O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, afirmou nesta quarta-feira que vai anunciar "medidas cabíveis e necessárias" após a revelação de mensagens enviadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.
Fachin disse em discurso que vai adotar as ações "no tempo devido e sem precipitação".
Faça o teste do GLOBO e descubra: Com qual candidato a presidente você mais se identifica?
Qual é o seu perfil ideológico? Teste do GLOBO revela sua posição político-ideológica com base em uma série de perguntas
— Nos próximos dias, concluída a análise necessária dos fatos e observados os procedimentos institucionais pertinentes, esta Presidência anunciará, no tempo devido e sem precipitação, as medidas que cabíveis e necessárias — disse Fachin nesta manhã em um seminário sobre democracia.
O relatório da Polícia Federal com as mensagens de Vorcaro a Moraes foi elaborado por determinação do ministro André Medonça, relator do caso Master, para que fossem identificados os interlocutores das mensagens enviadas por Vorcaro.
A PF concluiu que eram destinadas a Moraes.
Mendonça, então, pediu um parecer da Procuradoria-Geral da República (PGR), e defendeu que o caso fosse analisado em plenário.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, que foi citado em mensagens de Vorcaro, considerou o relatório nulo por ter sido feito sem um pedido prévio da Polícia Federal ou do Ministério Público.
Caberá a Fachin agora decidir o encaminhamento.
— Os indícios reclamam o devido encaminhamento institucional.
Circunstâncias relacionadas, de um lado, à atuação processual e, de outro, a sérios elementos de fatos que exigem desta Presidência serenidade, responsabilidade e firmeza — afirmou Fachin.
O presidente da Corte disse ainda que o momento é de "especial gravidade" e, portanto, é "dever de todos preservar a integridade do Supremo Tribunal Federal, a autoridade de suas decisões, o respeito às suas normas e, acima de tudo, a confiança da sociedade na instituição".
— A elevada autoridade do cargo não confere privilégios, mas impõe deveres, limites e responsabilidades, que devem ser observados com absoluto respeito à Constituição, às leis e ao Supremo Tribunal Federal — completou o presidente da Corte.
Entenda o caso
Relatório da Polícia Federal (PF) aponta a suspeita de que Vorcaro apelou a Moraes , no auge da crise da instituição financeira, para se livrar do cerco de autoridades.
Durante um período de 13 dias, mensagens extraídas do celular do banqueiro mostram que ele pediu a intervenção do magistrado para impedir a liquidação do banco e o avanço das investigações.
Nas conversas, Vorcaro faz apelos para “sensibilizar” autoridades e pergunta sobre como deveria proceder para “desarmar” e “reverter” a situação.
Mensagens revelam proximidade entre Vorcaro e Moraes
Os diálogos constam de um relatório produzido a partir da análise do aparelho de Vorcaro.
Conforme as apurações, o banqueiro escrevia o texto em um bloco de notas, fazia uma captura de tela e depois o enviava a Moraes um print de visualização única.
Horas antes da prisão
No dia 17 de novembro de 2025, Vorcaro envia uma mensagem a Moraes, perguntando se havia "alguma novidade".
"Conseguiu ter notícia ou bloquear?"
Não é possível saber ao que especificamente Vorcaro se referia, mas ele foi preso algumas horas depois do diálogo no Aeroporto Internacional de Guarulhos durante a Operação Compliance Zero.
Os agentes o interceptaram quando ele se preparava para embarcar em um jato particular para Dubai.
A PF o prendeu na ocasião por suspeita de tentativa de fuga.
Print de anotação de Vorcaro
Reprodução/ Polícia Federal
Menção a Andrei
Um dia antes, em 16 de novembro, a troca de mensagens entre Vorcaro e Moraes foi intensa.
E o banqueiro fez um pedido a Moraes para que ele tentasse “sensibilizar” o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
"Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra.
Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível", diz ele, no print, provavelmente referindo-se à operação da PF que seria deflagrada no dia seguinte.
"Voce acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manha", completa.
Print de anotação de Vorcaro apreendida pela PF
Reprodução/ Polícia Federal
Na ocasião, Vorcaro demonstra receio de ser alvo da PF e aparenta ter informações privilegiadas sobre o andamento das apurações.
O banqueiro tentava ganhar tempo para conseguir vender os ativos do Master a um consórcio formado pela Fictor Holding Financeira com fundos de investimentos do Emirados Árabes, o negócio não prospera em razão da Operação Compliance Zero.
Ainda no dia 16 de novembro, Vorcaro pede a "leitura" de Moraes sobre a situação que o Master estava enfrentando.
"Ele tá sabendo das soluções? E quer antecipar pra não deixar acontecer? Qual a sua leitura? O que tá havendo? E com Andrei da pra segurar", diz o texto.
