Gaby Amarantos está para o rock.
Ou melhor: para o “Rock doido”.
Um ano depois de lançar o premiado álbum, a paraense comemora a data com um show na Fundição Progresso, nesta sexta (21), com a promessa de uma noite "cheia de fogo e de paixão" e um convite para abraçar a maluquice.
Cantora e compositora, Gaby também já se aventurou como atriz e apresentadora.
Com o lançamento do projeto, em 2025, veio também um curta-metragem homônimo, gravado em plano-sequência pelas ruas de Belém.
No álbum, ritmos amazônicos, tecnobrega, carimbó e brega se encontram com pop, funk, EDM, reggaeton e calypso.
No palco da Fundição, essa mistura ganha corpo em um espetáculo de 22 músicas apresentadas em sequência, sem intervalos, com trocas de figurino, coreografias, projeções imersivas e balé.
A estética das aparelhagens de Belém também sobe ao palco, levando para a Lapa um pouco das raízes periféricas da cultura paraense.
A noite ainda conta com participações do coletivo V de Viadão, a festa Xêpa e Edmilson dos Teclados.
E, enquanto celebra um ano de "Rock doido", Gaby já começa a olhar para o que vem depois.
Ela promete um próximo projeto “totalmente diferente”.
O futuro ainda é um mistério — mas, pelo menos por enquanto, a ordem é só uma: ela está “no rock, amor!”.
O GLOBO: Um ano de ‘Rock doido’.
Para comemorar, um show mais que especial na Fundição Progresso, casa histórica do Rio, pronta para receber toda a vibração que o espetáculo pede.
Com que energia você sobe ao palco?
GABY AMARANTOS: Tenho certeza que vai ser uma noite linda, cheia de fogo, cheia de paixão, cheia de cultura do Norte se encontrando com a cultura do Rio.
Culturas periféricas se encontrando, porque a gente respeita muito o movimento do funk e o "Rock doido" vem sendo reconhecido cada vez mais como um gênero musical brasileiro.
Já chegou, já dominou e vai ser loucura! Vai ser muito babado, vai ser tudo.
Quero todo mundo explodindo o bagulho com a gente.
Você já trouxe o ‘Rock doido’ ao Rio e fez outros shows em solo carioca.
Como é a troca com esse público? O Rio te recebe bem?
São duas culturas periféricas que dialogam muito.
O "Rock doido" e o funk têm muitas similaridades: os paredões, o Furacão 2000, as aparelhagens, os DJs, os artistas cantando em cima da batida eletrônica, a galera jogando a bunda pro jogo.
A gente treme o ombrinho, dá-lhe sal! Acho que esses movimentos são criatividades da periferia, são inovações que cada vez mais crescem e explodem nesse país.
E vai ser muito bom receber esse calor.
O Rio sempre recebeu a minha arte com muita força.
Num ano em que Belém recebeu tantos olhares por conta da COP30, você também ajudou a mostrar outras imagens do Pará, mais diversas e múltiplas.
Que estereótipos sobre a Amazônia a arte e a música podem ajudar a desmontar?
Quando a gente pega um celular e faz um filme f***, em plano-sequência, gravado na periferia, a gente desmorona todo e qualquer estereótipo que as pessoas tinham em relação ao Norte, achando que a gente é só floresta ou que a gente não tem tecnologia e modernidade.
O "Rock doido", as aparelhagens, esse movimento e, principalmente, a gente como artista criando e inovando são a prova disso.
Eu me sinto muito honrada de poder ser um expoente desse movimento, de poder ser pioneira nesse lugar e contribuir para que as pessoas vejam essa Amazônia moderna, futurista, sabe? Voadora, com cerveja voadora, com toda a tecnologia e toda a maluquice.
Acho que o "Rock doido" convida a gente a ser maluco, a ser doido mesmo.
Ney Matogrosso, Elza Soares, Alcione, Liniker...
Agora, com ‘Rock doido’, você trabalhou com Viviane Batidão, Gang do Eletro e Lauana Prado, e já falou que ainda tem muitos feats que gostaria de fazer.
Com quem você ainda gostaria de dividir um trabalho – e que mistura musical gostaria de experimentar?
Eu sou muito aberta a dividir trabalho com quem compreende o trabalho que eu faço.
Tem muitos artistas de quem eu gosto.
Amo o trabalho da Marina Sena.
A Marina foi uma das primeiras pessoas a explodir quando ouviu "Rock doido", foi para a internet gritar para as pessoas ouvirem.
Amo também artistas de outras gerações, que vieram antes de mim.
Fafá de Belém é uma artista da minha terra e eu nunca gravei uma música com ela.
É uma artista com quem eu gostaria muito de colaborar.
