O uso de dispositivos digitais na infância levanta questões que vão além do tempo de exposição, como os limites estabelecidos pelos adultos e o espaço para o brincar, o convívio e outras experiências fora das telas.
Para muitas famílias, celular, tablet e televisão já fazem parte da rotina das crianças.
A questão ganha complexidade quando a tela se torna a resposta automática para o tédio, a espera ou a falta do que fazer, e estabelecer limites passa a significar lidar com frustrações e conflitos dentro de casa.
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A discussão, segundo o pediatra Daniel Becker e o escritor e educador Ilan Brenman, vai além do tempo de exposição e envolve também o espaço que sobra para o brincar, o convívio e outras experiências fora do ambiente digital.
No dia 26 de agosto, Becker e Brenman participam da palestra "A Infância Sequestrada pelas Telas", no Teatro das Artes, em São Paulo, como parte da programação do Alma Talks.
O encontro é inspirado no livro de mesmo nome, escrito pelos dois, e aborda a relação de crianças e adolescentes com os dispositivos digitais e os desafios enfrentados por famílias e educadores.
Excesso de telas: como estabelecer limites para crianças sem brigas em casa
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Para Daniel, a discussão não deveria se limitar à quantidade de horas diante de uma tela.
Em sua avaliação, também é necessário observar o que fica de fora quando o dispositivo ocupa um espaço maior na rotina.
Entre essas experiências está o brincar, que pode surgir justamente nos momentos em que não há uma atividade previamente planejada.
"Eles precisam se lembrar de que existe o mundo real", afirma o pediatra.
Becker chama atenção para o risco de transformar o aparelho na solução imediata para qualquer momento de tédio.
A ideia não seria eliminar a tecnologia, mas evitar que ela se torne a única alternativa disponível.
"É preciso sobretudo não permitir que ela passe a precisar daquela telinha sempre que estiver entediada", diz.
Daniel Becker
Divulgação
Como estabelecer limites
A dificuldade de reduzir o uso dos dispositivos, porém, não está apenas na reação de crianças e adolescentes.
Ilan considera que os adultos também têm papel na definição e na manutenção das regras estabelecidas em casa.
"Os adultos precisam sustentar suas decisões.
Somos adultos e, sendo adultos, somos responsáveis pelos nossos filhos e adolescentes", observa.
O escritor reconhece que limitar ou interromper o uso do celular pode provocar frustração.
Em sua avaliação, essa reação faz parte do processo e não deveria, por si só, levar os responsáveis a abandonar os limites definidos.
"No começo, por mais que elas fiquem frustradas, a gente tem que sustentar essa frustração", avalia Brenman.
A partir daí, segundo ele, a criança pode encontrar outras formas de ocupar o tempo que antes era preenchido pelo celular.
São momentos que, na visão do escritor, não precisam necessariamente ser preenchidos por uma atividade: "O tédio e o ócio são grandes fontes de criatividade, de sonhos, de grandes despertares."
Ilan Brenman
Divulgação
Mais do que contar horas
A questão não se resume à retirada dos dispositivos ou à definição de um número de horas considerado ideal.
Também envolve o espaço que as atividades digitais ocupam em relação a outras experiências da infância e da adolescência.
Brincadeiras, encontros com amigos, atividade física, contato com a natureza e momentos de convivência familiar são algumas das possibilidades que podem dividir espaço com o entretenimento digital.
Becker considera que preservar essas experiências é importante.
"É no mundo real que elas brincam, interagem, socializam, correm, se exercitam, têm contato com a natureza, estudam e fazem esporte", conclui.
Excesso de telas na infância: como estabelecer limites sem transformar o celular em motivo de conflito
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