Pedido de reunião com Galipolo
Antes de pedir a intervenção do ministro sobre Andrei, Vorcaro pediu ajuda para marcar um encontro com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.
Além das investigações da PF, o banqueiro tinha o receio de que o Master fosse liquidado extrajudicial pelo BC, o que aconteceu dois dias depois.
A medida acabou tirando banco das mãos de Vorcaro e causando um rombo bilionário ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) - entidade que protege investidores no Brasil em caso de falência ou liquidação de instituições financeiras.
"E o Galipolo quem esta pressionando isso pra fazer intervenção?", diz o print, que acrescenta: "Tentar que o galipolo me receba e eu apresente o que vamos protocolar essa semana.
Vamos resolver tudo.
Não podem estourar uma bomba atômica na hora da solução, não faz sentido pra ninguém.
Nem pra ele, nem pro governo, pra economia e nem para o Brasil".
No mesmo dia, o banqueiro se diz "perplexo e indignado" com as informações que vinha recebendo e ressalta a necessidade de "dar um jeito de desarmar isso".
"Muita sacanagem isso.
Estou perplexo e indignado.
Esses caras vão destruir todo o negócio e sem volta.
De repente até melhor eu encarar de frente.
Temos que dar um jeito de desarmar isso.
Meu Deus", diz o texto.
Citação a Gonet
No dia 15 de novembro, Vorcaro pergunta se não é possível reverter a situação com Andrei Rodrigues e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Ele também questiona sobre a posição do juiz da primeira instância do Distrito Federal Ricardo Soares Leite, que acabaria assinando o mandado de prisão contra ele.
“Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo.
Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galipolo ta sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que segunda ja tenho que estar fora?”, diz ele, e completa:
"Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso.
Isso em Brasília?"
Juiz de primeira instância
Naquela altura, o juiz Leite já havia recebido a representação do Ministério Público Federal (MPF) com o pedido de prisão do banqueiro desde meados de outubro e estava prestes a assinar a ordem de prisão.
Ele era o magistrado substituto da 10 Vara do Distrito Federal e foi o responsável por autorizar a primeira fase da Compliance Zero.
Quer acompanhar de perto o noticiário das eleições? Participe da comunidade do GLOBO no WhatsApp
No dia 14 de novembro, Vorcaro tenta ressaltar a suposta proximidade que teria com Moraes e destaca a sua gratidão a ele:
"Estamos juntos sempre.
Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você.
Toda minha família, funcionários, parceiros, amigos que dependem de nos tem uma dívida de vida contigo e com a sua família.
Muito obrigado por tudo.
Agora é continuar na pegada pra conseguir concluir, se Deus quiser".
Em 7 de novembro, Vorcaro pergunta a Moraes sobre estratégias de como deveria proceder em relação a uma ação na Justiça.
"O Pier acha que se entrar do nada pode acelerar algo, se justifica.
Ele fez pedido macro, e acredita que vao jogar pra essa vara.
O que acha? Tem ideia se esta controlado?".
"Pier" seria uma referência ao advogado criminalista Pierpaolo Bottini, que atuava na defesa de Vorcaro no ano passado.
No dia 5, ele envia uma série de perguntas ao ministro, dizendo que não faria nenhum movimento sem o aval dele:
“Acha que vale a pena? Nao vou fazer nenhum movimento que voce não achar produtivo.
Estamos no escuro, o Paulo so disse que tava olhando pessoalmente e que nao teria sacanagem.
Mas ontem ligou alerta vermelho ne".
Depois, o banqueiro retoma os questionamentos: "Isso é brasilia? Sabe o tema? Esta seguro ou tem que entrar agora urgente?.
E complementa: "Como estamos aí? Conseguiu bloquear a maldade e sacanagem?"
No dia 4 de novembro, o banqueiro indaga a Moraes sobre possíveis ações judiciais que seriam tomadas contra ele.
"Medio a grave seria busca ou quebra sig? So vai saber qdo ele chamar ne", afirma ele, referindo-se provavelmente a mandados de busca e quebra de sigilo que poderiam ser deferidos contra ele.
No mesmo dia, Vorcaro reclama que, se vier alguma "medida contra agora", "vai tudo por agua abaixo".
"Essa minha maior preocupação".
Relatórios anteriores da Compliance Zero apontam que Vorcaro tinha acesso indevido a sistemas internos da Polícia Federal, do MPF e até mesmo do FBI.
Durante esse período, o ministro do STF chega a responder a algumas mensagens de Vorcaro, mas não é possível saber o conteúdo, porque ele também utiliza o recurso de visualização única, e o celular de Moraes não foi alvo de quebra de sigilo.
