A alemã Zeiss, uma das principais fabricantes de lentes e tecnologias ópticas do mundo, vem se adaptando a uma fotografia cada vez mais moldada pela inteligência artificial.
A companhia, em parceria com a chinesa vivo Mobile, que no Brasil é dona da marca Jovi, lança hoje um conjunto de câmeras criado para os smartphones da série X300, composto pelos modelos Ultra e Fashion Edition.
Em entrevista exclusiva ao GLOBO, Oliver Schindelbeck, gerente sênior de Tecnologia de smartphone da Zeiss, afirma que cada vez mais fabricantes de lentes e de celulares vão precisar trabalhar de forma conjunta para desenvolver câmeras mais potentes.
“Os próximos grandes passos provavelmente não virão de um único componente mágico, mas do ajuste de todos os elementos”, disse.
Como a companhia vem adaptando as lentes de câmeras tradicionais a smartphones cada vez mais finos e embarcados com a IA?
Hoje o sistema de imagem precisa ser projetado de forma inteligente com os avanços em sistemas multicâmera, chips, software e IA.
Mas as leis básicas da óptica continuam as mesmas, seja no trabalho com uma lente de câmera profissional, seja dentro de poucos milímetros em um smartphone.
A luz ainda precisa ser guiada, direcionada e corrigida.
Em um smartphone, porém, os usuários continuam esperando um dispositivo fino, leve e prático.
Isso significa que cada elemento precisa ser equilibrado com muita precisão: design da lente, materiais, revestimentos, tolerâncias mecânicas, características do sensor, capacidades de fabricação e processamento de software.
E como a IA está mudando as câmeras?
A IA é uma ferramenta muito poderosa na imagem móvel, mas isso não torna a óptica menos importante.
Eu diria, na verdade, que aumenta a necessidade de uma base óptica sólida.
Tudo o que a lente não captura corretamente se perde ou precisa ser reconstruído depois, e a reconstrução sempre tem limites.
A IA pode ajudar na compreensão da cena, segmentação, redução de ruído, mapas de profundidade ou estabilização, mas a base continua sendo a imagem óptica que chega ao sensor.
Os melhores resultados vêm de quando óptica e IA se complementam.
ZEISS lança em parceria com a chinesa vivo Mobile, dona da marca JOVI, conjunto de câmeras
Divulgação
Existe um limite para o que a IA pode alcançar?
Sim, existem limites.
A IA pode otimizar, interpretar e apoiar a imagem, mas não substitui a informação física capturada pela lente.
Uma boa lente ajuda a entregar detalhe nítido, contraste, renderização natural e controle de luz difusa antes mesmo de o processamento de imagem começar.
Especialmente em situações exigentes, como contraluz forte, cenas noturnas, fotos com teleobjetiva ou texturas finas, a qualidade óptica continua sendo decisiva.
Ou seja, o software pode fazer muito, mas funciona melhor quando parte de bons dados ópticos.
O maior progresso acontece quando os dois mundos se desenvolvem em estreito alinhamento.
E como funciona, na prática, o processo de desenvolvimento conjunto com uma fabricante de smartphones?
É um processo de conjunto de engenharia de longo prazo.
Temos uma parceira de seis anos com a Jovi.
A gente contribui com expertise em design óptico, revestimentos, validação, cor e padrões de imagem.
Já um fabricante como a Jovi lidera a integração com o smartphone, software, IA e implementação do produto.
Como adaptar o conhecimento óptico para uma era em que algoritmos moldam ativamente a imagem final?
Na fotografia tradicional, pensamos principalmente em lente, sensor e processamento posterior.
Nos smartphones, a imagem é moldada por uma interação ainda mais estreita entre óptica, sensor, chip, software, IA, display e interface do usuário.
Nosso papel é ajudar a traduzir princípios ópticos e padrões de imagem para esse ambiente compacto e computacional.
Um bom exemplo é a renderização de retratos.
O objetivo não é apenas desfocar o fundo, mas criar uma impressão visual crível que reflita o caráter da óptica fotográfica.
Hoje, um smartphone reúne uma lente principal, uma ultra-wide, uma teleobjetiva e vários níveis de zoom em um espaço de poucos milímetros.
Qual é o maior desafio da engenharia para entregar essa variedade de distâncias focais?
O maior desafio é o espaço físico.
O tamanho importa, especialmente para smartphones, porque os consumidores preferem dispositivos finos e fáceis de carregar.
Ao mesmo tempo, distância focal significa, literalmente, comprimento.
Precisamos de espaço para guiar a luz através do sistema de lentes, principalmente para a imagem teleobjetiva.
Mas esses limites não significam que a inovação pare.
Pelo contrário, eles tornam a colaboração ainda mais importante.
O progresso vem da combinação de melhores designs ópticos, novos materiais, revestimentos mais eficazes, estabilização mais inteligente, chips mais potentes, processamento apoiado por IA e fabricação mais precisa.
Os próximos grandes passos provavelmente não virão de um único componente mágico, mas do ajuste de todos os elementos do sistema para que se apoiem mutuamente em desempenho.
O smartphone já pode ser considerado uma ferramenta profissional para fotógrafos?
As câmeras profissionais continuam importantes para fluxos de trabalho específicos, lentes especializadas, sensores maiores, produções controladas e máxima flexibilidade.
O smartphone não está simplesmente substituindo a câmera profissional; ele a complementa e abre a imagem com aparência profissional para muito mais usuários.
ZEISS lança em parceria com a chinesa vivo Mobile, dona da marca JOVI, conjunto de câmeras
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Como a empresa enxerga o futuro das lentes de smartphone? Continuaremos vendo dispositivos com múltiplas câmeras ou a tendência é simplificar o hardware e transferir mais trabalho para a IA?
Espero que as duas direções continuem.
Múltiplas câmeras e distâncias focais variadas são úteis porque oferecem ao usuário perspectivas diferentes.
Ao mesmo tempo, a IA e a imagem computacional vão tornar as transições entre essas perspectivas mais suaves e melhorar o resultado final.
Não acredito que o futuro seja apenas menos hardware e mais IA.
O futuro é um sistema mais integrado que funcione de forma tão natural que o usuário possa se concentrar no assunto, não na tecnologia por trás dele.
