ao lado de Douglas Ruas (PL), que concorre ao governo do Rio, para reforçar o aliado em uma região onde o bolsonarismo mostrou força nas urnas em 2022, mas vê hoje seus principais apoios se dividirem nesta corrida eleitoral.
Quase no mesmo horário, o prefeito Dudu Reina e o ex-prefeito Rogério Lisboa, ambos do PP, reuniram 18 dos 23 vereadores da cidade em apoio a Eduardo Paes (PSD), adversário de Ruas, e a Pedro Paulo (PSD), candidato ao Senado.
Ambos apoiam Lula na disputa presidencial.
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Paes já conta com o apoio de nove dos 13 prefeitos da Baixada, região que concentra 21,9% do eleitorado.
Dias antes do início oficial da campanha de rua, Flávio já havia mandado um recado aos prefeitos de direita que migraram para Paes: quem foi eleito em 2024 com apoio bolsonarista e “pulasse a cerca” agora não deveria contar com o grupo na tentativa de reeleição em 2028.
Disse referindo-se à debandada da campanha de Ruas.
Anfitriões
O ex-prefeito de Nova Iguaçu Rogério Lisboa e o atual prefeito, Dudu Reina foram os anfitriões que reuniram os vereadores da cidade em torno de Paes, entre eles, o presidente da Câmara, Marcinho Guerreiro (PP).
Lisboa e Reina já haviam oficializado apoio a Paes no último dia 12.
— São 18 vereadores, lideranças que estão todos os dias nas ruas e conhecem de perto as necessidades da população.
Nova Iguaçu sabe o tamanho que tem e quer ser protagonista no futuro do estado — afirmou Lisboa, que apoiou Bolsonaro na disputa em 2022.
Eduardo Paes destacou o peso da adesão:
— Receber o apoio de um grupo tão representativo de vereadores de Nova Iguaçu aumenta ainda mais a nossa responsabilidade.
Quero governar com o Dudu Reina e com o Rogério, com os vereadores e, principalmente, ouvindo a população.
Nova Iguaçu vai ter voz e vai ter vez no nosso governo— afirmou o ex-prefeito do Rio.
Reunião de núcleo de apoio a Paes em Nova Iguaçu
Reprodução/Instagram
Não esteve presente no ato o vereador Vaguinho Neguinho, um dos aliados de Paes e de Reina em Nova Iguaçu.
A ausência ocorre um dia após o parlamentar ter sido alvo de um mandado de busca e apreensão da Polícia Federal em uma investigação sobre a atuação de uma milícia na região.
No último domingo, Vaguinho participou de uma carreata ao lado de Paes pela cidade.
Após a operação da PF na quinta-feira, adversários passaram a explorar nas redes sociais um vídeo do evento em que o ex-prefeito do Rio aparece pedindo apoio à candidatura do vereador a deputado estadual.
De Nova Iguaçu, Flávio e Douglas Ruas seguiram para Duque de Caxias, outro reduto onde o bolsonarismo enfrenta deserção de antigos aliados.
Em 2022, Bolsonaro obteve 58,31% dos votos válidos na cidade, com Washington Reis e sua família entre seus principais cabos eleitorais.
Quatro anos depois, Reis está com Paes, e sua irmã, Jane Reis (MDB), é candidata a vice na chapa do ex-prefeito do Rio.
O roteiro pelos dois maiores colégios eleitorais da Baixada testa a capacidade de Flávio de transferir para Ruas a força demonstrada pelo bolsonarismo em 2022.
E testa a sua própria força.
No segundo turno da eleição passada, Bolsonaro venceu em toda a Baixada Fluminense, mesmo após Lula reforçar a campanha na região e conquistar apoios de lideranças locais.
Foco na segurança
Ao discursar em Nova Iguaçu, Flávio concentrou-se na Segurança Pública e prometeu acabar com o “narcoterrorismo”.
O presidenciável do PL criticou Lula, seu principal adversário, afirmando que o crime organizado piorou na gestão do petista.
Ao lado de Flávio, Douglas Ruas manteve o discurso sobre governar para o “Rio real”, referindo-se aos municípios distantes da capital.
Discurso de Flávio em ato de campanha de Douglas Ruas
Guito Moreto
A animosidade com antigos aliados apareceu nos discursos durante o ato.
O delegado Carlos Augusto (PL), candidato a deputado estadual, falou abertamente em “traidores”:
— Quem está apoiando Paes está ajudando um projeto do Lula.
Depois do ato em Nova Iguaçu, Flávio e Ruas esticaram uma faixa na parte de cima de uma passarela na Rodovia Presidente Dutra, em São João de Meriti, na Baixada, com a frase “Se você apoia, buzine: fora Lula”.
Eles se encontraram com apoiadores no local.
A ação repete comportamento de Bolsonaro que, em 2024, foi à Avenida Brasil ao lado do ex-chefe da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Alexandre Ramagem, que disputou a prefeitura do Rio pelo PL naquele ano.
Na ocasião, os dois subiram em uma passarela em Guadalupe, bairro da Zona Norte, e acenaram a motoristas que responderam com buzinaço.
Em 2022 a vantagem bolsonarista cresceu nos principais colégios eleitorais da Baixada.
Em Nova Iguaçu, Bolsonaro teve 62,97% dos votos válidos e ganhou 27,9 mil eleitores entre os dois turnos, enquanto Lula acrescentou 6,7 mil.
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