A estabilidade de Flávio Bolsonaro (PL) na nova rodada da pesquisa Genial/Quaest, divulgada nesta quarta-feira, foi recebida com alívio por integrantes de sua campanha após uma sequência de reveses políticos na reta final das convenções.
Embora as oscilações em relação ao levantamento anterior estejam dentro da margem de erro e não permitam apontar uma melhora efetiva do senador, aliados avaliam que os números reduzem o temor de que o isolamento partidário causado pelas sucessivas negativas do Centrão produzissem um desgaste imediato de sua candidatura.
Foi a primeira pesquisa Quaest após a oficialização das candidaturas de Flávio e Lula.
No primeiro turno, Flávio aparece com 30% das intenções de voto, ante 28% no levantamento anterior.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou de 40% para 39%.
Num eventual segundo turno entre os dois, Lula tem 44%, contra 39% do senador.
Na rodada passada, o placar era de 45% a 37%.
Todas as variações estão dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, o que mantém o quadro de estabilidade.
É justamente essa manutenção do patamar que auxiliares do presidenciável destacam.
A pesquisa foi realizada entre 31 de julho e 3 de agosto, período em que Flávio atravessou dificuldades para fechar sua coligação, recebeu negativas de partidos que cortejava e chegou à reta final das convenções sem conseguir incorporar uma nova legenda à candidatura.
— Flávio vem mantendo a tendência das outras pesquisas — resumiu o ex-ministro da Saúde Marcelo Queiroga, aliado de Flávio.
Na avaliação de Queiroga, a falta de alianças com partidos do Centrão não deverá necessariamente produzir impacto nas intenções de voto.
Isolamento sob teste
A leitura representa um contraponto às dificuldades políticas enfrentadas pela candidatura nas últimas semanas.
Flávio chegou ao período das convenções tentando ampliar a chapa para além do PL e buscou, em diferentes momentos, atrair PP, União Brasil, Republicanos e Podemos.
As negociações fracassaram, e as legendas decidiram não aderir formalmente à candidatura.
A principal aposta foi a federação União Progressista, formada por PP e União Brasil.
Flávio chegou a investir na senadora Tereza Cristina (PP-MS) para ser sua candidata a vice.
Ela demonstrou disposição para integrar a chapa, mas o PP, após consultar seus diretórios estaduais, decidiu permanecer fora da coligação presidencial.
A campanha se voltou então para o Republicanos.
Flávio defendia a ex-presidente da Caixa Daniella Marques como alternativa para a vice e participou, ao lado do coordenador da campanha, Rogério Marinho (PL-RN), e do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, de uma última conversa com Marcos Pereira na véspera da convenção do partido.
Também não houve acordo.
Dos 27 diretórios estaduais consultados pelo Republicanos, 17 defenderam a neutralidade, nove o apoio a Flávio e um a Lula.
O Podemos, procurado na reta final, igualmente decidiu não integrar formalmente a coligação.
O resultado deixou Flávio dependente da bancada do próprio PL para a divisão do horário eleitoral.
Uma projeção do GLOBO feita com base nas regras do Tribunal Superior Eleitoral indica que Lula deverá dispor de aproximadamente 5 minutos e 32 segundos em cada bloco de propaganda eleitoral, contra 4 minutos e 20 segundos do adversário — diferença de 1 minuto e 12 segundos.
Hoje, o presidenciável vai anunciar seu vice.
Segundo aliados, o favorito é Marinho, mas a escolha também pode ser a deputada federal Priscila Costa (PL-CE), aliada de Michelle.
Dentro da campanha, porém, a avaliação é que a polarização entre Lula e Flávio pode reduzir o peso eleitoral dessa desvantagem.
Aliados argumentam que a concentração da disputa nos dois candidatos diminui a necessidade de construir já no primeiro turno uma coalizão semelhante àquela que seria necessária numa eleição mais fragmentada.
A aposta é que o desempenho de Flávio dependerá mais de sua capacidade de avançar em regiões onde Lula ainda mantém vantagem expressiva do que das alianças partidárias fechadas nesta etapa.
— A pesquisa mostra Flávio estável.
Acredito que regiões como o Nordeste vão ser essenciais.
O Nordeste acordou e Lula vai perder muitos votos aqui.
Vamos reduzir a diferença e manter o desempenho no Sudeste, como no Rio e em São Paulo — diz o líder da oposição, Cabo Gilberto (PL-PB).
Rejeição também recua numericamente
Outro dado acompanhado pela campanha é a rejeição de Flávio.
O senador continua sendo o candidato com maior percentual de eleitores que dizem conhecê-lo e não votar nele, mas a taxa oscilou de 57% para 54%.
Lula aparece logo atrás, com 52%, ante 50% anteriormente.
Assim como nas intenções de voto, as variações estão dentro da margem de erro.
A redução dessa distância é observada pela campanha num momento em que Flávio prepara uma ofensiva para tentar aumentar o desgaste do adversário.
Uma das frentes será explorar a nova investigação da Polícia Federal sobre Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, tanto nas redes sociais quanto nos discursos do candidato.
A estratégia já vinha sendo preparada antes mesmo da troca no comando da comunicação e deverá ser incorporada pela equipe do novo marqueteiro, Duda Lima.
Entre as peças discutidas estão referências a Lula como “pai do Lulinha” e questionamentos sobre “onde está” o filho do presidente, numa tentativa de associar diretamente ao petista as suspeitas investigadas pela PF.
A estabilidade registrada pela Quaest ocorre ainda depois de outros episódios que produziram preocupação no PL.
A pré-campanha atravessou a crise envolvendo as negociações de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, o embate público do senador com Michelle Bolsonaro e duas trocas no comando da comunicação.
