O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia que as novas revelações da Polícia Federal (PF) sobre a relação entre o senador Jaques Wagner (PT-BA) e o ex-sócio do Banco Master Augusto Ferreira Lima não devem impedir o presidente de manter o apoio público à reeleição do parlamentar nem de aparecer ao seu lado em eventos de campanha.
Nos bastidores do Palácio do Planalto, a percepção é de que a abertura de um inquérito contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, tem potencial maior de desgaste político para o chefe do Executivo.
Interlocutores de Lula consideram que os novos elementos da PF podem ter impacto menor do que a operação realizada em junho, quando Wagner foi alvo de busca e apreensão na nona fase da Operação Compliance Zero.
Na avaliação do entorno presidencial, o episódio em questão expôs, pela primeira vez, a proximidade de um integrante da cúpula do PT com as investigações envolvendo o Banco Master.
Na quinta-feira (30), o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou o sigilo das apurações no caso da PF.
O órgão identificou 74 chamadas de áudio entre o senador e Augusto Ferreira Lima entre novembro de 2023 e 25 de maio de 2025.
A PF mira a suposta atuação de Wagner para beneficiar o Master.
O político nega.
Aliados de Lula apostam que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário na campanha presidencial, deve adotar cautela ao explorar o caso.
Isso porque o parlamentar também já teve o nome relacionado ao Banco Master.
Como revelou o site Intercept Brasil, em maio, Flávio pediu dinheiro ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O senador confirmou ter trocado mensagens com o ex-banqueiro e ter pedido dinheiro a ele, mas negou haver irregularidades na negociação.
A avaliação no Planalto é que a longa relação política e pessoal entre Lula e Wagner, junto ao favoritismo do senador na disputa por uma das vagas ao Senado pela Bahia, reduz a possibilidade de afastamento público entre os dois.
Neste sábado (1º de agosto), Lula deve participar da convenção estadual do PT que oficializará a candidatura de Wagner à reeleição.
No mesmo evento, também serão homologadas as candidaturas à reeleição do governador Jerônimo Rodrigues (PT) e de Rui Costa (PT) para a segunda vaga ao Senado.
A expectativa é de que Lula mantenha o discurso de defesa da presunção de inocência dos investigados.
Nesta sexta-feira (31), após a divulgação de novos trechos da investigação, Wagner afirmou que provará sua inocência e disse continuar contando com o apoio do presidente.
O evento deste sábado deve repetir o aceno feito por Lula no início do mês, logo após a operação da PF que vinculou, pela primeira vez, o senador às investigações sobre o Banco Master.
Na ocasião, em evento na Bahia, Lula destacou sua relação com o parlamentar como “companheiros de longa data” e exaltou a trajetória política de Wagner, afirmando que há coisas na vida que não podem ser escolhidas, mas que os companheiros, sim.
Apesar do monitoramento em relação aos desdobramentos do caso envolvendo Wagner, integrantes do Palácio do Planalto afirmam que o foco maior de apreensão é a abertura do inquérito contra Lulinha por suspeita de tráfico de influência.
O caso é um desdobramento da Operação Sem Desconto, que investiga fraudes em descontos de aposentados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
Nesta linha de investigação, a PF quer apurar a atuação de Lulinha no ramo de cannabis medicinal.
Uma das suspeitas é de que o filho do presidente teria sido sócio oculto do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, em uma empresa do ramo chamada World Cannabis.
A informação foi revelada pela Folha de S.Paulo e confirmada pelo Valor.
A defesa de Lulinha afirmou na noite de quinta-feira que ainda não tinha acesso ao inquérito, mas entende haver ilegalidade na iniciativa por se tratar de uma investigação sem conexão com a Operação Se Desconto, o que sugeriria prática de "pescaria probatória" motivada por interesse político.
Na noite de quinta-feira (30), em entrevista a um podcast, o presidente afirmou que seu filho "jura" inocência e que Lulinha é usado para atacá-lo.
Lula acrescentou que seu filho não receberá tratamento diferenciado caso seja acusado.
