Indústria de alumínio mantém resiliência e otimismo, apesar da guerra no Oriente Médio e da China - QTU Questões do Universo

Indústria de alumínio mantém resiliência e otimismo, apesar da guerra no Oriente Médio e da China

Fonte: Bandeira da fonte

A indústria do alumínio vive um momento de retomada após a fase de dificuldades trazidas pelo alto custo da energia e pelas crescentes importações dos semimanufaturados e produtos acabados chineses, o que chegou a resultar no desligamento de vários fornos.
No ano passado, a produção do metal primário atingiu 1,1 milhão de toneladas, o maior volume dos últimos 12 anos.
Vantagens como o alto grau de verticalização da cadeia e a força de alguns segmentos demandantes, como o elétrico, vêm sustentando os resultados satisfatórios.
“Voltamos a reunir condições para nos reposicionarmos na cadeia de um metal estratégico para o mundo”, anuncia Janaina Donas, presidente-executiva da Associação Brasileira do Alumínio (Abal).
O ritmo do setor, porém, ainda está aquém do pico dos anos 2000, quando a produção alcançou 1,6 milhão de toneladas.
Um forno da Alumar, no Maranhão, ainda está sendo religado e não opera a plena capacidade.
Outros foram desligados definitivamente.
A executiva confirma que o preço da energia continua um desafio.
“Os encargos e subsídios oneram significativamente a conta do consumidor industrial.
Precisamos sair do paradoxo de sermos um país com energia limpa abundante, mas com um dos maiores encargos do mundo e resolver esse problema”, frisa Donas.
Eletrointensiva, a transformação da bauxita em alumínio puro demanda quantidades massivas de eletricidade, sobretudo na etapa de aquecimento das cubas.
Outro desafio é a guerra no Oriente Médio, onde algumas plantas foram bombardeadas.
“Temos produto de qualidade para competir globalmente, mas a reconfiguração das cadeias de suprimento trouxe dificuldades de acesso ao nosso alumínio por outros mercados”, explica a executiva.
Os conflitos no Estreito de Ormuz estão impedindo a chegada da alumina (óxido de alumínio) a fornos importantes da região.
A estimativa é que o combate reduza a produção do Golfo Pérsico em 40%.

Assim como ocorre desde a década passada, a importação de itens com valor agregado da China também continua preocupando a indústria.
Consolidado como principal fornecedor deste tipo de material no comércio internacional, o país asiático despejou, somente no ano passado, quase 200 mil toneladas de chapas, folhas e perfis extrudados no Brasil.
Hoje, a China é, de longe, a principal origem dessas importações que invadem o mercado nacional.

“Uma hipótese é que o aumento na entrada desses componentes coincida com a instalação das montadoras de carros elétricos por aqui”, reflete Fabio Missiato, da consultoria Alvarez & Marsal.

Em 2023, o governo sobretaxou em 14% os laminados chineses, o que deu um alívio ao setor.
A medida, fruto de uma petição da Abal para que práticas chinesas danosas ao comércio fossem investigadas, valerá até 2028.

A Mineração Rio do Norte (MRN), maior produtora de bauxita do país, não está sendo afetada pelos movimentos globais, mas opera aquém da capacidade instalada.
Com a mina atual em fase final de vida, a companhia enfrentou um longo processo de licenciamento socioambiental para abrir novos platôs em Oriximiná, Terra Santa e Faro, no Pará.
A permissão de instalação acabou saindo em abril e, neste mês, a empresa está começando as obras no local.

A expectativa é que as novas minas garantam suprimento para os próximos 15 anos.
“A porção norte deve começar a operar em meados de 2028 e a porção sul, no final de 2029.
Temos planos de crescer em produção, mas, por enquanto, a prioridade será atender as refinarias dos nossos clientes cativos”, diz Guido Germani, CEO da MRN.
Nos próximos anos, a empresa tentará licenciar outras frentes para garantir mais 20 anos de produtividade.

Guido Germani, da Rio do Norte: novas minas devem garantir suprimento para os próximos 15 anos
Wanezza Soares/Divulgação
Com energia proveniente sobretudo da geração hidrelétrica, a indústria beneficia-se da matriz brasileira limpa e tenta avançar na descarbonização.
As iniciativas variam desde a assinatura de contratos de compra de energia 100% renovável, aquisição de usinas solares e eólicas e até mesmo investimento em PD&I de tecnologias de geração com aproveitamento de rejeitos, entre eles o caroço de açaí.
A Companhia Brasileira de Alumínio (CBA) possui 15 usinas hidrelétricas no portfólio e adquiriu participações em outras seis.
Com produção voltada ao mercado interno, investiu ainda em quatro complexos eólicos no Nordeste recentemente.
“Nos períodos de estiagem no Sudeste, é a época de mais vento no Nordeste.
Então, nossas fontes se complementam, garantindo a segurança do abastecimento, inclusive”, comenta Luciano Alves, CEO da empresa, que está em fase de transferência de controle para a chinesa Chalco e a canadense Rio Tinto.

