Com recorde de inscritos e sucesso de público, o Festival de Cinema de Vitória encerrou sua programação no dia 25 de julho, consagrando o documentário capixaba “A Caminhada Sagrada de Tatatxi Ywareté”, do diretor Marcelo Guarani.
Ao longo de uma semana foram exibidas 87 obras oriundas de várias regiões do Brasil, consolidando o maior evento do cinema e audiovisual do Espírito Santo no calendário do país.
— Receber 1.697 obras inscritas nesta 33ª edição, superando o recorde do ano passado, é uma alegria enorme e também uma confirmação da relevância que o Festival de Cinema de Vitória construiu ao longo de sua trajetória.
Depois de 33 anos, continuar despertando o interesse de tantos realizadores de diferentes lugares do Brasil mostra que o evento permanece vivo, atual e conectado com a produção audiovisual contemporânea — celebra Larissa Delbone, produtora executiva do festival.
Sendo um dos eventos audiovisuais mais longevos do país, teve a edição de 2026 marcada pela pluralidade de filmes, seja em razão do recorte geográfico, das diferentes temáticas ou da variedade de linguagens.
Essa característica também se refletiu na premiação, que contemplou produções de todas as regiões.
— Em um país de dimensões continentais e de enorme diversidade cultural, os festivais cumprem um papel fundamental na circulação dessas produções, especialmente de filmes que muitas vezes encontram poucas oportunidades de exibição no circuito comercial.
Reunir essa diversidade em um mesmo festival é aproximar o público dos muitos "Brasis" que coexistem no país e, ao mesmo tempo, criar um ambiente fértil para o encontro entre realizadores, produtores, estudantes e espectadores — destaca Delbone.
De 18 a 25 de julho, o público teve acesso gratuito a uma extensa programação com 11 mostras competitivas de longas, curtas e videoclipes, além de debates, homenagens e oficinas de formação.
As cerca de 25 mil pessoas que frequentaram o Sesc Glória e o Hotel Senac Ilha do Boi, lotando as sessões vespertinas e noturnas, ajudaram a transformar Vitória em um polo exibidor da indústria cinematográfica nacional ao longo dos oito dias de evento.
O amadurecimento do cinema capixaba
Segundo Larissa, houve um crescimento não apenas quantitativo da produção audiovisual do Espírito Santo nos últimos anos, mas também da qualidade, diversidade e maturidade artística.
— O fato de várias produções capixabas terem sido premiadas nesta edição é consequência desse amadurecimento.
É o resultado de um trabalho contínuo de realizadores, produtores, técnicos, roteiristas, atores e atrizes que vêm fortalecendo toda a cadeia do audiovisual no estado — explica.
Cerca de 25 mil pessoas frequentaram o Sesc Glória e o Hotel Senac Ilha do Boi, lotando as sessões vespertinas e noturnas
Sérgio Cardoso/Acervo Galpão IBCA
Das 87 obras exibidas nas mostras competitivas, 23 eram produções capixabas, com algumas entre as vencedoras do festival.
Dentre os curtas-metragens premiados com o Troféu Vitória, destacam-se “Irmã”, de Anderson Bardot, “Liberdade de Morar”, de Penha Souza e “O Que Faço Com Isso Agora Que Acabou?”, de Julia Uliana e Natália Dornelas.
Este último traz uma nova abordagem sobre o câncer no cinema por meio da metalinguagem.
Criado a partir de uma experiência pessoal da diretora Julia Uliana, a narrativa foca no período de remissão da doença e no retorno à vida cotidiana.
Para a cineasta, apresentar o filme no seu estado foi a realização de um sonho.
— Eu comecei a frequentar o Festival de Cinema de Vitória no meu primeiro ano de faculdade, ainda como espectadora.
Na época, eu brincava que um dia teria um filme exibido aqui.
Então, o Festival era uma janela de exibição que sempre foi muito sonhada.
Além de ser uma referência como espaço de circulação de produções e de profissionais da área, seria também uma oportunidade de mostrar o trabalho onde ele foi feito e junto de toda a equipe — comenta Julia, de 29 anos.
Dez anos depois do sonho da então estudante de cinema, a já diretora e atriz retornaria ao mesmo Teatro Glória – local que também serviu de set de filmagens para o curta – para exibi-lo no festival, de onde saiu duplamente premiado.
— São dois prêmios muito significativos, principalmente porque a mostra competitiva exibiu filmes excelentes de todo o Brasil.
O do Júri Popular revela uma conexão com as pessoas e com o público.
Já o Prêmio Especial do Júri, por ter sido um reconhecimento à experimentação da linguagem, muito pensada e trabalhada por nós — afirma Julia.
Símbolo maior da maturidade da produção capixaba nesta edição do evento, contudo, foi o documentário “A Caminhada Sagrada de Tatatxi Ywareté”, do diretor Marcelo Guarani (Werá Djekupé), que participou da Mostra Competitiva Nacional de Longas.
O filme retrata a saga da líder xamânica guarani, bisavó do diretor, que caminhou 35 anos em busca de um lugar para viver com seu povo.
Nos anos 1940, iniciou a caminhada saindo da região das Missões Jesuíticas, no Rio Grande do Sul, e terminou no litoral de Aracruz, no norte do Espírito Santo, onde hoje vivem seus descendentes.
O filme é fruto de pesquisa que incluiu registros da época, gravações existentes, escritos de antropólogos e o acervo do fotógrafo Rogério Medeiros, que documentou a chegada dos Guarani ao estado.
Marcelo Guarani, diretor do filme “A Caminhada Sagrada de Tatatxi Ywareté”
Melina Furlan e Vikki Dessaune/Acervo Galpão IBCA
— Participar do Festival foi maravilhoso.
