Um ex-diretor de engenharia da Meta testemunhou, nesta quarta-feira (19), que o diretor-presidente, Mark Zuckerberg, foi responsável por uma cultura que pode ter levado a empresa a se eximir da responsabilidade de proteger crianças que utilizam as plataformas Facebook e Instagram contra danos.
Arturo Bejar, um crítico declarado da Meta que trabalhou na empresa de 2009 a 2015 e como prestador de serviços independente de 2019 a 2021, afirmou que Zuckerberg estava profundamente envolvido na tomada de decisões e que a cultura de cima para baixo da empresa garantia que mudanças no design de produtos só ocorressem se ele ordenasse.
“Se Mark torna algo uma prioridade, montanhas se movem em meses”, disse Bejar.
Bejar é a primeira testemunha em um julgamento histórico sobre acusações movidas por uma coalizão de Estados americanos que acusam a empresa de projetar suas plataformas para viciar usuários jovens e coletar ilegalmente dados de crianças menores de 13 anos.
Califórnia, Colorado, Kentucky e Nova Jersey acusam a Meta de projetar o Facebook e o Instagram para prender usuários jovens, alimentando ansiedade, depressão e até suicídio, além de enganar os consumidores sobre a segurança das plataformas.
Esses estados e outros 25 também acusam a Meta de violar a lei federal ao coletar e usar indevidamente dados pessoais de crianças enquanto elas utilizavam suas plataformas.
A Meta negou as acusações e argumentou que as opiniões de Bejar estavam além do escopo de seu trabalho.
Bejar começou a depor no tribunal federal em Oakland, na Califórnia, terça-feira (18), quando o julgamento teve início.
Espera-se que o julgamento dure seis semanas e que Zuckerberg testemunhe.
Segurança era um ‘detalhe’
Bejar ajudou a conduzir pesquisas sobre as experiências de adolescentes como parte de uma equipe que examinava o bem-estar no Instagram entre 2019 e 2021.
Ele tem sido vocal ao criticar o histórico de segurança da Meta para crianças e testemunhou perante um comitê do Senado americano em 2023 que a Meta estava ciente do assédio e de outros danos enfrentados por adolescentes em suas plataformas, mas falhou em resolvê-los.
No depoimento desta quarta-feira (19), Bejar disse que a Meta utilizava métricas como interações sociais significativas e usuários ativos diários para recompensar funcionários, priorizando o engajamento do usuário, e o lucro, em detrimento da segurança.
Ele também disse que uma ferramenta usada pela Meta que incentiva os usuários a fazerem uma pausa, um recurso-chave citado pela Meta em sua defesa, foi “projetada para falhar”, pois não é a configuração padrão e os lembretes são fáceis de ignorar.
“Todos os caminhos levam ao tempo no produto”, afirmou.
“Nesse contexto, a segurança sempre foi um detalhe.”
Bejar também afirmou que a Meta possuía tecnologia para sinalizar e exigir verificação de usuários, potencialmente aos milhões, suspeitos de terem menos de 13 anos, mas fechou os olhos para o problema por meio de uma política de “não pergunte, não diga”, porque isso era financeiramente lucrativo a longo prazo.
“Onde estão as crianças mais novas é onde os usuários estarão no futuro”, declarou.
Especialistas afirmam que o julgamento é o maior teste jurídico até o momento sobre os efeitos das redes sociais em usuários jovens.
A Meta enfrenta milhares de processos semelhantes sobre supostos danos a crianças.
Bejar tem sido uma testemunha-chave contra a empresa em três dos casos que já foram a julgamento até o momento.
Um desses casos, movido pelo Novo México, resultou em US$ 942 milhões em indenizações e penalidades, além de uma ordem exigindo que a Meta altere suas plataformas no estado.