Desde 2020, as caldeiras da refinaria da CBA em Alumínio (SP) são movidas a vapor de biomassa do cavaco do eucalipto, o que reduziu 60% das emissões do processo.
A meta 2030 da CBA é diminuir em 40% as emissões de gases desde a mineração até a fundição.

A corrida global pela transição energética vem repercutindo sobre outro insumo estratégico: a sucata.
O crescimento vertiginoso das exportações do item, operadas por agentes intermediários, é alimentado pelas metas da China de aumento na reciclagem do alumínio e efeitos das tarifas dos Estados Unidos.
As dinâmicas não afetam só o Brasil.
Conforme dados da Abal, 20 países estão impondo medidas para restringir a fuga da sucata.

A americana Novelis reconheceu, em nota, que o fenômeno impacta diretamente a renda de cerca de 800 mil catadores atuantes no país.
A empresa opera seu maior complexo de chapas de alumínio reciclado em Pindamonhangaba (SP), onde também mantém um ponto de coleta de grandes volumes.
A unidade, que está em expansão, reaproveita 500 mil toneladas do resíduo por ano — metade da capacidade nacional de reciclagem.
A poucos metros da Novelis, a Coop Recicla Pinda gera emprego para oito membros que separam os resíduos trazidos pela prefeitura.
A presidente, Marcela Bueno, comenta que a quantidade de latinhas que está chegando é irrisória.
“O lixo dos condomínios chega com mais latas, mas o lixo das ruas vem praticamente sem nada.
As pessoas pegam antes de o caminhão passar”, reclama.
No interior paulista, o quilo da latinha de bebida bateu recorde nos ferros-velhos, a
R$ 11,50, acirrando a disputa por aquelas descartadas nas ruas e por bares e restaurantes.
Com um parque robusto, o dinamismo da cadeia recicladora impressiona.
Desde a década de 1990, o Brasil bate recordes sucessivos como o país que mais recicla latinhas, tornando-se case de sucesso mundial.
Em fevereiro, chegou a entrar para o livro Guinness.
Foi quando Salvador (BA) coletou mais de 46 toneladas em quatro dias de Carnaval.

Industry moves forward despite war in the Middle East and Chinese competition
Brazil’s aluminum industry is on the mend after a difficult stretch brought on by high energy costs and rising imports of Chinese semi-finished and finished products.
Last year, primary aluminum production reached 1.1 million tonnes, the highest volume in 12 years.
“We have once again created the conditions to reposition ourselves in the value chain of a metal that is strategic for the world,” says Janaina Donas, CEO of the Brazilian Aluminum Association (ABAL).
Even so, the industry’s output remains below the peak reached in the 2000s, when production totaled 1.6 million tonnes.
Energy prices remain a challenge, Donas says.
“We need to overcome the paradox of being a country with abundant clean energy while bearing one of the highest power costs in the world,” she stresses.
Converting bauxite into primary aluminum requires massive amounts of power.
Another challenge is the war in the Middle East, where some plants have been bombed.
Fighting around the Strait of Hormuz is preventing alumina (aluminum oxide) from reaching major smelters in the region.
Imports of higher value-added products from China are also a concern for the industry.
Last year, China shipped nearly 200,000 tonnes of plates, sheets and extruded profiles to Brazil.
“One possibility is that the rise in imports of these components coincides with the arrival of electric vehicle automakers in Brazil,” says Fabio Missiato, of consulting firm Alvarez & Marsal.
In 2023, the Brazilian government imposed a 14% tariff surcharge on Chinese rolled aluminum products, offering the industry some relief.
Mineração Rio do Norte (MRN), Brazil’s largest bauxite producer, hasn’t been affected by these global market shifts, but it is operating below installed capacity.
After a long wait, it received the permit and started building new mining plateaus in Pará, which are expected to secure supply for the next 15 years.
“The northern section is expected to begin operating in mid-2028 and the southern section by the end of 2029.
We have plans to increase production, but for now our priority will be to supply the refineries of our captive customers,” says CEO Guido Germani.
Powered primarily by hydroelectricity, the industry benefits from Brazil’s clean energy mix while pushing ahead with its own decarbonization efforts.
The aluminum furnaces of Companhia Brasileira do Alumínio (CBA) in Alumínio, São Paulo state, for example, have been fueled by steam generated from burning eucalyptus woodchips since 2020.