'Eu me arrumava no escuro': mãe de gêmeos revela como recuperou a autoestima

Fonte: Bandeira da fonte

A maternidade costuma ser associada a transformações profundas, mas nem todas elas são visíveis.
Para Layse Cohen, de 39 anos, mãe de gêmeos, o período após a chegada dos filhos também foi marcado por um esgotamento que se instalou de forma silenciosa e, com o tempo, afetou a maneira como ela se percebia.
Entre o trabalho em casa, os cuidados com as crianças e as tarefas domésticas, suas próprias necessidades foram ficando para depois, até que ela passou a evitar o próprio reflexo.
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A rotina intensa veio acompanhada de episódios de compulsão alimentar, baixa autoestima e uma relação cada vez mais difícil com a própria imagem.
Um dos hábitos que mais traduzem aquele momento, segundo Layse, era se arrumar no escuro para não precisar se olhar.
"Muitas vezes, eu me arrumava com a luz apagada para não me ver.
Não queria ter a noção exata de como estava, porque aquilo me entristecia.
Meu marido dizia que eu estava bem, mas eu me sentia péssima.
Quando me olhava no espelho, sabia que tinha perdido o controle.
Estava muito estressada, enfrentando episódios de compulsão alimentar, e já não conseguia mais olhar para mim com carinho", lembra.
Layse Cohen com os filhos
Reprodução Instagram
Para Mylla Moreira O.
Costa, psicóloga clínica e especialista em Transtornos Alimentares e Obesidade, evitar o espelho ou esconder o próprio corpo pode sinalizar um sofrimento que vai além da insatisfação com a aparência.
Segundo ela, quando a autoestima está fragilizada, a percepção sobre si mesma também pode ser profundamente afetada.
"Esse tipo de comportamento pode indicar um sofrimento emocional importante relacionado à maneira como a pessoa percebe a própria imagem.
Evitar o espelho, esconder o corpo ou não querer se olhar pode ser sinal de vergonha, frustração ou de uma autoestima bastante fragilizada.
É importante entender que isso vai além da questão estética: em muitos casos, a pessoa deixa de reconhecer o próprio valor e passa a associar sua identidade quase exclusivamente à aparência física", explica.
No caso de Layse, o desconforto com o corpo apareceu dentro de um contexto mais amplo.
Antes mesmo de se incomodar com as mudanças físicas, ela já lidava com a sobrecarga provocada pela soma de diferentes responsabilidades.
Trabalhar de casa, cuidar dos filhos e administrar a rotina doméstica deixava pouco espaço para descanso ou atividades voltadas a si mesma.
"O esgotamento mental foi determinante para eu chegar àquele ponto.
Trabalho de casa, cuido dos meus filhos e também das tarefas domésticas.
No meio da loucura do dia a dia, acabei me deixando completamente de lado.
Cuidava de todo mundo e simplesmente não encontrava tempo para mim.
Quando percebi, já não tinha disposição nem energia e não conseguia mais enxergar a mulher que eu era", conta.
Layse Cohen
Reprodução Instagram
A mudança começou quando Layse decidiu procurar acompanhamento especializado.
Ela iniciou um tratamento com o médico de Família e Comunidade George Mantese e sua equipe.
Além das estratégias voltadas ao emagrecimento, o processo passou a envolver uma reorganização dos hábitos e da rotina.
"Foi aí que conheci o doutor George Mantese.
Desde o primeiro momento, ele e toda a equipe me deram suporte, com acompanhamento diário, para que eu não desistisse e conseguisse seguir o tratamento.
Esse cuidado fez toda a diferença, porque eu precisava de alguém que acreditasse em mim até nos dias em que eu mesma não acreditava", relata.
Para Mantese, o tratamento para perda de peso não deve se limitar à alimentação.
A rotina, o sono, a prática de exercícios e as dificuldades individuais precisam ser considerados para que as mudanças sejam sustentáveis.
