Fenômeno

Fenômeno 'atípico' teve ventos com o dobro e até triplo da força média em regiões de Rio e SP; veja

Fonte: Bandeira da fonte

O vendaval que deixou mortos e transtornos em várias cidades nesta quarta-feira foi impulsionado por rajadas com o dobro e até o triplo da força média neste mês de julho, indicam dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
Considerado "atípico" pelos meteorologistas, dadas a magnitude e a extensão, o fenômeno deixou mortos, milhares de pessoas sem energia elétrica e transtornos urbanos.
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Os dados apontam o que as estações do Inmet captaram.
Autoridades locais divulgaram valores ainda maiores de velocidade dos ventos, como em Itaporanga, em São Paulo, na divisa com o Paraná, onde a ventania chegou a 125 km/h.
No litoral sul paulista, como Itanhaém e em Santos, as rajadas passaram de 100 km/h.
Pelos dados do Inmet, a força dos ventos se intensificou sobretudo no estado do Rio, da capital ao litoral sul.
Em linhas gerais, estações que normalmente registravam rajadas máximas diárias na faixa de 25–45 km/h chegaram a 70–95 km/h neste dia 29.
Paraty, na Costa Verde, registrou o caso mais extremo: a rajada máxima diária foi de 24,6 m/s (o equivalente a 88,6 km/h) enquanto a média mensal, incluindo o dia 29, ficou em apenas 7,3 m/s (26,3 km/h).
Antes desta quarta, os ventos variaram entre 4–11 m/s por lá, com pico de 15,6 m/s no dia 12.
Mesmo "puxando" a média para cima, o valor do dia 29 ainda foi mais de três vezes a média do mês, o que corrobora a força do fenômeno.
A ventania desta quarta foi 237% mais forte que a média em Paraty.
Em termos absolutos, o caso mais extremo foi registrado na estação da Marambaia, na Zona Oeste do Rio, onde a rajada máxima foi de 26,5 m/s — isto é, 95,4 km/h, o dobro da média deste julho, de 43,6 km/h (variação de 119%).
O máximo anterior este mês havia sido 67 km/h, no dia 18.
Ventos extremos pelo país
Arte O Globo
Depois de Marambaia, os ventos mais fortes registrados pelo Inmet foram em Seropédica – Ecologia Agrícola (90,0 km/h), onde a média mensal fica em 35,3 km/h.
Outras regiões tiveram ventania intensa, mas já possuíam médias naturalmente mais elevadas.
É o caso da estação do Pico do Couto, que teve rajada máxima de 73,1 km/h neste dia 29.
Outros locais do Rio registraram o triplo da força dos ventos que vinham registrando este mês.
Em Duque de Caxias/Xerém, na Baixada Fluminense, a rajada máxima no dia 29 foi de 79,2 km/h, num salto de 219% em relação à média.
Até aqui, o vento mais forte havia sido de 44,3 km/h, no dia 17.

Já na Vila Militar, o salto em relação à média de julho foi de 200%, com máximo de 87,5 km/h.
O valor mais alto era de 47,5 km/h, e a média para julho fica em 29,2 km/h nessa região da Zona Oeste do Rio.
Jacarepaguá registrou números semelhantes, com rajada máxima de 82,1 km/h nesta quarta, mais de duas vezes a média para o local, de 29,2 km/h.
Em São Paulo, pelas estações do Inmet, o destaque foi para Registro.
A estação por lá captou rajada máxima de 72,4 km/h nesta quarta, um valor 172% superior à média do mês, de 26,6 km/h.
Até então, o vento mais forte havia sido de 50,8 km/h, em 23 de julho.
Outras estações em terras paulistas também registraram dados mais elevados, porém de forma menos extrema.
Impacto no Rio
No Rio, duas pessoas morreram na Rua Doutor Júlio Otoni, em Santa Teresa, após a queda de um muro: o ex-jogador de futebol Tássio Maia dos Santos e seu amigo Vandré Cordeiro.
Instantes antes, crianças que brincavam na calçada escaparam da tragédia.

