Home office mistura vida profissional e pessoal; saiba como casais podem estabelecer limites - QTU Questões do Universo

Home office mistura vida profissional e pessoal; saiba como casais podem estabelecer limites

Fonte: Bandeira da fonte

O trabalho híbrido trouxe diversos benefícios concretos.
A maior flexibilidade facilita a conciliação entre o trabalho, as responsabilidades familiares, os compromissos pessoais e outras demandas do dia a dia.
Mas esse modelo também criou novos desafios, especialmente para casais que buscam desenvolver duas carreiras ao mesmo tempo em que constroem uma vida em comum.
À medida que as fronteiras entre trabalho e vida pessoal se tornam cada vez mais tênues, muitos casais precisam lidar com questões complexas sobre como dividir as responsabilidades domésticas e apoiar o crescimento profissional de ambos.
Minha colega e eu nos interessamos por esse tema porque vivenciávamos os dois lados do trabalho híbrido.
A flexibilidade era valiosa, mas nem sempre tornava mais fácil equilibrar o trabalho com os demais aspectos da vida.
Queríamos entender o que faz com que alguns casais consigam aproveitar melhor esse modelo de trabalho.
Entrevistamos casais em que ambos os parceiros buscavam construir carreiras bem-sucedidas enquanto mantinham uma vida compartilhada.
Um diferencial da pesquisa foi ouvir os dois membros do casal, o que permitiu compreender não apenas as experiências individuais com o trabalho híbrido, mas também como eles enfrentam esses desafios em conjunto.
Descobrimos que o sucesso do trabalho híbrido depende não apenas dos hábitos individuais, mas também da forma como o casal organiza, em conjunto, a rotina profissional e doméstica.
Além disso, nem todos os casais esperam as mesmas vantagens desse modelo, o que influencia o tipo de flexibilidade que valorizam por parte dos empregadores.
Estabelecer limites é fundamental
Nossa pesquisa mostrou que os casais precisam ser intencionais ao definir onde termina o trabalho e começa a vida pessoal.
Estabelecer expectativas claras sobre a disponibilidade — tanto no ambiente profissional quanto em casa — é essencial.
A tecnologia pode ajudar nesse processo, seja bloqueando horários na agenda, utilizando mensagens automáticas de ausência ou informando o horário de trabalho na assinatura de e-mails.
Em casa, manter a porta do escritório fechada pode cumprir a mesma função.
Respeitar esses limites foi importante para que colegas de trabalho e familiares soubessem quando cada parceiro estava disponível.
Não precisar enfrentar o deslocamento diário é apontado como uma das maiores vantagens do trabalho híbrido.
No entanto, isso também elimina o momento de transição que ajuda muitas pessoas a se desligarem mentalmente do trabalho.
Nos dias de home office, criar hábitos ou pequenos rituais que marquem o fim da jornada pode fazer diferença.
Quando essa transição não acontece, toda a dinâmica familiar pode ser afetada, já que fica mais difícil estar verdadeiramente presente na vida fora do trabalho.
Escrever a lista de tarefas do dia seguinte, aceitar que o expediente terminou ou simplesmente guardar o notebook são atitudes simples que ajudam a separar o trabalho da vida pessoal e facilitam o descanso mental.
O casal precisa agir como uma equipe
Também observamos que os casais se beneficiam quando planejam a semana em conjunto.
Isso envolve não apenas os compromissos profissionais de cada um, mas também quem levará os filhos à escola, preparará o jantar ou ficará responsável por outras tarefas que mantêm a rotina da casa funcionando.
Quando ambos trabalham em casa, pode parecer que os dois estão igualmente disponíveis.
Por isso, decidir quem fará cada atividade exige diálogo e negociação constantes.
Vários participantes também destacaram a importância de uma breve conversa ao final do expediente.
Assim como os rituais individuais ajudam a encerrar mentalmente o trabalho, dedicar alguns minutos para compartilhar os momentos positivos, as dificuldades e as pressões do dia permite que o casal faça essa transição junto.
Isso é especialmente importante quando um dos parceiros já conseguiu se desligar do trabalho, enquanto o outro ainda está sobrecarregado pelo estresse da rotina.
Essa conversa evita que as tensões profissionais afetem o relacionamento.
Também vale prestar atenção aos efeitos de decisões aparentemente simples, como definir quem utilizará o escritório da casa e quem trabalhará na mesa da cozinha.
Embora essas escolhas pareçam práticas no momento, elas podem trazer consequências a longo prazo.
Quem dispõe de um ambiente silencioso tende a se concentrar melhor e desempenhar suas atividades com mais eficiência, enquanto o outro lida constantemente com interrupções e distrações.
Com o tempo, uma decisão tomada por conveniência pode acabar favorecendo a carreira de apenas um dos parceiros.
Não existe uma solução única
Quando o objetivo é sustentar duas carreiras ao longo do tempo, a flexibilidade durante o expediente é um dos maiores benefícios do trabalho híbrido.
Ela permite organizar compromissos como buscar os filhos na escola ou comparecer a consultas sem que a carreira de um dos parceiros seja constantemente priorizada em detrimento da do outro.
Por outro lado, quando o trabalho híbrido é utilizado para atender a uma fase específica da vida — como apoiar a oportunidade profissional de um dos parceiros ou facilitar o retorno ao mercado de trabalho após um período dedicado aos cuidados com a família —, os casais tendem a valorizar empregadores que avaliam seus profissionais pelos resultados alcançados, e não pela presença física no escritório.
Essa abordagem ajuda a garantir que mudanças temporárias de prioridade não provoquem impactos permanentes na trajetória profissional de nenhum dos dois.
Na perspectiva das empresas, oferecer flexibilidade, por si só, não basta.
Os funcionários precisam de expectativas claras sobre disponibilidade, autonomia para organizar o próprio trabalho de acordo com suas necessidades e uma cultura organizacional que incentive o desligamento ao fim da jornada.
As empresas também devem reconhecer que as pessoas recorrem ao trabalho híbrido por motivos diferentes e, por isso, valorizam diferentes formas de flexibilidade e apoio.
O principal aprendizado é que o trabalho híbrido não é uma solução única capaz de atender igualmente às necessidades de todos.
* Joanne Mutter é Professora sênior de Gestão de Recursos Humanos, Universidade de Auckland – Waipapa Taumata Rau.
* Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons.
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