Havelange, Blatter e Infantino: escândalos e suspeitas atravessam meio século de poder na Fifa - QTU Questões do Universo

Havelange, Blatter e Infantino: escândalos e suspeitas atravessam meio século de poder na Fifa

Fonte: Bandeira da fonte

A tentativa de Gianni Infantino de abrir parte da exploração comercial da Copa do Mundo a investidores privados colocou o presidente da Fifa diante da maior crise política de sua gestão.
O recuo no projeto, após a reação de confederações e federações nacionais, não encerrou o desgaste: o dirigente suíço passou a enfrentar a retirada de apoios à sua reeleição, pedidos de revisão da governança da entidade e a ameaça de medidas judiciais por parte da Uefa.
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O episódio acrescenta um novo capítulo a um histórico que atravessa mais de cinco décadas.
Desde 1974, apenas três homens ocuparam de forma efetiva a presidência da Fifa: João Havelange, Joseph Blatter e Infantino.
Todos comandaram uma entidade cada vez mais rica e poderosa e, em diferentes graus, tiveram as respectivas administrações atingidas por denúncias, investigações ou graves questionamentos sobre transparência e governança.
As situações, porém, não são juridicamente equivalentes.
Havelange foi apontado pela própria Fifa como beneficiário de pagamentos indevidos.
Blatter recebeu punições da entidade por uma transferência financeira a Michel Platini, mas acabou absolvido duas vezes pela Justiça suíça nesse processo.
Já as investigações criminais abertas contra Infantino em anos anteriores foram arquivadas, enquanto a crise atual envolve principalmente a forma como conduziu o projeto comercial da Copa.
João Havelange: expansão global e propinas da ISL
Primeiro e, até hoje, único presidente não europeu da Fifa, João Havelange comandou a organização entre 1974 e 1998.
Durante seus 24 anos no cargo, o brasileiro transformou a entidade, ampliou a Copa do Mundo, aumentou o número de federações filiadas e aproximou o futebol de grandes patrocinadores e emissoras.
A expansão comercial, no entanto, seria posteriormente associada a um dos maiores escândalos da história da Fifa.
Blatter era braço direito de João Havelange na Fifa
FRANCK FIFE / AFP
Havelange foi implicado no caso da International Sport and Leisure (ISL), antiga parceira de marketing da entidade.
A empresa distribuiu pagamentos a dirigentes esportivos em troca de contratos ligados aos direitos comerciais e de transmissão de competições.
Em 2013, um relatório do Comitê de Ética da Fifa concluiu que Havelange havia recebido propinas da ISL.
O documento classificou sua conduta como “moral e eticamente reprovável”.
Pouco antes da divulgação das conclusões, o brasileiro renunciou ao posto de presidente honorário da organização.
Ricardo Teixeira, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol e antigo genro de Havelange, também apareceu entre os dirigentes beneficiados pelos pagamentos.
Os repasses ocorreram durante anos em que a ISL mantinha contratos comerciais altamente lucrativos com a Fifa.
Havelange deixou a presidência em 1998 e foi sucedido por seu então secretário-geral, Joseph Blatter.
A própria Fifa registra o mandato do brasileiro entre 1974 e 1998.
Blatter e o colapso da Fifa em 2015
Joseph “Sepp” Blatter comandou a Fifa durante 17 anos, entre 1998 e 2015.
Sua gestão preservou o modelo de expansão iniciado por Havelange, elevou as receitas da entidade e fortaleceu a distribuição de recursos às federações nacionais — uma estrutura que também consolidou sua base política.
O suíço resistiu durante anos a denúncias envolvendo dirigentes próximos, suspeitas sobre contratos comerciais e questionamentos relacionados às escolhas das sedes das Copas do Mundo.
O colapso ocorreu em maio de 2015.
Uma investigação conduzida pelas autoridades dos Estados Unidos resultou na prisão de dirigentes em Zurique e na denúncia de executivos do futebol e empresários por crimes como extorsão, fraude, lavagem de dinheiro e pagamento de propinas relacionados a competições e direitos comerciais.
Blatter não estava entre os denunciados pelo Departamento de Justiça americano, mas o escândalo atingiu o centro de sua administração.
Former FIFA president Sepp Blatter gives a thumb up as he leaves Switzerland's Federal Criminal Court after the verdict of his trial over a suspected fraudulent payment, in the southern Switzerland city of Bellinzona, on July 8, 2022.