Em Mesquita, na Baixada Fluminense, uma pessoa ficou em estado grave ao ser atingida pelo telhado de um imóvel arrancado pelo vento.
Metrô, trens, VLT, barcas e BRT tiveram a circulação interrompida, e o Aeroporto Santos Dumont ficou sem energia.
O Corpo de Bombeiros encontrou, na manhã desta quinta-feira, o corpo de uma pessoa na Praia de Tarituba, em Paraty, na Costa Verde, durante as buscas por um pescador que sumiu durante o vendaval.
A vítima será encaminhada ao Instituto Médico Legal (IML), que fará a identificação.
Pontos turísticos também foram afetados: o Bondinho do Pão de Açúcar suspendeu a operação por segurança, e o telhado de uma estrutura do Fluminense, nas Laranjeiras, foi danificado.
Árvores e semáforos caíram na região dos Arcos da Lapa, agravando o trânsito na volta para casa.
O Corpo de Bombeiros montou um gabinete de crise, e o Cemaden-RJ alertou que os efeitos da frente fria podem persistir até as 7h desta quinta-feira.
Mortes em São Paulo
Em São Paulo, a Defesa Civil emitiu alerta severo e orientou a população a evitar áreas descobertas e embaixo de árvores.
O Corpo de Bombeiros registrou 40 quedas de árvores na Região Metropolitana da capital na quarta-feira.

Em Santos, onde a rajada superou 111 km/h, uma pessoa em situação de rua morreu atingida por uma árvore na Avenida Almirante Cochrane; um muro de um prédio da Receita Federal e um armazém também desabaram no bairro do Paquetá.
Outras duas mortes foram registradas no litoral e no interior paulista.
Em São Sebastião, um homem de 50 anos morreu após o naufrágio de um barco de pesca no bairro Cigarras.
Ele foi resgatado desacordado e não resistiu a caminho do hospital.
Em Cesário Lange, um motorista de 62 anos morreu ao ser atingido por uma árvore que caiu sobre seu carro na Estrada José Ricci.
Na capital paulista, a Prefeitura informou, por meio do Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas, que as rajadas chegaram a 70 km/h.
O órgão atribuiu o temporal ao forte contraste entre o ar quente que predominava sobre parte do Sudeste e o ar frio trazido pela frente fria.
O que aconteceu?
Meteorologistas explicam que houve um "gradiente de pressão" muito forte em um curto espaço territorial.
Isso significa que a frente fria veio acompanhada por uma mudança muito brusca da pressão atmosférica, o que criou uma força muito intensa empurrando o ar da região de maior pressão para a de menor pressão.

Esse deslocamento do ar resulta justamente nos ventos.
E como o choque da frente fria com o calor das cidades foi muito abrupto, e em curta distância, o movimento formou rajadas.
O gradiente é justamente a velocidade com que a pressão muda de um lugar para outro.
— O gradiente de pressão está muito intenso.
E quanto a gente tem isso, ou seja, uma diferença de pressão muito grande entre as duas massas de ar, provoca ventos de velocidade muito grande — explica Wallace Menezes, professor de meteorologia da UFRJ.
Luiz Silva, chefe de meteorologia da startup Nimbus, disse que os eventos nos quatro estados foram causados por esse mesmo fenômeno.
No fim da tarde desta quarta-feira, a frente fria estava em Santa Catarina e na divisa entre São Paulo e Paraná, onde antes o tempo estava quente e seco.
— Então quando você tem dois sistemas, um frio e um quente, com diferenças grandes.
Isso fortalece a ocorrência de ventos mais fortes.
A atmosfera tenta entrar em equilíbrio — explica.

Difícil de se prever
O meteorologista Humberto Barbosa, coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis), da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) frisou que esses eventos de ventos extremos são muito difíceis de serem previstos.
— Prever o tempo normal já é bastante difícil, mas os tornados são particularmente imprevisíveis.
Por serem eventos tão específicos e localizados, são extremamente sensíveis às condições iniciais.
A imprevisibilidade inerente aos tornados significa que previsões mais precisas ainda podem estar limitadas a algumas horas
Chuvas moderadas nos próximos dias
Com a entrada da frente fria, os ventos ainda podem acontecer, mas o que deve acontecer mesmo até o final de semana são as chuvas.
Não há previsão de tempestades, e sim de precipitações moderadas, e ocasionalmente fortes.
— Essa região vai ficar até sexta feira sobre o efeito da frente fria.
Ela vai se deslocando aos poucos, maior volume de chuva esperado, mas são esperadas chuvas fracas a moderadas na maior parte dessas regiões, podendo ser forte em alguns pontos isolados durante a passagem do sistema — afirmou Luiz Silva.