Uma semana após a agressão entre alunos da Universidade Federal do Rio (UFRJ) motivada por uma suposta manifestação nazista no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), no Largo de São Francisco, no Centro do Rio, a diretoria do instituto anunciou medidas que estão sendo adotadas contra episódios de conflitos e intolerância.
Uma delas será a distribuição aos docentes de um guia sobre como agir nessas situações.
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Na última terça-feira, Diego Costa da Silva Araújo, de 27 anos, estudante de História, foi agredido por colegas após ser acusado de fazer apologia ao nazismo.
Ele vestia uma camiseta da banda inglesa "Death in June", conhecida por adotar símbolos associados ao regime de Adolf Hitler, e usava, na jaqueta, um broche com uma suástica cortada pelo símbolo universal de “proibido”.
Em entrevista ao GLOBO, Diego negou ser nazista e afirmou que a confusão começou quando um grupo de dez a 15 pessoas entrou na sala onde assistia a uma aula e passou a acusá-lo.
Segundo a vítima, o estudante de Direito Deivid Lima questionou a camiseta e o broche, que Diego afirma ter caráter antinazista, deu voz de prisão a ele e disse que uma viatura da polícia o aguardava na entrada da unidade de ensino.
— Tentei argumentar, e esse rapaz me deu voz de prisão.
Em momento algum me alterei.
Colaborei pacificamente porque achei que iria me explicar para uma autoridade policial.
Mas não tinha viatura nem policial lá fora — afirmou Diego, que diz ter começado a ser agredido ao deixar a sala.
O exame de corpo de delito realizado após o episódio constatou lesões corporais compatíveis com agressão.
A versão é contestada por Deivid, que afirma ter sido alvo das primeiras agressões e de insultos racistas de Diego ao tentar conduzi-lo a uma delegacia devido à suposta apologia ao nazismo.
Diego nega ter agredido ou insultado o colega, que, segundo ele, nunca havia visto antes do episódio.
— Não fiz isso, não insultei.
Também não agredi.
Em todo momento, tive uma postura pacífica e não demonstrei qualquer tipo de reação violenta.
A partir do segundo em que coloquei o pé para fora da sala, comecei a tomar chutes e empurrões.
Nos três momentos em que fui espancado, temi pela minha vida — disse Diego, que também afirma ter sido vítima de uma tentativa de homicídio ao ser espancado por dezenas de pessoas.
Questionado sobre a interpretação de alunos e professores de que sua vestimenta representava uma provocação ou manifestação de simpatia ao nazismo, Diego afirmou que os símbolos foram interpretados de forma equivocada.
Ele disse que, apesar de se considerar de “esquerda marxista”, é crítico ao atual governo e que isso também contribuiu para ser mal interpretado pelos colegas.
E sustenta, ainda, que já sempre usou o broche e que considera a banda punk como antinazista.
— Eu não sou nazista.
Meu erro foi tentar me comunicar com pessoas que já tinham chegado a uma conclusão sobre mim antes e não quiseram me ouvir.
No décimo período do curso de História, Diego diz temer voltar ao IFCS após o episódio.
— Me sinto ameaçado e temo pela minha vida e pela vida de pessoas próximas a mim.
Espero ter tranquilidade para voltar ao meu curso.
A universidade tem que ser um espaço de pluralidade de ideias, não de violência e barbárie — encerrou.
As investigações sobre o caso estão em duas delegacias.
A 1ª DP (Praça Mauá) apura as lesões corporais contra Diego.
Já a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) investiga as denúncias de ameaça, lesão corporal, preconceito de raça, cor e etnia e injúria por preconceito contra Deivid.
“Vale esclarecer que a tipificação inicial de um registro não define a conclusão da investigação, podendo ser ajustada no curso do procedimento, à medida que novos elementos são apurados.
A definição final sobre a natureza do fato decorre de uma investigação técnica e criteriosa, baseada em provas, diligências e análise de todas as evidências obtidas ao longo do inquérito”, diz a Polícia Civil.
Diálogos contra a intolerância
Diretora do IFCS, a cientista política Mayra Goulart afirma que, diante do cenário, reforçará uma política que adotou desde o início da sua gestão, no começo do ano: uma série de conversas com professores e alunos sobre como proceder em caso de eventos graves de intolerância.
— É um fenômeno novo essa mobilização do extremismo como algo que produz conteúdo para as redes, e isso acaba sendo instrumentalizado por grupos.
Várias universidades vêm sofrendo episódios do gênero, como a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo (USP), o Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (IFCH), da Unicamp, e a USP Ribeirão Preto — enumera.
— Estamos tentando buscar o entendimento entre estudantes e professores de que a universidade é vulnerável a situações de conflito, mas que é preciso estabelecer diálogos e adotar protocolos para distensionar o ambiente, evitar a escalada desse cenário e garantir que continuemos sendo um espaço de pluralidade e defesa dos direitos humanos.
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As orientações serão formalizadas num guia, a ser distribuído aos professores.
— Ele é um conjunto das regras que já existem na instituição e no sistema de Justiça em relação ao que fazer em casos de conflito e de extremismo.
Um de seus principais pontos é a veiculação dos canais de atendimento e acolhimento, seja para acionar segurança.
O IFCS tem uma das mais atuantes comissões de combate ao assédio.
Qualquer estudante que se sinta perseguido, vitimado, pode acionar essa comissão.
Ela é feita por professores, técnicos e alunos — afirma Mayra.
Em paralelo, a professora defende a necessidade de reforço da segurança no entorno do campus, com mais policiais e ampliação do sistema de monitoramento por câmeras.
