Em um mercado de trabalho aquecido e com aumento da renda, o ritmo de expansão do rendimento para os trabalhadores que usam aplicativos de transporte de passageiro particular ou de entrega tem sido muito menor que o dos demais trabalhadores. Entre 2022 e 2025, a renda média desse grupo cresceu 1%, ante alta de 10,6% entre as demais pessoas ocupadas. Em relação a 2024, o rendimento médio dos trabalhadores ficou perto da estabilidade, enquanto o rendimento dos demais ocupados no setor privado aumentou 4,1%. LEIA MAIS: Quase dois milhões trabalham por meio de aplicativos de serviços no Brasil, como transporte e entrega, aponta IBGE IBGE: Apenas um terço de quem usa aplicativos para trabalhar contribui para previdência Flexibilidade e falta de outra ocupação são principais motivos trabalho por apps, mostra IBGE As informações são da pesquisa Trabalho por Meio de Plataformas Digitais (2025), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. “Nos últimos anos, viu-se uma recuperação da renda como um todo no país, com um mercado de trabalho bastante aquecido e uma taxa de desocupação baixa. O rendimento do trabalho no setor privado aumentou nesse período, de forma geral, mas o do trabalhador por plataforma permaneceu praticamente estável em termos reais”, afirma o analista do IBGE Gustavo Geaquinto, responsável pela pesquisa. Essa evolução em descompasso entre 2022 e 2025 eliminou a diferença que existia no início da série histórica da pesquisa a favor da renda dos trabalhadores por aplicativo. Em 2025, o rendimento médio de ambos os grupos foi praticamente igual: R$ 3.147 para quem trabalha por aplicativo e R$ 3.148 para os demais.
Segundo Geaquinto, esse movimento reflete o fato de que, nesses últimos três anos, não houve ganho real nos rendimentos médios dos condutores de automóveis e de motocicletas por aplicativo, ocupações que são maioria entre os trabalhadores por plataformas digitais. Outros indicadores mostram maior vulnerabilidade dos trabalhadores por aplicativos digitais ligada ao rendimento quando se compara esses trabalhadores com os demais ocupados. Embora em 2025 o nível de renda de ambos os grupos tenha sido semelhante, a jornada desses que precisam das plataformas para trabalhar é superior. Portanto, o rendimento médio por hora é menor. No ano passado, a carga de trabalho por semana foi de 44,7 horas por semana para quem trabalha por plataformas digitais, frente a 39,3 horas dos demais ocupados. Essa diferença na jornada de trabalho, no entanto, diminuiu em relação a 2022, quando os números eram de 46,4 horas e 39,5 horas, respectivamente. “Houve redução, mas ainda há uma diferença quase cinco horas de jornada a mais que os plataformizados”, diz o analista do IBGE. Disparidades por nível de instrução Na comparação do rendimento, defende Geaquinto, é preciso levar em consideração as disparidades na composição desses dois grupos quanto ao nível de instrução e também às ocupações predominantemente exercidas. Os dados da pesquisa do IBGE mostram que há menor proporção, entre os trabalhadores por plataformas digitais, de pessoas sem instrução ou com fundamental incompleto, ou do grupamento de ocupações elementares. Essas ocupações são aquelas exercidas por pessoas de menor qualificação e, em boa parte, com serviços braçais, em diferentes atividades da economia. Na construção, um exemplo são os serventes de pedreiro. Os trabalhadores de enxada na agricultura e os carregadores de caminhões nos transportes são outros casos de ocupações elementares. Os trabalhadores por plataformas digitais costumam ter rendimento maior que os demais nos grupos de menor escolaridade, enquanto o movimento se inverte entre aqueles com superior completo.
No grupo sem instrução e fundamental incompleto, os trabalhadores por aplicativo de serviços têm renda média 33% superior ao dos demais trabalhadores de mesmo nível de escolaridade, enquanto entre aqueles com ensino fundamental completo ou médio incompleto a diferença era de 24,5%, também a mais para os de plataforma. Por outro lado, entre as pessoas com o nível superior completo, o rendimento daqueles que trabalham através de aplicativos de serviços (R$ 5.133) era 20,2% inferior ao daqueles que não trabalhavam por meio de aplicativos de serviços (R$ 6.432). Segundo Geaquinto, uma hipótese que poderia explicar, ao menos parcialmente, a desvantagem salarial dos trabalhadores por plataforma com o ensino superior completo em relação aos demais ocupados com o mesmo nível de escolaridade refere-se, também, às diferenças ocupacionais entre os dois grupos.
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