Homens e mulheres ainda vivem como escravos por herança em ilha da Indonésia; entenda - QTU Questões do Universo

Homens e mulheres ainda vivem como escravos por herança em ilha da Indonésia; entenda

Fonte: Bandeira da fonte

A cerca de duas horas de voo das praias de Bali, um sistema de servidão hereditária continua fazendo parte da rotina de moradores da ilha indonésia de Sumba, apesar de a escravidão ter sido abolida oficialmente no país há mais de 160 anos.
Homens e mulheres nascem destinados a servir famílias consideradas nobres, trabalham sem remuneração e, em muitos casos, são vítimas de violência física e sexual, segundo uma investigação da agência France-Presse (AFP).
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Na parte leste da ilha, a sociedade permanece organizada em um rígido sistema de castas.
No topo estão os maramba, tradicionalmente grandes proprietários de terras.
Abaixo deles vêm os kabihu, considerados pessoas comuns.
Na base da hierarquia estão os ata, grupo formado por pessoas submetidas à servidão desde o nascimento.
O status é hereditário e, segundo pesquisadores, só pode ser alterado caso o senhor decida conceder liberdade ao servo.
Nem o casamento muda essa condição.
Um dos personagens ouvidos pela AFP é Kanisius Kanyali Hambarita, de 34 anos, que vive na aldeia de Tenggedu sob a autoridade de Umbu Ana Rara, três anos mais novo que ele.
Embora afirme aceitar sua condição como parte de uma tradição herdada dos antepassados, outros relatos colhidos pela reportagem descrevem uma realidade marcada por espancamentos, jornadas de trabalho desde a infância e exploração constante.
Especialistas afirmam que a prática remonta ao século XVI e sobreviveu ao período colonial holandês.
A escravidão foi oficialmente abolida na Indonésia em 1860 e voltou a ser proibida pela Constituição de 1945, mas permaneceu preservada em Sumba graças ao isolamento geográfico da ilha e à força de tradições locais ligadas à religião ancestral marapu, que mistura culto aos antepassados, animismo e crenças espirituais.
A ilha tem cerca de 685 mil habitantes, dos quais aproximadamente 80% são cristãos, uma particularidade em um país de maioria muçulmana.
Não há consenso sobre quantas pessoas vivem atualmente em condição de servidão.
Uma assistente social ouvida pela AFP estima que existam cerca de 1.700 escravizados apenas no distrito de Sumba Oriental, enquanto outras estimativas apontam para alguns milhares em toda a ilha.
Além do trabalho compulsório, organizações locais denunciam que mulheres submetidas ao sistema frequentemente sofrem abusos sexuais praticados pelos próprios senhores.
Segundo lideranças religiosas e entidades de defesa dos direitos humanos, as vítimas raramente denunciam os casos por medo de represálias e pela influência exercida pela elite local sobre as comunidades.
Embora a legislação indonésia proíba qualquer forma de escravidão ou servidão, o Código Penal também reconhece determinados direitos consuetudinários — baseados em costumes tradicionais.
Diante desse conflito, o governo afirma que pretende promover mudanças de forma gradual, respeitando as especificidades culturais das diferentes comunidades do arquipélago.
Para a Anistia Internacional Indonésia, porém, as autoridades ainda não adotaram medidas concretas para erradicar as práticas de escravidão existentes em Sumba.