Estudo mostra que maioria dos idosos erra a própria previsão de morte e vive mais do que imaginava - QTU Questões do Universo

Estudo mostra que maioria dos idosos erra a própria previsão de morte e vive mais do que imaginava

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Uma pesquisa que acompanhou milhares de idosos japoneses por quase três décadas aponta que as pessoas costumam ter uma noção relativamente precisa de até que idade vão viver.
O levantamento identificou, porém, um padrão sistemático de erro: a maior parte dos participantes subestimou o próprio tempo de vida.
A pesquisa, publicada como preprint (sem revisão por pares) no medRxiv e noticiada pelo site científico ScienceAlert, foi conduzida por Shohei Okamoto, cientista social da Universidade de Tsukuba, no Japão.
O trabalho usou dados do Japanese Aging and Health Dynamics Study, levantamento nacional com adultos de 60 anos ou mais no país.
Em 1996, 2.447 participantes foram perguntados sobre a idade que esperavam alcançar.
Desses, 393 disseram não saber responder, e 2.054 informaram uma estimativa, com valores entre 63 e 120 anos.
Ao longo dos 28 anos seguintes, 1.514 dos participantes que haviam dado uma estimativa morreram.
Cerca de 98% das datas de óbito foram confirmadas por registros oficiais ou por informações de familiares, o que permitiu à equipe comparar a expectativa declarada por cada pessoa com o tempo de vida que ela de fato teve.
Maioria viveu mais do que esperava
Entre os participantes cujo desfecho pôde ser determinado, aproximadamente 59% viveram além da idade que haviam previsto para si mesmos.
A associação entre expectativa e resultado real se manteve mesmo depois de os pesquisadores considerarem idade, sexo, características socioeconômicas e fatores de saúde: quem esperava viver mais tendeu, de fato, a viver mais.
O estudo é observacional e o preprint ainda não passou por revisão por pares, o que impede afirmar que esperar viver mais tempo, por si só, prolongue a vida.
Segundo os autores, é mais provável que as pessoas tenham acesso a informações sobre a própria saúde, hábitos e histórico familiar que influenciam tanto a previsão quanto a longevidade real.
Alguém que se sente saudável tende tanto a esperar viver mais quanto, de fato, a viver mais.
Mesmo com o controle de diversos fatores, características não medidas pelo estudo podem ter influenciado tanto as expectativas quanto os resultados observados.
As previsões, porém, estão longe de funcionar como um cronômetro pessoal preciso.
No modelo estatístico da equipe, cada ano adicional de expectativa declarada correspondeu a apenas cerca de 0,12 ano a mais de sobrevida estimada.
A relação entre o que a pessoa espera e o que de fato acontece é real, mas fraca.
Os erros também variaram entre grupos.
Mulheres e pessoas com mais anos de escolaridade tiveram maior probabilidade de viver além do que previam, enquanto participantes em pior estado de saúde tiveram menor probabilidade de superar a própria estimativa.
Por que tanta gente escolheu 80 anos
Um número chamou a atenção da equipe: 80.
Boa parte dos participantes declarou essa idade como expectativa, valor próximo à expectativa de vida ao nascer da população japonesa em 1996, o que sugere que muitas respostas podem ter sido ancoradas em uma referência populacional amplamente conhecida, e não em uma avaliação pessoal mais detalhada.
Expectativa de vida ao nascer, porém, não equivale à expectativa de vida restante de quem já é idoso.
Uma pessoa que chegou aos 70 anos já superou boa parte dos riscos de mortalidade que compõem a média calculada para o nascimento, o que torna uma estimativa baseada na idade e no sexo atuais mais relevante do que um número único válido para toda a população.
Uma média ampla também pode ocultar a tendência de mulheres e pessoas mais escolarizadas viverem mais.
Os autores, no entanto, não afirmam que a ancoragem no número 80 tenha causado os erros observados.
O achado sobre escolaridade mostra outra nuance: participantes com mais anos de estudo tiveram menor probabilidade de escolher idades múltiplas de 5, como 75, 80 ou 85.
Ainda assim, respostas menos arredondadas não resultaram em previsões mais precisas: esse grupo também subestimou, em média, o próprio tempo de vida.
O peso do erro no planejamento financeiro
Para os autores, o erro sistemático de subestimação tem consequências que vão além da curiosidade sobre o futuro.
Subestimar quanto tempo ainda se vai viver pode levar a uma poupança insuficiente para a aposentadoria, enquanto superestimar esse período pode resultar em economia excessiva e desnecessária ao longo da vida.
A equipe defende que informações mais claras sobre a expectativa de vida restante, calculadas a partir da idade e do sexo de cada pessoa, poderiam ajudar na tomada de decisões financeiras.
No Brasil, esse tipo de cálculo previdenciário também depende diretamente de tábuas de mortalidade.
Segundo as Tábuas Completas de Mortalidade de 2024 do IBGE, divulgadas em novembro de 2025, quem completa 60 anos no país tem hoje uma expectativa de vida adicional de 22,6 anos, o equivalente a uma sobrevida total de cerca de 82,6 anos.
O indicador integra o cálculo do fator previdenciário, usado pelo INSS para definir o valor dos benefícios do Regime Geral de Previdência Social.
A pesquisa tem limitações reconhecidas pelos próprios autores.
Os participantes deram sua estimativa de expectativa de vida uma única vez, em 1996, o que impede avaliar como um diagnóstico, avanços médicos ou a morte de pessoas próximas podem ter alterado essa previsão ao longo dos anos.
Os dados também não incluíam informações detalhadas sobre a longevidade dos pais dos participantes.
Como o levantamento envolveu apenas idosos japoneses, os resultados não podem ser aplicados automaticamente a pessoas mais jovens ou a populações de outros países.
Os resultados não demonstram que é possível prolongar a própria vida apenas por esperar viver mais.
Ainda assim, na comparação entre previsão e desfecho real, a maioria dos participantes errou na mesma direção: viveu mais tempo do que havia imaginado.