"O emagrecimento vai muito além de seguir uma dieta.
Na maioria das vezes, exige mudanças importantes no estilo de vida, como melhorar a alimentação, praticar atividade física regularmente, dormir melhor e construir uma rotina mais saudável.
Mudar hábitos não é simples.
Por isso, o acompanhamento próximo faz tanta diferença: permite identificar rapidamente as principais dificuldades de cada paciente e adaptar o tratamento à realidade de cada um.
Se uma estratégia não funciona, ajustamos o plano em vez de simplesmente insistir na mesma abordagem", detalha.
Com o acompanhamento, Layse passou a reorganizar os hábitos e a reservar espaço para o próprio bem-estar.
Ela incorporou exercícios à rotina, modificou a alimentação e, desde o início do processo, perdeu 11 quilos.
Mais do que o resultado na balança, porém, ela destaca a retomada de atividades que haviam se tornado difíceis em meio à exaustão.
"Hoje sigo tudo à risca.
Treino de segunda a segunda, busco preservar minha massa magra durante o emagrecimento e entendo que esse processo vai muito além da estética.
Perdi 11 quilos, mas ganhei algo muito maior: qualidade de vida", destaca.
Layse Cohen
Reprodução Instagram
A preservação da massa muscular é outro ponto considerado no acompanhamento, segundo Mantese.
Para o médico, a velocidade da perda de peso não deve ser o único parâmetro utilizado para avaliar a evolução de um tratamento.
"Existe um ponto fundamental: emagrecer rápido nem sempre significa emagrecer bem.
Quando o processo acontece de forma acelerada e sem acompanhamento, é preciso avaliar o que está sendo eliminado.
O objetivo não é apenas reduzir o número na balança, mas diminuir a gordura corporal e preservar a massa muscular.
Músculo representa força, funcionalidade, independência e qualidade de vida.
Em outras palavras, não basta emagrecer; é preciso fazer isso com saúde", pondera.
Aos poucos, a mudança também alcançou aspectos que não podem ser medidos em quilos.
Layse voltou a ter disposição para brincar com os filhos e recuperou a disposição para atividades simples do cotidiano.
Entre elas, uma ganhou um significado especial: voltar a se arrumar diante do espelho com a luz acesa.
"Hoje me sinto viva novamente.
Antes, não tinha nem pique para brincar com meus filhos.
Parece uma coisa simples, mas, para uma mãe, isso pesa demais.
Eu sentia que estava sobrevivendo, não vivendo.
Agora consigo me olhar no espelho sem medo, me arrumar com a luz acesa e gostar novamente da mulher que vejo refletida", desabafa.
Layse Cohen
Reprodução Instagram
Para Mylla, essa mudança representa uma dimensão importante do autocuidado: recuperar a capacidade de se reconhecer para além da aparência.
Nesse sentido, cuidar de si não precisa estar necessariamente associado à perda de peso ou a uma transformação física.
"É importante entender que o autocuidado não se resume a emagrecer ou mudar a aparência, mas envolve construir uma relação mais respeitosa, gentil e saudável consigo mesma", ressalta.
A experiência também levou Layse a rever a ideia de que a maternidade exige que as necessidades da mulher sejam constantemente adiadas.
Para ela, encontrar espaço para si não diminui a dedicação aos filhos; ao contrário, tornou-se parte da maneira como deseja exercer a própria maternidade.
"A gente cresce ouvindo que ser mãe é colocar os filhos sempre em primeiro lugar, e isso não muda.
Mas aprendi que, quando nos abandonamos completamente, eles também acabam sofrendo.
Eu precisava voltar a olhar para mim para conseguir estar com eles da forma que mereciam.
Hoje entendo que reservar um tempo para mim não é egoísmo, é amor-próprio.
Uma mãe que está bem consegue ser muito mais presente, feliz e inteira para os filhos", reflete.