A tentativa de Flávio Bolsonaro (PL) de repetir uma das principais ferramentas de comunicação usadas pelo pai tem provocado uma avaliação negativa entre aliados do senador.
Desde julho, o candidato à Presidência passou a fazer lives todas as quintas-feiras, seguindo a rotina que Jair Bolsonaro adotou durante o governo e levou para a eleição de 2022.
Após um mês, porém, integrantes do entorno do senador avaliam que as transmissões ainda não conseguiram mobilizar a base nos patamares esperados e demonstram a dificuldade de reproduzir uma fórmula que funcionava com o ex-presidente.
As quatro primeiras “lives de quinta” de Flávio acumulavam cerca de 747 mil visualizações no YouTube até esta quinta-feira.
A estreia, em 23 de julho, chegou a 223 mil; a segunda teve 150 mil; a terceira, 205 mil; e a quarta, 169 mil.
A média é de aproximadamente 187 mil visualizações por transmissão.
O levantamento considera a audiência acumulada de cada vídeo, e não apenas o público que acompanhou as transmissões ao vivo.
Nesta quinta-feira, a live atingiu cerca de 8 mil visualizações no Youtube até cerca de uma hora depois de sua transmissão, desempenho ainda mais baixo até o momento.
O número ainda pode crescer ao longo dos próximos dias, como ocorreu com as edições anteriores, mas representa uma audiência inicial inferior à registrada nas quatro transmissões anteriores.
Na edição desta quinta, ao lado de Daniella Marques e do deputado Guilherme Derrite, Flávio dedicou boa parte da transmissão às novas mensagens envolvendo Lulinha, filho do presidente Lula.
Ele também demonstrou incômodo com os ataques que vem recebendo de outros candidatos de direita e afirmou estar chateado com o comportamento de nomes que esperava que estivessem concentrados em criticar Lula.
O desempenho passou a ser discutido entre aliados justamente porque a escolha das quintas-feiras não foi casual.
Flávio recuperou um formato associado diretamente ao pai, que durante anos usou o mesmo dia da semana para conversar com apoiadores, comentar notícias e pautar sua militância nas redes.
Na campanha de 2022, as transmissões semanais de Jair Bolsonaro chegaram a registrar audiência média na casa das 300 mil visualizações no YouTube, com números ainda maiores em momentos decisivos da disputa.
No entorno de Flávio, há quem relativize a comparação.
A ponderação é que Jair construiu ao longo dos anos uma relação própria com a militância e um poder de convocação que não seria automaticamente transferido ao filho.
“Flávio não é Jair”, resumem aliados ao tratar da diferença entre os números.
Ainda assim, a avaliação é que, uma vez escolhida a estratégia de recuperar as lives semanais, o formato precisa ganhar tração à medida que a campanha avança.
A discussão se soma a outro sinal de alerta registrado logo na largada da campanha.
No último domingo, Flávio reuniu cerca de nove mil pessoas em Copacabana, segundo o Monitor do Debate Político da USP/Cebrap, em um ato cuja imagem de esvaziamento provocou críticas dentro do PL.
A comparação também foi feita com o pai: Jair levou aproximadamente 64 mil pessoas à Avenida Atlântica em 7 de setembro de 2022 e 32 mil a uma manifestação pró-anistia realizada no mesmo local dois anos depois, de acordo com a mesma metodologia.
Na ocasião, integrantes da campanha recorreram justamente ao alcance digital para relativizar a diferença entre pai e filho nas ruas.
A transmissão do lançamento de Flávio chegou a cerca de 35 mil espectadores simultâneos, número citado por aliados como demonstração de que a capacidade de mobilização do candidato não deveria ser medida apenas pelo público presente em Copacabana.
De 187 mil a 922 mil
A diferença entre pai e filho fica mais evidente quando se observam os momentos de maior mobilização eleitoral de Bolsonaro.
Em 27 de outubro de 2022, a dois dias do segundo turno contra Lula, o então presidente fez uma live que hoje acumula cerca de 922 mil visualizações no YouTube.
O contexto era muito diferente do atual.
Bolsonaro estava no fim de uma campanha de reeleição altamente polarizada e tentava reverter uma desvantagem nas pesquisas.
Naquele dia, o Datafolha apontava Lula com 53% dos votos válidos, contra 47% do então presidente.
A transmissão funcionou como uma convocação da militância.
Bolsonaro pediu que os apoiadores buscassem eleitores indecisos e tentassem conquistar “mais um voto por dia” até a eleição.
A campanha já vinha estimulando uma operação de “vira voto”, com a participação de prefeitos e aliados nos estados, e o então presidente aproveitou a live para reforçar a estratégia.
Aliados de Flávio reconhecem que os 922 mil não podem ser usados isoladamente como parâmetro para as transmissões atuais.
Além da proximidade do segundo turno, Jair era presidente e disputava a reeleição.
O número serve, porém, para dimensionar o alcance que o formato adquiriu quando comandado pelo ex-presidente.
Meta de um milhão
A dificuldade de ampliar o público também aparece no número de inscritos no canal de Flávio.
Na primeira transmissão batizada como “live de quinta”, em 23 de julho, o senador pediu ajuda aos espectadores para chegar à marca de um milhão de inscritos no YouTube.
No fim daquele mês, o canal tinha cerca de 940 mil inscritos.
Duas semanas depois, havia avançado para 972 mil e, nesta quinta-feira, estava na casa dos 986 mil.
Apesar da aproximação, a meta anunciada na estreia ainda não havia sido atingida após quatro transmissões.
As lives têm sido usadas para diferentes movimentos da campanha.
Na primeira, Flávio reagiu à divulgação de notas fiscais de seu escritório de advocacia.
Na edição seguinte, anunciou o início da arrecadação eleitoral.
Depois, apresentou candidatos ao Senado apoiados por seu grupo e, mais recentemente, levou o vice, Alfredo Gaspar, para falar sobre o plano de governo.
Apesar da variação dos assuntos, há elementos que se repetem.
Flávio reserva espaço para críticas ao governo Lula, defende o legado da administração do pai e faz referências frequentes ao ex-presidente.
A ideia é transformar a quinta-feira em um compromisso fixo da campanha e criar um canal direto com os apoiadores, que também produza trechos para circular posteriormente em outras plataformas.