Questionada, a Política Militar informa que o Comando do 5⁰ BPM (Praça da Harmonia) está em contato com a direção da referida instituição de ensino, com o objetivo de construir estratégias para aumentar a sensação de segurança de toda a comunidade escolar.
Ressalta ainda que a região mencionada conta com reforço de agentes do Programa Bairro Presente e da Patrulha Escolar.
"Nesse contexto, o 5 BPM (Praça da Harmonia) está atuando para prevenir e coibir esses delitos.
As rondas e abordagens são realizadas no entorno e nos principais acessos ao Campus da UFRJ", completa.
'Cordão sanitário'
A cientista política Mayra Goulart defende ainda a pluralidade da universidade pública.
— A universidade é um espaço de paz e plural.
Não somos tolerantes com nenhum tipo de violência ocorrida contra qualquer pessoa.
Gera espanto muitos caírem no discurso de que somos panfletários de esquerda dentro de sala de aula.
Profissional ruim tem em tudo quanto é lugar; então, é claro que vai ter um professor amalucado à direita ou à esquerda.
Mas isso não é a universidade, isso não é a UFRJ, a maior universidade federal do país.
A universidade tem um projeto, que é de inclusão.
Oferecemos conteúdos e formamos pessoas de diferentes espectros ideológicos — argumenta a acadêmica.
Ela diz ainda que nem todos os alunos envolvidos no conflito agrediram o autor da suposta apologia:
— Acabamos ficando presos a alguns cortes da situação, o que torna a compreensão enviesada.
Mas, se você tiver acesso a todos os vídeos, vai ver que havia vários alunos ao redor do menino caído (Diego) tentando fazer um cordão sanitário para defendê-lo, justamente porque já havíamos conversado sobre esse tema.
Contra o 'nazi-fascismo'
Três dias após as agressões professores e técnicos da instituição divulgaram, na sexta-feira, uma carta contra o "nazi-fascismo" e a discriminação.
No texto, assinado por mais de cem pessoas, os professores manifestam apoio a Deivid, um aluno negro, negam que a reação à suposta apologia tenha sido uma sessão de linchamento e dizem que Diego foi o "agente provocador" de toda a confusão.
"A partir do entendimento de que uma universidade democrática deve constituir-se como um espaço de pluralidade, inclusão, respeito, reconhecimento das diferenças, livre de práticas e manifestações que promovam o ódio, a discriminação ou a violência contra grupos historicamente vulnerabilizados, posicionamo-nos publicamente em solidariedade aos estudantes agredidos por um neonazista em um campus da UFRJ e em repúdio aos atos por ele praticados, entre eles agredir verbal e fisicamente um estudante negro com insultos racistas".
Uma universidade democrática não pode ser indiferente ao fascismo.
Repudiamos a caracterização da reação de autodefesa dos estudantes como um ato de linchamento: tal como os estudantes, exigimos que a instituição efetive as medidas disciplinares cabíveis em virtude do ato criminoso do estudante.
Recusamos o justiçamento e, por isso, exigimos a punição do ato criminoso nos termos do Estatuto e do Regimento, sem prejuízo das medidas criminais.", diz trecho do texto.
Leia a íntegra da carta dos professores da UFRJ
"A partir do entendimento de que uma universidade democrática deve constituir-se como um espaço de pluralidade, inclusão, respeito, reconhecimento das diferenças, livre de práticas e manifestações que promovam o ódio, a discriminação ou a violência contra grupos historicamente vulnerabilizados, posicionamo-nos publicamente em solidariedade aos estudantes agredidos por um neonazista em um campus da UFRJ e em repúdio aos atos por ele praticados, entre eles agredir verbal e fisicamente um estudante negro com insultos racistas.
Agindo como agent provocateur (agente provocador), dirigiu-se, no dia 25 de agosto, a uma sala de aula do IFCS/IH (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais e Instituto de História da UFRJ, no Largo S.
Francisco de Paula, centro do Rio), exibindo orgulhosa e provocativamente uma camiseta de uma banda com um propósito evidente.
É um símbolo nazista.
Lembremos que se trata de crime tipificado na Lei 7716 de 1989, pois toda variedade de símbolos como este é igualado à suástica.
Uma universidade democrática não pode ser indiferente ao fascismo.
Repudiamos a caracterização da reação de autodefesa dos estudantes como um ato de linchamento: tal como os estudantes, exigimos que a instituição efetive as medidas disciplinares cabíveis em virtude do ato criminoso do estudante.
Recusamos o justiçamento e, por isso, exigimos a punição do ato criminoso nos termos do Estatuto e do Regimento, sem prejuízo das medidas criminais.
Exibir símbolos de defesa da ideologia nazi-fascista num espaço de formação crítica e produção de conhecimento socialmente referenciado não pode em momento algum ser considerado uma “opinião” válida como qualquer outra.
É vestir a apologia de uma história de extermínio, genocídio, perseguição e destruição de direitos que produz medo, intimidação e violência ainda no presente.
Enfrentar o fascismo é garantir o direito de todas e todos estudarem, pesquisarem e existirem sem medo em nossa universidade.
Como lembrava Marc Bloch, a história deve ser viva, deve pulsar nas veias da humanidade como um lembrete constante de quem somos.
Reivindicamos que a Universidade crie mecanismos institucionais adequados para combate e prevenção a esse tipo de evento, como protocolos antifascistas, e apoie as iniciativas de mobilização, organização coletiva e autodefesa dos estudantes, defendendo a trincheira da democracia na universidade pública."
