O candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, tenta se desvencilhar do desgaste envolvendo o financiamento do filme “Dark Horse” após o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar que a Polícia Federal tenha acesso a uma investigação aberta pela Polícia Civil de São Paulo.
Enquanto o inquérito que corre em São Paulo apura se recursos de um programa da prefeitura da capital abasteceram a produtora responsável pela biografia de Jair Bolsonaro, a PF analisa a destinação de emendas parlamentares e mira as verbas do fundo que captou verba para a produção.
Essa segunda frente preocupa mais a campanha, pois existe a suspeita na investigação que recursos destinados ao fundo possam ter sido usados para bancar gastos no exterior do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que mora nos Estados Unidos.
Mensagens revelaram que Flávio pediu verbas para o filme ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, que chegou a pagar R$ 61 milhões.
Logo após o início da crise, em maio, o presidenciável prometeu apresentar uma prestação de contas, mas agora atribui à produtora a responsabilidade.
A orientação do QG de campanha é tratar o caso como assunto da produtora e das autoridades responsáveis pelas investigações e reforçar, no campo político, a ofensiva sobre as suspeitas envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
A estratégia ficou explícita na noite de segunda-feira, quando Flávio foi questionado sobre a prestação de contas do longa e afirmou que não cabe mais a ele dar explicações sobre os recursos usados na produção.
Em maio, ele havia prometido apresentar as contas em 30 dias.
Agora, Flávio sustenta que a produtora Go Up Entertainment já apresentou informações sobre os gastos no âmbito da investigação conduzida em São Paulo e que eventuais cobranças devem ser dirigidas à empresa.
— Não houve recuo nenhum.
Eu vi a prestação de contas.
(...) Da minha parte eu digo: não sou eu que tenho que prestar conta, é o Lula — afirmou Flávio, antes de citar encontros do presidente com pessoas ligadas ao Banco Master.
A avaliação é que continuar respondendo a cada novo desdobramento de “Dark Horse” prolonga a associação entre Flávio, Vorcaro e as dúvidas sobre o financiamento do longa num momento em que o candidato tenta concentrar a disputa em outros temas.
A decisão de Dino autorizou a PF a acessar dados apreendidos pela Polícia Civil de São Paulo em uma operação que atingiu Karina Ferreira da Gama, sócia da Go Up Entertainment.
O compartilhamento foi pedido pela própria corporação.
Essa investigação é distinta do inquérito relatado pelo ministro André Mendonça, que apura os repasses feitos por Vorcaro para “Dark Horse”.
As duas frentes, no entanto, passaram a se aproximar em torno da produtora e podem fornecer elementos uma à outra.
A autorização de Dino é vista por integrantes do governo como uma forma de dar novo impulso às apurações relacionadas ao filme.
É justamente diante dessa perspectiva de novos desdobramentos que a campanha decidiu reforçar a tentativa de tirar o tema de sua agenda eleitoral.
Integrantes do QG avaliam que Flávio já respondeu politicamente pelo episódio e que eventuais dúvidas sobre valores e documentos devem agora ser esclarecidas por quem recebeu e administrou os recursos.
Lulinha como resposta
Ao mesmo tempo em que tenta retirar “Dark Horse” do centro de sua campanha, o QG de Flávio pretende ampliar a exploração das investigações envolvendo Lulinha como uma das principais frentes de desgaste contra Lula, o que será usado no programa eleitoral na televisão.
Uma das mensagens que serão usadas pela campanha é a que a empresária Roberta Luchsinger afirma que ela e Lulinha seriam “uma coisa só”, além de diálogos nos quais diz que o filho do presidente “só entra em campo quando precisa” e que precisava “se preservar”.
As mensagens integram apurações que investigam suspeitas de tráfico de influência.
Lulinha e Roberta negam irregularidades.
A empresária manteve relações comerciais com Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, apontado pela Polícia Federal como um dos principais personagens do esquema de descontos indevidos em aposentadorias e pensões.
Segundo a investigação, ela recebeu R$ 1,5 milhão do empresário para tentar viabilizar a venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde.
