Quando criança, eu vi a Lua com um São Jorge passando dentro dela, em forma de nuvens.
Ainda nessa época, em Pedra de Guaratiba, descobri a influência da Lua sobre as marés.
Com o tempo, percebi também sua presença em tudo: nas emoções, no humor, no amor, nas melodias.
Quem nunca namorou à luz da lua? Acho que por isso venho me dedicando a fazer fotos dela ininterruptamente há quase 30 anos.
E por isso senti um misto de alegria e parceria ao acompanhar a cobertura dos “caçadores da Lua” na busca pela imagem perfeita dela sobre a Igreja da Penha: por ser uma foto que eu mesmo fiz em 2010, e por saber que eles estão procurando o que eu também estou.
A lua cheia nas torres da Igreja da Penha, clicada em 2010
Custódio Coimbra/Agência O Globo
'É uma foto de muita dor': Como nasceram algumas das imagens mais marcantes do fotojornalismo do GLOBO
Nos braços de Cristo
Na década de 80, eu costumava ver, em quase todas as bancas de jornais, um cartão-postal com uma foto do Cristo Redentor dentro da Lua.
O autor da imagem, que se tornou meu colega, me disse que se tratava de um “sanduíche”, uma montagem de dois negativos sobrepostos no ampliador, um recurso técnico muito usado à época.
Desilusão total.
Dez anos depois, em uma manhã, indo de casa para O GLOBO, onde comecei a trabalhar em 1989, passei por Botafogo e vi a lua cheia descendo bem próxima do Cristo.
Pensei: é possível fazer aquela foto do cartão-postal.
Fui buscar o equipamento, mas quando voltei ela já tinha descido...
perdi o momento.
No mês seguinte, o tempo estava nublado.
Só na terceira tentativa consegui fazer a Lua pousando na mão do Cristo, foto que estampou a primeira página do jornal no dia 19 de agosto de 1997.
Depois, na mesma sequência, ainda consegui a foto do Cristo dentro da Lua.
Nela, a distância entre os braços da estátua é exatamente igual ao diâmetro do satélite.
Um encaixe perfeito, coisa do acaso.
A Lua na mão do Cristo Redentor: de 1997, a primeira das muitas fotos do satélite feita por Custodio Coimbra ganhou a primeira página do GLOBO em 1997
Custodio Coimbra / Agência O GLOBO
Em outra imagem, Custódio registra momento em que Cristo Redentor 'segura' a Lua com uma das mãos
Custódio Coimbra 13-11-1999
A Lua vista de um ângulo inusitado, acima da cabeça do Cristo Redentor
Custodio Coimbra / Acervo pessoal
Um 'lunático' com muito orgulho
De lá para cá, dizem, virei “lunático”.
No dia a dia, a Lua me indica a hora em que eu devo fotografar.
Por exemplo, na Baía de Guanabara, na maré baixa durante a lua cheia, toda a poluição aparece com o lodo.
Na maré alta, a cena muda.
Outro exemplo: a mistura de maré alta, lua cheia e ressaca são os ingredientes para o mar invadir o calçadão do Posto 11, no Leblon.
Há um horário específico para fazer as melhores fotos.
Eu e a Lua somos parceiros, sinto sua energia, sorrio quando a vejo sorrir no período crescente.
E fico triste quando a vejo minguante.
Acho que os emojis copiaram as emoções da Lua.
🌒🙂 🌘😔
O sorriso da lua crescente, registrado em setembro de 2013
Custodio Coimbra / Agência O Globo
Olho no céu, pés fincados na terra
Hoje faço dela personagem.
Faço a lua conversar conosco, simples terráqueos, num diálogo de encontros, tentando diminuir a distância entre nós.
Já levei pássaros, aviões, monumentos e dois bondinhos para "dentro" dela.
E até um homem solitário, que estava na estação no alto do Pão de Açúcar.
Foram apenas três segundos, mas o suficiente para capturar o encontro.
O acaso tem as suas artimanhas...
Na sexta-feira passada, dia 28 de agosto, fui atrás da lua cheia com alguns fotógrafos do grupo "caçadores da Lua".
A ideia era fotografá-la atrás dos coqueiros do Arpoador, vista do Leblon, segundo o aplicativo.
Fui atrás de uma foto e fiz outra.
Na hora entrou uma neblina que cobriu a praia.
Passados alguns minutos, ela foi aparecendo entre as nuvens, amarela, já alta.
Deitei na areia para compor a foto.
A última lua cheia do inverno de 2026, fotografada por Custodio Coimbra no Leblon
Custodio Coimbra
Custodio Coimbra, o homem que fotografa a lua
Domingos Peixoto / Agência O Globo
Talvez esse desafio seja uma das respostas por trás da existência de tantos caçadores da Lua.
Hoje a tecnologia permite, por meio de cálculos, saber o ponto exato em que o satélite estará.
Só que aí entra a natureza, o imponderável, que desafia a matemática.
Como dizia a poeta, "ah...
como é difícil viver o instante, a prova viva da vida".
Por isso fotografar a Lua é um exercício que continuo praticando sempre, esteja onde eu estiver.
No Rio, na Bahia ou em qualquer canto do mundo, ela estará lá.
Nesses momentos, por mais paradoxo que seja, sinto meus pés bem fincados na terra.
E percebo a pequena dimensão do meu tamanho em relação ao universo.
As outras luas de Custodio Coimbra
