Hannah Waddingham prou no meio do caminho quando ouviu um músico de rua cantar “Kansas City”, de Leiber e Stoller.
Era uma movimentada tarde de verão na margem sul do rio Tâmisa, em Londres, e uma multidão de turistas e estudantes passava quase sem prestar atenção ao homem que dedilhava um violão.
Mas a atriz, deslumbrante em um vestido longo e esvoaçante que ondulava ao sabor da brisa, assim como seu cabelo loiro curto, começou a dançar no ritmo da música e a cantar junto: “I'm going to Kansas City, Kansas City here I come”.
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— Eu simplesmente quero participar — disse, rindo.
— Fico pensando: “Chega mais no microfone, chega mais!”.
Com seus 1,88 metro de altura de salto, Waddingham, de 52 anos, está acostumada a chamar atenção.
Amiga de mais de uma década, Cynthia Erivo a descreve como “amazônica em estatura e em espírito, e orgulhosa disso”, acrescentando: “É um prazer vê-la em ação”.
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Os pedestres que lançavam olhares curiosos para sua improvisada cantoria à beira do rio pareciam concordar.
Talvez a reconhecessem de séries como “Sex Education” e “Ted Lasso”, mas Waddingham também possui uma extensão vocal de quatro oitavas e é uma das raras estrelas britânicas da televisão e do cinema que começaram a carreira no teatro musical.
— Que engraçado...
de todas as músicas que ele poderia estar tocando...
— comentou, depois de deixar uma gorjeta ao músico e seguir seu passeio pela margem do rio.
Além de a canção de blues lançada em 1952 ser uma de suas favoritas, a nova temporada de “Ted Lasso”, na qual Waddingham interpreta Rebecca Welton, proprietária de um clube de futebol, começa justamente em Kansas City.
Depois de três temporadas comandando o AFC Richmond, Ted (Jason Sudeikis) está de volta ao seu estado natal.
Isso até Rebecca ir visitá-lo para convencê-lo a retornar a Londres e assumir um novo desafio como treinador: a equipe feminina do Richmond.
A atriz Hannah Waddingham, a Rebecca de "Ted Lasso", série que volta ao streaming na quarta-feira (5)
Vincent Tullo/ The New York Time
Rebecca é “muito divertida de escrever”, segundo Brendan Hunt, cocriador de “Ted Lasso”, “porque ela está no ponto de encontro entre a elegância da alta sociedade e um absoluto ‘não estou nem aí’”.
Inicialmente concebida como a “vilã” da série, Rebecca também era, segundo ele, “o papel mais difícil de escalar”.
Quando encontraram Waddingham, Hunt lembra de pensar: “Ah, finalmente.
Agora sim.
Ela consegue enfrentar esse papel de igual para igual”.
A terceira temporada da série, marcada por um tom filosófico leve e otimista, foi a produção original de streaming mais assistida de 2023, segundo dados da Nielsen.
Muitos acreditavam que ela encerraria a história, mas a quarta temporada — que estreia na Apple TV na quarta-feira (5) — inaugura um novo arco para seus personagens.
As jogadoras do time feminino, e especialmente a assistente técnica Alice, também despertam algo novo em Rebecca, contou Waddingham mais cedo naquele dia, durante um café da manhã com café, suco prensado a frio e um hash de chouriço.
Alice, interpretada por Tanya Reynolds, enfrenta o universo predominantemente masculino do futebol com muito menos glamour e charme do que Rebecca e, no início, “há um atrito e uma frieza” entre as duas, explicou a atriz.
Mas, como sempre acontece em “Ted Lasso”, também há espaço para transformação.
Depois de ser “como uma corda esticada ao máximo” na primeira temporada, Rebecca continua relaxando e se abrindo na quarta, disse Waddingham.
Vencedora do Emmy pela série em 2021, a atriz contou que se apaixonou pela Rebecca impiedosa desde a leitura do roteiro do episódio-piloto, no qual sua personagem imagina torturar o ex-marido com “um taco de críquete estilhaçado”.
— Essa mulher é deliciosa — ela se lembra de ter pensado.
Juno Temple — amiga próxima de Waddingham e intérprete de Keeley, a melhor amiga de Rebecca na série — concorda com essa descrição.
Embora Waddingham tenha “uma inteligência afiadíssima, um coração enorme e uma presença absolutamente deslumbrante”, ela também é “uma figura bastante engraçada e meio maluquinha”.
No café da manhã, Waddingham de fato se mostrou encantadoramente irreverente, pontuando a conversa com gestos expansivos, vozes caricatas e uma boa dose de palavrões.
Sua voz estava rouca depois de se dedicar intensamente às filmagens de um longa de ação estrelado por Jason Statham.
Os últimos anos têm sido intensos.
No mês passado, estreou sua série “Ride or Die”, uma produção de ação sobre uma dupla de parceiros estrelada por ela e Octavia Spencer, que também assinam como produtoras executivas.
