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É raro encontrar uma série policial americana que escape aos esquemas e truques das séries policiais americanas.
Acontece com “Fúria”, um dos melhores lançamentos no streaming.
A primeira temporada tem oito episódios e seis deles já estão disponíveis na Disney+ (os inéditos entram às segundas-feiras).
Recomendo com entusiasmo.
Quando conhecemos a personagem central, Alice (Emmy Rossum), ela está na geladeira no FBI, onde trabalha.
O degredo aconteceu depois que ela denunciou seu então marido e colega policial, Marshall (Jake Lacy), por violência doméstica.
Naquele ambiente profissional essencialmente masculino, ninguém acreditou nela.
Preferiram a versão dele.
Alice foi rebaixada.
Passou a atender ligações telefônicas para a delegacia, uma atividade sem importância para uma detetive talentosa.
É uma mulher traumatizada e triste.
Passa longos períodos sem banho.
Não sorri.
Entrou num aplicativo de relacionamentos e pede aos homens desconhecidos com quem se encontra para baterem nela.
Entre todos os antigos amigos da corporação só sobrou um, Danny (Scoot McNairy).
O personagem, protetor e apaixonado pela colega, é o coração da trama.
Catherine (Lola Petticrew)/Fúria
Disney
Em outra ponta, acompanhamos Catherine (Lola Petticrew), uma serial killer.
Na infância, ela caiu numa rede de tráfico sexual.
Na vida adulta, se dedica a assassinar seus antigos abusadores.
Eles são figuras proeminentes na sociedade novaiorquina.
Catherine aplica uma injeção de veneno e se delicia com a morte lenta das vítimas.
“Fúria” avança alternando os malfeitos de Catherine e o esforço da protagonista para retomar um espaço no FBI.
Até que Alice consegue o apoio de Nora (Quincy Tyler Bernstine, excelente atriz), uma agente sênior especializada em crianças, e passa a investigar o caso.
O suspense prende a atenção, mas o drama empurra a narrativa com a mesma força.
Emmy Rossum e Quincy Tyler Bernstine (Nora)
Disney
A crítica aguda ao machismo atravessa tudo.
O enredo se equilibra o tempo inteiro na polifonia moral dos personagens.
Num dado momento da história, Nora compara Catherine a Medusa, a figura com serpentes no lugar dos cabelos.
Numa das versões do mito, ela passa por um estupro cometido por Poseidon.
“Ela é uma vítima, mas isso não faz dela uma boa pessoa”, diz Nora.
A frase resume o espírito da série.
Tanto Alice quanto Catherine são sofridas.
De maneiras radicalmente diferentes, ambas estão em busca de Justiça e foram abusadas por homens em alguma situação de poder.
Mas “Fúria” não transforma essa origem comum em equivalência entre as duas, nem usa o trauma como salvo-conduto para Catherine.
Ao contrário, ela deixa o espectador desconfortavelmente instalado nesse território em que compreender uma personagem não significa absolvê-la.
Fora tudo isso, o elenco é excelente e a entrega de Emmy Rossum em cena comove.
“Fúria” é feita com suor e emoção.
'Fúria', série na Disney+, escapa dos clichês e vai além do suspense policial
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