Maria Bethânia, para mim, é uma das maiores cantoras do Brasil.
Na nova geração também tem tanta gente bacana fazendo música e colaborando.
Muita gente com quem eu já colaborei também.
Quero muito fazer feats internacionais, com uma galera que também faz "Rock doido" pelo mundo.
Artistas do Afropunk, do afrobeat, que é um estilo que me interessa muito.
Estou aberta a colaborar, mas com quem compreende a potência da música do Norte.
Você fala muito de uma curiosidade pelo Brasil e já disse que se considera “um pouco antropóloga” – que gosta de chegar a uma cidade e saber o que está acontecendo ali, o que as pessoas comem e escutam.
Qual foi a última coisa que você descobriu e pensou: “como isso ainda é tão pouco conhecido fora daqui”?
É um movimento de DJs que estão pegando batidas bem regionais, tradicionais, como carimbó, retumbão, samba de cacete, lundu marajoara, principalmente ali no Marajó, na região de Marapanim, do Salgado, de Santarém Novo, em Curuçá, e misturando com batida eletrônica.
E é uma parada muito moderna, muito f***.
Acho que isso é um novo boom.
Inclusive, já tem artistas gringos começando a pegar essas músicas, que são do cancioneiro popular, e colocar beats.
Tem uma música do Ronaldo Silva, que é um grande mestre popular nosso, chamada “Veneno”, que ganhou um beatzão e já está tocando nas pistas lá fora.
Daqui a pouco essa p**** explode.
Eu vejo esse potencial nessa música mais tradicional, regional, paraense.
Essa, sim, é aquela música que eu posso chamar de regional porque é realmente a raiz.
Eu tenho chamado esse movimento de “carimboom”: um boom do carimbó com o eletrônico.
O que Gaby espera do futuro?
Eu estou extremamente otimista vivendo o agora, sabe? O meu mantra tem sido: “Hoje eu vou focar em mim.
O meu coração é a bússola realizadora dos meus sonhos”.
O "Rock Doido" é, até agora na minha vida, a realização mais revolucionária.
Ele me abriu para ter mais coragem de ser maluca, diferente, de voltar para a minha essência, desde quando eu cheguei com o trem soltando laser do peito.
Estou preparando coisas novas, totalmente diferentes do que as pessoas estão esperando de mim, sendo essa multiartista que tem coragem de propor algo diferente para a indústria, respeitando a indústria e respeitando quem quer fazer o que quiser da sua arte.
Estou fazendo muitas imersões, muito mergulhada nos próximos passos, pensando no que quero apresentar no próximo álbum, mas com muita calma, porque o "Rock Doido" só tem um aninho.
É um bebezinho, ainda está mamando aqui no meu peito.
Quero viver muito esse "Rock Doido", porque eu tô no rock, amor!
Um mapa do Pará, por Gaby Amarantos
Quer se aventurar pela música paraense? Gaby Amarantos dá as coordenadas: de bandas pioneiras a novos nomes, passando pelas aparelhagens que fazem Belém ferver, ela aponta por onde começar a explorar os sons do Norte.
Confira:
Gang do Eletro
O grupo Gang do Eletro DJ (a partir da esquerda): Waldo Squash, Keila, Maderito e Will Love
Divulgação
“A Gang do Eletro, para mim, é precursora.
Por mais que seja uma banda que já circulou no underground, eu ainda quero vê-la crescer mais."
Zaynara
A cantora paraense Zaynara
Divulgação/Tereza Maciel
“Tem a Zaynara, uma artista nova, maravilhosa, dessa nova geração, que faz um trabalho muito potente e é muito autêntica.
Você olha para ela e ela não parece nenhuma outra cantora, sabe? Ela tem identidade e estilo próprios.”
Aparelhagens
Aparelhagem Carabao
Divulgação/Secretária de Cultura do Pará
“As aparelhagens também são um movimento muito importante.
Tem o Carabao, o Búfalo do Marajó, o Crocodilo e o Tupinambá, que é uma aparelhagem dos primórdios que voltou, se modernizou e traz a temática indígena renovada, levando também essas questões para a tecnologia e mostrando o quanto o Pará é futurista.”
MC Dourado
"Tem também o MC Dourado, que está no nosso álbum e no ‘Rock doido’.
E aí você vai procurando um e chegando a outro.
O algoritmo vai mostrando outros artistas, DJs, produtoras, muitas mulheres.
É uma cena muito comandada pelas mulheres.”
Gaby Amarantos: 1 ano de 'Rock doido'
Onde? Fundição Progresso, Lapa.
Quando? Sex (21), às 21h.
Quanto? De R$ 80 (arquibancada) a R$ 150 (frisa), com 1kg de alimento.
