Em painel que encerrou dois dias de debates sobre produtividade e sustentabilidade promovidos pelo Instituto Itaúsa, superintendente da Fundação Arymax, Vivianne Naigeborin, no âmbito da São Paulo Climate Week, nesta terça-feira (04), defendeu que a filantropia brasileira precisa assumir um papel mais indutor para garantir que os ganhos de produtividade do país não deixem milhões de trabalhadores para trás.
Ela dividiu a mesa com a cientista política Mônica Sodré, da Meridiana, e o conselheiro Vicente Assis, do Instituto Itaúsa, sob mediação de Marcelo Furtado, do Instituto Itaúsa.
Conhecida por sua atuação em inclusão produtiva, mas também por uma trajetória anterior como investidora e alocadora de capital, Naigeborin definiu o conceito como a inclusão de pessoas em situação de vulnerabilidade econômica no mundo do trabalho, seja por emprego formal, trabalho por conta própria ou empreendedorismo.
"O trabalho é um direito e (...) são as pessoas que elevam a produtividade do país, ainda que as tecnologias mudem", afirmou, lembrando que essas mesmas pessoas também são consumidoras dos produtos e serviços gerados pela economia.
A executiva contextualizou o desafio atual: a taxa de desemprego no Brasil hoje é baixa, mas o país ainda tem cerca de 40 milhões de trabalhadores na informalidade, muitos deles com baixa qualificação e distantes das transformações demográfica, climática e tecnológica em curso.
Para ela, o desafio central de governança nesse campo é preparar os trabalhadores para essas mudanças sem deixá-los para trás — e garantir que os empregos gerados sejam dignos e permitam mobilidade social.
Naigeborin recorreu à história econômica para justificar essa preocupação.
Segundo ela, o modelo de desenvolvimento econômico do Brasil nunca veio acompanhado de um modelo equivalente de desenvolvimento social: o processo de industrialização iniciado nos anos 1930, concentrado na região Sudeste, deixou um desequilíbrio regional que o país carrega até hoje, com salários que não acompanharam a evolução da produtividade e uma qualificação da força de trabalho que ficou para trás.
"A produtividade andou, o aprimoramento de habilidades não caminhou", resumiu, defendendo que a governança dos processos futuros passa por definir quem senta à mesa para tomar essas decisões.
Questionada pelo moderador sobre como ampliar recursos filantrópicos num país que é a décima maior economia do mundo, mas tem um setor filantrópico ainda pequeno.
"A filantropia no Brasil é muito tímida, ela tinha potencial para ser muito maior do que ela é".
Para ela, esse papel indutor pode se desdobrar em pelo menos três frentes: produção de dados e evidências para qualificar políticas públicas; coordenação de agendas que hoje operam de forma isolada — como assistência social, trabalho e desenvolvimento econômico, que raramente dialogam entre si; e articulação, já que a filantropia brasileira reúne boa parte das grandes lideranças empresariais do país.
Ela também traçou uma diferença em relação aos Estados Unidos, onde a filantropia tende a suprir a ausência de políticas públicas de bem-estar social.
No Brasil, segundo Naigeborin, o cenário é distinto: como o país já tem um número maior de políticas públicas, a filantropia tem se voltado a produzir dados e evidências que qualifiquem e coordenem essas políticas existentes — um papel que ela considera ainda mais estratégico neste momento de transição tecnológica e climática.
Ao ser questionada sobre o papel do indivíduo — no seu caso, na condição de sociedade civil — na construção de um país que integre produtividade e sustentabilidade, a executiva afirmou não conseguir imaginar nada mais importante do que as pessoas.
"Não dá para discutir clima sem discutir o impacto que isso vai ter nas pessoas, não dá para discutir prosperidade sem entender como é que a gente inclui um número maior de pessoas num Brasil mais próspero", disse, defendendo que qualquer pacto nacional precisa priorizar o bem-estar das pessoas, da criação de empregos verdes dignos à ampliação do letramento em inteligência artificial em larga escala.
No encerramento do painel, a executiva pediu à plateia um passo além de assistir ao evento: buscar, cada um, pelo menos cinco pessoas interessadas no tema da produtividade e da sustentabilidade que ainda não conheçam a iniciativa do Instituto Itaúsa, para ampliar o alcance da conversa.