Em 2023, Waddingham gravou o que descreve como um especial de fim de ano para a Apple TV “totalmente à moda antiga”, concebido para o palco.
No Reino Unido, também viveu momentos decisivos ao comandar a cerimônia do Prêmio Olivier, dedicado à excelência teatral, e o Festival Eurovisão da Canção.
Waddingham cresceu no sul de Londres.
É filha de um policial da divisão fluvial, que patrulhava o Tâmisa de barco, e de uma cantora de ópera.
O teatro está “100% no meu sangue”, disse ela.
Na infância, costumava perambular pelos corredores do London Coliseum, sede da Ópera Nacional Inglesa, onde sua mãe se apresentava.
Depois de concluir a escola de teatro, começou a fazer testes para papéis, mas sua altura se tornou um obstáculo.
— Eu ouvia o tempo todo: “Adoraríamos escalá-la, mas já escolhemos o ator” — contou Waddingham.
— Por que uma mulher de 1,88 metro não pode ter as mesmas vulnerabilidades, as mesmas inseguranças, vacilar tanto quanto alguém de 1,57 metro?
No caso de Rebecca, “ser alta” não fazia propriamente parte da descrição da personagem, observou o cocriador Brendan Hunt.
— Mas o fato de ela ser alta e, com determinados sapatos, frequentemente mais alta que o protagonista masculino...
isso é fantástico — disse ele.
Dois gigantes — em sentido figurado — do teatro britânico também jamais consideraram sua altura um problema: Trevor Nunn e Andrew Lloyd Webber.
Quando Lloyd Webber viu Waddingham, então com 25 anos, se apresentar pela primeira vez, em 2000, ficou imediatamente impressionado com sua capacidade de “dominar o palco” e com seu carisma, que classificou recentemente, em entrevista por telefone, como “muito raro”.
Pouco depois, escalou a atriz para “The beautiful game”, musical que escreveu em parceria com Ben Elton, e voltou a convidá-la, em 2011, para interpretar a Bruxa Má do Oeste em uma montagem de “O mágico de Oz”.
Até 2015, Waddingham já havia recebido três indicações ao Prêmio Olivier.
Naquele ano, dividiu o palco com Cynthia Erivo em uma versão em concerto do musical “How to succeed in business without really trying”.
Em um e-mail, Erivo definiu Waddingham como “uma superstar”, “não apenas pelo trabalho que faz, mas pela maneira como sempre esteve ao meu lado e me incentivou”.
Segundo Erivo, Waddingham lutou muito para conquistar o sucesso sem jamais abrir mão de quem é.
— Acho que é isso que a torna especial.
Ela é absolutamente fiel a si mesma, e isso é magnético — disse a atriz.
Waddingham também resistiu à cirurgia plástica.
Disse que quer manter “controle total sobre o meu rosto” e “parecer uma mulher de 52 anos, porque hoje sou mais confiante, mais segura”.
E completou:
— Por que eu iria querer parecer ter 30 anos, se aos 30 eu não era tão feliz quanto sou agora?
Essa firmeza de princípios também ficou evidente quando, aos 38 anos, finalmente engravidou.
Ela percebeu que a rotina exaustiva de uma temporada em cartaz no teatro seria incompatível com as exigências da maternidade.
O trabalho diante das câmeras, com o qual sempre havia flertado, poderia lhe oferecer muito mais flexibilidade.
Apenas nove semanas após dar à luz sua filha, Waddingham começou a gravar a quinta temporada de “Game of thrones”, na qual interpretou Septa Unella, a religiosa que, com o rosto emoldurado pelo hábito de freira, grita “Vergonha!” para a desonrada Cersei Lannister.
— Se tudo o que eu tiver feito na minha carreira for provar que é possível tirar alguém do teatro musical e colocá-lo em um close fechado diante da câmera, ficarei feliz que esse seja o meu legado — disse Waddingham, acrescentando que, por mais que tenha transitado entre palcos e telas na última década, “há algo no teatro, nessa natureza visceral, física do teatro”.
A essa altura, Waddingham já estava a cerca de dois quilômetros e meio do músico de rua na margem sul do Tâmisa, passando em frente ao Shakespeare's Globe.
Disse que adoraria voltar aos palcos e que, recentemente, tem considerado algumas oportunidades — entre elas, uma que estava “louca para fazer” no ano que vem.
Mas Waddingham cria a filha sozinha há muitos anos (“antes de tudo, sou mãe”, afirmou).
Por isso, recusou esse papel ao perceber que sua filha, hoje com 12 anos, ainda não estava pronta para vê-la tão absorvida pelo trabalho.
— Sempre há algo que precisa ser sacrificado, e, no meu caso, foi o teatro — disse Waddingham.
— Mas eu vou voltar.
E vou voltar do meu jeito.
