Escutado com pressa, o atual hit de Ariana Grande, a maliciosa, sinuosa e estranhamente sedutora canção “Hate That I Made You Love Me”, parece apenas mais uma história pop de um romance que deu errado — o tipo de narrativa que Grande costuma transformar em algo vibrante com sua voz celestial e seu carisma descontraído.
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Mas há uma reviravolta no trecho de transição da música, quando Grande revela que o “você” a quem vinha se dirigindo não é uma pessoa, mas muitas.
“Será que a culpa é mesmo minha? Vocês todos me deram seus corações por livre e espontânea vontade?”, canta ela, enquanto o arranjo se reduz praticamente a um violão, dando ainda mais destaque à pergunta.
De repente, esse verso lança uma nova luz sobre a canção e abre espaço para uma leitura mais interessante — e mais sombria: será que “Hate That I Made You Love Me” é, na verdade, uma música venenosa sobre seus fãs mais obsessivos?
Talvez.
A estrela pop e atriz, hoje com 33 anos, soa irritada com a natureza invasiva da fama ao longo de seu novo álbum, “Petal”, um trabalho austero que troca sua efervescência característica por algo mais sombrio e melancólico.
“Todas as minhas histórias favoritas terminam em algum tipo de catástrofe”, canta Grande na faixa-título, uma ode fria à autossuficiência e à sua relação de amor e ódio com o estrelato pop, que avança de maneira quase furtiva, como se andasse na ponta dos pés.
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Duas faixas depois vem “Oh Well”, uma música de ritmo acelerado, mas intimidadora, em que ela despacha amizades falsas.
No refrão, Grande as manda embora com um falsete mordaz: “Boa sorte no caminho para o inferno”.
Depois de viver Glinda, a Bruxa Boa, nos dois filmes da franquia “Wicked”, Grande deixa muito claro em “Petal” que estourou essa bolha iridescente e agora está pronta para explorar algo mais áspero, espinhoso e talvez até mesmo vilanesco.
O momento escolhido para lançar este álbum é um tanto curioso.
Em primeiro lugar, ele chega menos de dois anos depois de Grande revelar que pretendia dedicar mais energia criativa à atuação cômica e ao teatro musical do que ao estrelato pop.
“Sempre vou fazer coisas pop, prometo de dedinho”, disse ela às apresentadoras do podcast “Las Culturistas”.
“Mas não acho que continuar fazendo isso no ritmo em que fiz nos últimos dez anos seja a forma como imagino os próximos dez.”
Até agora, pelo menos, essa profecia não se concretizou.
Grande também lança “Petal” enquanto está no meio de uma turnê — a primeira em seis anos — para divulgar seu álbum anterior, “Eternal Sunshine”, de 2024.
(Em novembro, ela estreará ao lado de Robert De Niro e Ben Stiller na comédia “Focker-in-Law”.) Essa urgência sugere que “Petal” é o tipo de disco que um músico faz quando tem algo novo ou importante a dizer.
Ainda assim, suas 12 faixas revelam muito menos do que prometem.
Assim como em “Eternal Sunshine”, Grande escreveu e coproduziu o material de “Petal” ao lado de Max Martin e de seu colaborador Ilya Salmanzadeh.
(Os créditos especificam que todas as letras foram escritas exclusivamente por Grande.) O álbum anterior era um trabalho de refinado artesanato pop e grande variedade de climas; “Petal”, em comparação, parece nebuloso e monocromático.
Como sempre, os vocais de Grande são belíssimos e impressionantemente arranjados; ela continua capaz de desenhar círculos, quadrados e arabescos com a voz em torno da maioria das estrelas pop de primeira grandeza.
Mas o repertório é, em sua maior parte, um pântano de andamentos lentos que carece do carisma e da convicção de seus melhores trabalhos.
A parte central do disco é especialmente arrastada, interrompida apenas pela energia contagiante e pulsante da penúltima faixa, “Bad Thing (Bunny Hop)”, um pop sonhador e apaixonado com evidente potencial de sucesso.
Na faixa-título, Grande canta sobre uma “pétala no asfalto”, imagem central de uma vida desafiadora que brota em meio a um ambiente hostil — talvez uma versão menos marcante da rosa que nasceu do concreto, de Tupac Shakur.
Basta lembrar da impressionante precisão que ela alcançou em uma música como “Thank U, Next”, sucesso de 2018 que parecia pairar benevolentemente acima de tudo, ao mesmo tempo em que não deixava dúvidas sobre quais de seus ex-namorados famosos estavam sendo mencionados: Sean, Ricky, Pete e Malcolm, todos citados nominalmente.
Em “Petal”, porém, uma certa névoa paira sobre as canções, fazendo com que os conflitos que atormentam Grande e os inimigos que parecem conspirar contra ela soem frustrantemente vagos.
Embora seus sons e abordagens não possam ser mais diferentes, “Petal” guarda surpreendentes semelhanças narrativas com um álbum lançado na semana passada: “Music, Fashion, Film”, de Charli XCX — outra mensagem absolutamente contemporânea de uma artista de 33 anos tentando descobrir se é possível conciliar, de forma criativa, a carreira de atriz com a de estrela pop.
Charli encontrou uma fórmula vencedora ao escrever sobre essa ambivalência com franqueza e riqueza de detalhes, dissecando sua própria celebridade com a mesma autoconsciência perspicaz e a intimidade espirituosa que Grande demonstrou em “Thank U, Next”.
Já “Petal” se desenrola sempre a certa distância.
Não há nada de errado, em si, com a aspereza que Grande ensaia em “Hate That I Made You Love Me” e nas demais canções deste álbum sobre o cansaço da fama.
Mas a falta de precisão dessas músicas deixa mais perguntas do que respostas.
Ariana Grande ainda ama ser uma estrela pop? Ou deixou de amar? As pétalas podem cair para qualquer um dos lados.
'Hate That I Made You Love Me': o novo hit de Ariana Grande é uma música venenosa sobre seus fãs mais obsessivos?
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