Glória Menezes e Laura Cardoso tiveram suas respectivas mortes anunciadas no mesmo dia, na última terça-feira.
A cultura brasileira levou dois tiros no peito, à queima-roupa.
É o tipo de coincidência que a vida não deveria permitir e que a imprensa é obrigada a diagramar antes do fim da noite.
Fiquei pensando nos colegas de fechamento, na reunião de pauta que começou no meio da tarde e não terminou nunca.
Uma ou outra? As duas? E amanhã, no caderno de cultura, quem abre? Porque importância, no jornal, é uma coisa física.
Mede-se em centímetros de coluna, em tamanho de foto, em quem fica à esquerda — que é por onde o olho entra.
Duas biografias de 60, 70 anos de palco e de estúdio, e um espaço que não estica.
O GLOBO escolheu a horizontal: Laura em preto e branco, Glória em cor, e uma chamada perfeita, “protagonistas da novela Brasil”.
O Estadão pôs as duas lado a lado com as datas embaixo, 1927-2026, 1934-2026, como quem monta um altar doméstico.
A Folha manchetou economia e deu a elas a fotografia, que é uma forma antiga e elegante de dizer que há notícias que dispensam manchete.
Nenhum errou.
Só que a página dividida, que parece uma derrota editorial, talvez seja a coisa mais fiel que se podia fazer com essas duas.
Ator divide.
Essa é a profissão.
Você depende do texto que alguém escreveu, da luz que alguém pendurou, do figurino que alguém provou em você, do câmera que decidiu onde ficaria o seu rosto.
Não existe ator sozinho.
Existe coxia, e a coxia é um lugar apertado onde as pessoas se cumprimentam no escuro antes de entrar.
Elas se conheceram ali, nos primórdios.
Em 1962, quando Glória chegou à televisão pela Tupi, em “Um lugar ao Sol”, o elenco tinha Laura Cardoso.
A televisão brasileira ainda não sabia o que era, e as duas estavam lá, fundando-a sem saber.
Sessenta e quatro anos depois, dividem a mesma página.
Eram diferentes, e é aí que a coisa fica bonita.
Laura veio do rádio, da radionovela, e dizia que encontrava a personagem pela voz — “a voz, a voz”, repetia.
Construía de dentro para fora, com o ouvido.
Glória tinha aquilo que os americanos chamam de “star quality”, você não conseguia olhar para outro canto da tela.
Uma trabalhava o som, a outra ocupava o quadro.
Juntas, montaram boa parte do repertório de que a nossa dramaturgia dispõe até hoje.
Não gosto do tom que se usa quando morre alguém nonagenário.
A voz que baixa, o “coitadinha, descansou”.
Nenhuma das duas descansou um dia sequer, e não vejo por que começariam agora.
Imagino-as do outro lado e já com o que fazer, irrequietas, curiosas, querendo saber quem assina o texto.
Tônia Carrero, certa vez, disse que os anos que carregamos nos dão mais densidade, e que aquilo não era figura de linguagem.
Pitanguy tinha lhe explicado cientificamente que a estrutura muda mesmo, a densidade óssea, o osso fica mais sólido, mais pesado, no homem e na mulher.
Você reconhece uma velhota de costas, ela ria.
“Aquela coisa meio quadradinha.” E emendou: “Não adianta querer escapar da vida, porque a vida pega”.
Laura e Glória não tentaram escapar.
Foram junto.
Envelheceram para dentro do trabalho, e o trabalho ficou mais pesado, no melhor sentido da palavra, mais difícil de mover, mais impossível de ignorar.
Foi essa densidade que a página não comportou.
Duas mulheres que passaram a vida dividindo cena, dividindo crédito, dividindo camarim, e que no último dia dividiram o porta-retrato.
Coube apertado.
Elas estavam acostumadas.
Nós é que não, nós que devemos nos acostumar a essas ausências inacostumáveis.
Glória Menezes e Laura Cardoso dividiram a cena a vida toda e, no último dia, a página
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