“Os caminhões pau-de-arara / que chegavam do sertão / deixavam os retirantes / ao lado do pavilhão...” Os versos do cordelista Marcus Lucenna, publicado em abril de 2025, ajudam a contar a história da Feira de São Cristóvão, que completa 81 anos na próxima quarta-feira (2).
A literatura de cordel do artista recorda os nordestinos que chegavam ao Rio fugindo da seca e da fome, trazendo na bagagem a esperança de conquistar o pão e uma vida melhor.
O tempo passou, mas a essência permaneceu.
A Feira se transformou, ganhou novos artistas, novos ritmos e novas gerações, sem perder a capacidade de ser casa para quem chegou de longe e também para quem nasceu aqui.
Hoje, mais de 100 artistas se apresentam no espaço, entre sanfoneiros, tecladistas, zabumbeiros, trigueiros, dançarinos, cantoras e cantores, fazendo do forró a trilha sonora permanente no maior polo cultural do Rio.
Um dos exemplos dessa renovação é Katilene Barbosa, a Kati Girl, cantora da Feira há quase 20 anos.
Cearense de Guaraciaba do Norte, ela construiu sua história no palco ao lado do marido, Daniel Barbosa, tecladista.
E a música já chegou à próxima geração: o filho mais velho, Gabriel Cândido Barbosa, de 19 anos, nasceu nesse ambiente e hoje também trabalha como tecladista e instrumentista, realizando shows de forró.
“Ele nasceu na Feira, dormia na capa do teclado e cresceu querendo ser músico.
Toca teclado, guitarra, violão, contrabaixo, sanfona e vários outros instrumentos.
Trabalha aqui na Feira também”, conta Kati Girl.
A artista tem público cativo, durante a semana trabalha como subgerente de uma loja de utensílios para casa, mas é no palco que ela se realiza todo fim de semana.
A cantora é exemplo de um talento formado dentro da Feira.
Nunca fez uma aula formal de canto.
“Nunca participei de uma aula de canto.
Aprendi sozinha.”
Para a diretora Maria da Guia, Kati Girl representa justamente a força dos talentos da casa: “Katilene é uma joia da nossa Feira.
É uma menina de bom coração, que todo mundo ama por aqui.
Ela é um talento nosso da Feira de São Cristóvão.
Quando ela canta, todo mundo para ouvir.
E ainda tem uma família linda, que também toca e faz parte da história da nossa Feira”, destacou.
Magno Pereira, também diretor, resume o espírito da celebração: “Vamos fazer 81 anos celebrando os artistas da casa.
Esses talentos mantêm a nossa Feira de São Cristóvão com muitos shows toda semana, animando o nosso público e fazendo com que a nossa cultura nordestina permaneça viva”, disse o integrante da Comissão dos Feirantes.
A Feira que um dia recebeu retirantes hoje vê seus filhos e netos subirem ao palco.
A saudade continua sendo parte da história, mas agora ela vem acompanhada de uma certeza: a tradição não apenas resiste.
Ela se renova.
Contexto histórico
A Feira de São Cristóvão celebra seu aniversário em 2 de setembro, data que marca simbolicamente o início de uma das mais importantes histórias da presença nordestina no Rio de Janeiro.
Em 1945, no contexto do fim da Segunda Guerra Mundial, o poeta e cordelista Raimundo Santa Helena recitou o folheto “Fim da Guerra” para soldados e nordestinos reunidos no Campo de São Cristóvão.
O episódio tornou-se o marco oficial da Feira e ajudou a transformar aquele espaço em ponto de encontro.
A partir dali, migrantes passaram a se reunir, trocar notícias, matar a saudade da terra e comercializar produtos trazidos do Nordeste.
Nascia, assim, um símbolo de memória, encontro, trabalho e resistência.