- Sepp Blatter and Michel Platini, once the chiefs of world and European football, were acquitted by a Swiss court on July 8, 2022 following a trial over a suspected fraudulent payment.
(Photo by Fabrice COFFRINI / AFP)
AFP
Reeleito poucos dias depois da operação, Blatter anunciou que deixaria o cargo e acabou suspenso pelo Comitê de Ética da Fifa.
A punição mais relevante contra o dirigente envolveu o pagamento de 2 milhões de francos suíços feito pela Fifa a Michel Platini, em 2011.
O Comitê de Ética considerou que a operação violou regras relacionadas a conflito de interesses, lealdade institucional e concessão de benefícios.
Blatter e Platini foram inicialmente afastados do futebol por oito anos, pena posteriormente reduzida.
No processo criminal suíço sobre o mesmo pagamento, no entanto, os dois alegaram que o valor correspondia a um acordo verbal por serviços prestados por Platini anos antes.
Eles foram absolvidos em primeira instância, em 2022, e novamente em julgamento de apelação realizado em março de 2025.
Assim, embora Blatter tenha sido punido pelos órgãos internos da Fifa, a acusação criminal relacionada ao pagamento não resultou em condenação.
Infantino chegou prometendo reformas
Gianni Infantino foi eleito em 26 de fevereiro de 2016, apresentando-se como o responsável por reconstruir a imagem da Fifa depois do escândalo que encerrou a era Blatter.
Advogado e antigo secretário-geral da Uefa, o suíço prometeu reformas, transparência e uma separação mais clara entre as decisões políticas e administrativas.
Foi reeleito em 2019 e 2023, com mandato vigente até 2027.
O presidente da Fifa, o italiano Gianni Infantino, discursa no palco durante o sorteio da Copa do Mundo de Futebol da Fifa de 2026
JIM WATSON / AFP
Sua administração, no entanto, também passou a ser questionada por entidades de governança, antigos dirigentes, federações e organizações de defesa dos direitos humanos.
Uma das investigações mais relevantes envolveu reuniões não registradas entre Infantino e o então procurador-geral da Suíça, Michael Lauber, que comandava apurações relacionadas à Fifa.
Um processo criminal foi aberto para examinar os encontros, mas acabou definitivamente arquivado em 2023.
A entidade sustentou que o encerramento confirmou a ausência de irregularidades do presidente.
Infantino também foi investigado por questões envolvendo viagens e o uso de um avião particular.
O procedimento foi encerrado depois de as autoridades concluírem que os arranjos estavam de acordo com as normas internas da Fifa.
Portanto, diferentemente de Havelange, Infantino não foi considerado beneficiário de propinas.
Também não recebeu punição comparável à imposta internamente a Blatter.
As críticas contra o atual presidente se concentram principalmente na concentração de poder, na relação com governos, na fragilidade dos mecanismos independentes de controle e na condução de decisões estratégicas.
Plano comercial provoca rebelião
A nova crise começou com a proposta de criar uma subsidiária para administrar comercialmente as principais competições da Fifa, incluindo a Copa do Mundo.
A ideia previa permitir que investidores externos comprassem uma participação minoritária na empresa.
Infantino, presidente da Fifa, e Donald Trump, presidente dos EUA, com a taça da Copa do Mundo na final do torneio
Dan Mullan / Getty Images via AFP
Segundo as informações divulgadas sobre o projeto, a Fifa poderia captar bilhões de dólares com a venda de aproximadamente 20% da nova estrutura.
Infantino defendia que o dinheiro seria destinado ao desenvolvimento do futebol e às 211 associações filiadas.
A iniciativa enfrentou reação imediata.
Uefa, Concacaf e federações nacionais questionaram a ausência de consultas adequadas, o prazo para aprovação e o risco de investidores privados ganharem influência sobre o principal produto do futebol mundial.
Diante da resistência, a Fifa abandonou o plano.
O recuo, porém, não impediu o aprofundamento da crise.
Federações passaram a retirar o apoio que haviam oferecido à candidatura de Infantino para o mandato de 2027 a 2031.
A Uefa também exigiu a preservação de e-mails, mensagens, documentos e registros relacionados à proposta, diante da possibilidade de ações judiciais ou regulatórias.
Até mesmo Blatter criticou publicamente o projeto.
O ex-presidente afirmou que a Copa do Mundo não poderia ser tratada como um ativo à disposição de investidores privados.