Nos inscrevemos para que as pessoas pudessem conhecer a história de Tatatxi, de sua caminhada sagrada, e o filme acabou saindo premiado.
Isso nos deixou muito felizes.
Já tinha sido emocionante ter levado os anciãos para assistir à sessão.
Não imaginava que íamos ganhar um prêmio — afirma o diretor Marcelo Guarani, de 56 anos.
Ao todo, ganharam cinco: Troféu Vitória nas categorias de Melhor Filme, tanto do Júri Técnico quanto do Júri Popular, e de Melhor Contribuição Artística, além do Prêmio Sesc Glória e do Prêmio Stone Milk de Pós-Produção.
Para o diretor, que iniciou sua trajetória no cinema como intérprete guarani-português nas obras do parceiro Ricardo Sá, produtor do filme, trata-se de uma oportunidade de valorização cultural.
— Acho que é um legado para a nossa comunidade e também para o público, que foi tocado por essa experiência.
É uma forma de diminuir o preconceito e a ignorância.
Além disso, é um incentivo porque, nós, o povo Guarani, temos muitas histórias.
Mostrar a nossa cultura e a nossa tradição nos anima a continuar.
E o cinema nos ajuda a contar aquilo que só está na memória — conclui Marcelo.
Homenagens
Desde as origens da sétima arte, memória e cinema sempre tiveram uma relação estreita.
No Festival, que todos os anos rende homenagens a importantes personalidades da cultura, essa tradição tem uma peculiaridade: os Cadernos dos Homenageados.
Escritos pelos jornalistas Leonardo Vais e Paulo Gois Bastos, os livros reúnem pesquisa, imagens e depoimentos, criando um retrato de quem ajudou a construir o audiovisual brasileiro.
— A cada edição, quando escolhemos uma personalidade para homenagear, entendemos que não basta celebrar sua trajetória durante o Festival.
É importante registrar essa história para que ela permaneça.
Essa também é uma forma de entender o papel de um festival.
Além de exibir filmes e promover encontros, ele pode contribuir para preservar a memória, valorizar seus protagonistas e deixar um legado para as próximas gerações — explica Larissa.
O Festival de Cinema de Vitória é o único do país que produz, de forma contínua, uma publicação biográfica dedicada aos seus homenageados, acervo que já conta com nomes como Lázaro Ramos, Elisa Lucinda, Marcélia Cartaxo, Ney Matogrosso, Dira Paes, José Wilker e Zezé Motta, para citar apenas alguns.
Na 33ª edição do evento, a homenageada nacional foi a premiada atriz Camila Morgado, que começou a carreira aos 17 anos e vem transitando com obras marcantes pelo cinema, teatro, televisão e streaming.
Em seu discurso, recordou as diversas mulheres que interpretou, ressaltou o papel social do artista e agradeceu a oportunidade de, aos 51 anos, revisitar sua trajetória.
Além disso, destacou o momento pulsante do cinema brasileiro.
Camila Morgado foi a personalidade homenageada da 33ª edição do evento
Melina Furlan e Vikki Dessaune/Acervo Galpão IBCA
— Estou filmando em Belo Horizonte e, hoje, no meu dia de folga, recebo essa homenagem do Festival de Cinema de Vitória.
Depois, vou para o Amapá, filmar lá.
E o último filme que eu fiz foi em Curitiba.
Então, pensei, como é lindo ver que o nosso cinema está se nacionalizando de verdade.
A gente tá ocupando todos os lugares do nosso país.
Viva o cinema nacional, viva o cinema capixaba, vida longa para esse festival tão acolhedor — agradeceu a atriz, ao receber o Troféu Vitória e o Caderno da Homenageada.
Também foi celebrado o cineasta capixaba Rodrigo Aragão, expoente do cinema de horror no Brasil.
Com mais de 30 anos de carreira, possui 8 longas-metragens e se destaca nas áreas de maquiagem de efeitos especiais e direção de efeitos especiais práticos.
— Esse festival é um momento muito especial na minha vida.
Pra mim, ser homenageado na terra em que eu nasci, que eu escolhi morar e trabalhar, é algo muito importante.
Porque aqui é o lugar mais importante do mundo pra mim — afirmou o diretor, durante a homenagem, no palco do Teatro Glória.
Festival de Cinema de Vitória Itinerante no Verão
Outra particularidade do Festival, realizado tradicionalmente na capital durante o mês de julho, é o formato itinerante que adquire durante o verão.
A iniciativa leva o cinema brasileiro para as cidades litorâneas do Espírito Santo, com dois dias de programação, sendo o primeiro de exibição audiovisual e o segundo de um show musical.
O 33° Festival de Cinema de Vitória Itinerante, que conta com o patrocínio da Petrobras por meio da Lei Rouanet, tem início previsto para o dia 8 de janeiro de 2027, em Guarapari, de onde seguirá por mais três balneários do estado.
— Nosso objetivo não é apenas projetar filmes em uma tela.
Em cada cidade, montamos uma verdadeira sala de cinema a céu aberto, com telão de alta definição, sistema de som, cadeiras e toda a estrutura necessária para recriar a experiência cinematográfica, mas em um ambiente democrático e integrado à paisagem do litoral capixaba.
Depois de um dia de praia, moradores e turistas podem viver o ritual de ir ao cinema, compartilhando histórias, emoções e reflexões em um espaço público de convivência.
É uma experiência que une cultura, turismo, lazer e cidadania — finaliza Larissa Delbone.
Com realização da Galpão Produções e do Instituto Brasil de Cultura e Arte (IBCA), o 33º Festival de Cinema de Vitória contou com o patrocínio da Petrobras e da Vale e com o copatrocínio do Banestes, por meio da Lei Rouanet.
