EUA estão ficando mais parecidos com Brasil e isso vai criar uma volatilidade incrível, diz Damodaran - QTU Questões do Universo

EUA estão ficando mais parecidos com Brasil e isso vai criar uma volatilidade incrível, diz Damodaran

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No mundo todo, as eleições tendem a ficar cada vez mais polarizadas e isso traz grande volatilidade para os mercados.
Diante de cenários factíveis tão discrepantes, fica praticamente inviável atribuir com alguma precisão preços para empresas e ações, disse Aswath Damodaran, professor de finanças corporativas da Stern School da Universidade de Nova York, em entrevista ao Valor.

"Não vai ser fácil [precificar empresas] porque vivemos em um mundo muito polarizado.
Na verdade, acho que o mundo está caminhando na direção oposta de cenários mais estáveis [de precificação]", disse Damodaran.
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Um dos fatores é que cenários diversos de atividade e de custo de capital, que se materializam de acordo com quem vence o pleito, implicam em taxas de desconto diferentes para trazer o fluxo de caixa esperado das empresas ao valor presente, essência da técnica do “valuation”, de precificação de empresas e ações, explicou ele.

Segundo Damodaran, o Brasil — e a América Latina como um todo — têm sido, historicamente, movido pela percepção de risco-país, associado particularmente à solvência das contas públicas.
A eleição de presidentes menos sensíveis ao tema fiscal afeta para pior essa percepção de risco, disse ele sem citar nomes da disputa brasileira.

"As empresas têm ficado em segundo plano.
Você pode ser a melhor empresa do Brasil, do Peru, mas se o país for para o buraco, você afunda junto", disse.

O especialista indiano, que imigrou para os EUA nos anos 1980, lembrou que o ambiente era completamente diferente até algum tempo atrás.
"Quando vim para os EUA, em 1981, os dois partidos [Democrata e Republicano] concordavam em 90% dos assuntos.
Não tinha como ocorrer grandes zigue-zagues na economia.
A política tributária podia ser ligeiramente diferente, mas a fiscal não era.
O mundo não ia mudar de rumo", disse.

"Você podia avaliar empresas sem se preocupar com quem iria ganhar a eleição.
Isso é, na verdade, uma posição muito saudável para as empresas", disse.

Para o especialista, essa estabilidade das políticas governamentais mudou nos últimos anos.

"O foco é sempre o que o governo vai fazer.
Uma medida do quanto um país está amadurecendo é o quanto menos o governo importa, o quanto menos se fala sobre políticas governamentais", disse.

"Há trinta anos, queríamos que o Brasil caminhasse na direção do que eram os EUA, com um banco central e um governo independentes.
Isso mudou.
Os EUA estão ficando mais parecidos com o Brasil", disse, referindo-se às políticas comerciais do governo Trump e das sucessivas tentativas do presidente americano de constranger os dirigentes do Federal Reserve (Fed, banco central americano).

"Basicamente, vamos acabar em algum lugar no meio do caminho.
Ou seja, os EUA vão começar a se parecer mais com mercados emergentes, com governo importando mais e os bancos centrais sendo menos independentes.
E isso vai criar um período de incrível volatilidade macro", disse.

Damodaran reconhece que alguns países descobriram a duras penas o quanto a dependência das políticas governamentais afetam o ambiente de negócios.

"Quando eu estava crescendo na Índia, havia o dia do orçamento.
Todo ano, parava o país nesse dia.
Porque você vivia das coisas que caíam da mesa do governo.
Eles aumentavam a alíquota de imposto para um setor, reduziam para outro.
Se você estava no setor que levava a pior, era o fim do mundo para você.
Os negócios acabavam.
O país inteiro mudava no dia do orçamento", disse.

"No ano passado, quando eu estava na Índia, o dia do orçamento veio e passou.
Eu nem percebi.
Tinha até quem assistia, mas, para a maioria das pessoas, isso tornou-se uma atração secundária porque suas vidas são movidas por empresas investindo e não pelos impostos que entram", disse.

Aswath Damodaran, professor de finanças corporativas da Stern School da Universidade de Nova York
Dave Dourado/Valor