Diferentemente da balança comercial, os investimentos diretos entre Brasil e Argentina revelam uma integração modesta das duas economias, que pode perder ainda mais fôlego caso as tensões diplomáticas se aprofundem.
Em 2024, empresas argentinas responderam por apenas 0,15% (ou US$ 1,36 bilhão) do estoque de investimento direto estrangeiro no Brasil, percentual inferior ao de companhias de outros 32 países, incluindo Colômbia, Uruguai e México.
No sentido inverso, os investimentos de empresas brasileiras na Argentina representaram apenas 1,3% (US$ 5,85 bilhões) do estoque total aplicado no exterior no mesmo ano, de acordo com dados do Banco Central (BC).
Embora especialistas avaliem que os atritos entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei ainda não tenham efeitos sobre as decisões de investimento, eles alertam que uma deterioração consistente da relação bilateral pode desestimular novos aportes.
Esse baixo fluxo de investimento entre os dois países reflete uma relação que nunca teve a mesma relevância dos fluxos comerciais, segundo Celso Figueiredo, sócio da Barral Parente Pinheiro Advogados e especialista em comércio exterior.
Ao longo das últimas duas décadas, afirma, os investimentos bilaterais foram marcados por aportes esporádicos associados a projetos específicos, sem um comportamento consistente e ainda com uma trajetória de retração nos últimos anos.
A avaliação é compartilhada pela Câmara de Comércio Argentino-Brasileira (Camarbra), que atribui essa baixa integração a fatores estruturais.
Brasil e Argentina são economias receptoras líquidas de capital e competem pelos mesmos investidores internacionais para financiar infraestrutura, energia e recursos naturais.
Nos setores tradicionais, como o automotivo, por exemplo, as decisões de expansão de fábricas e de novas linhas de produção costumam ser tomadas pelas matrizes globais - sediadas nos Estados Unidos, na Europa ou no Japão - e não pelas subsidiárias brasileiras ou argentinas.
Com isso, os aportes são contabilizados como investimento desses países de origem, enquanto a integração entre Brasil e Argentina, como no intercâmbio de peças, aparece principalmente nas estatísticas de comércio, e não nas de investimento direto.
As exceções são as chamadas multilatinas: empresas brasileiras já consolidadas regionalmente, como Ambev e Natura, e grupos argentinos que buscam a escala do mercado consumidor brasileiro, como Mercado Livre e Techint/Tenaris.
“Em suma, Brasil e Argentina competem por aportes dos mesmos grandes atores globais para desenvolver seus setores de energia e recursos naturais, enquanto a integração bilateral permanece ancorada no intercâmbio comercial e operacional das indústrias já instaladas”, diz a Camarbra.
De acordo com a plataforma InvestVis do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), citada por Celso Figueiredo, o auge do investimento direto argentino no Brasil nos últimos 20 anos ocorreu em 2012, quando alcançou US$ 262 milhões.
Em 2025, esse valor caiu para US$ 29 milhões, quase dez vezes menor.
Atualmente, a Argentina representa aproximadamente 0,07% do montante global investido no Brasil.
No sentido inverso, entre 2011 e 2012, o Brasil investiu cerca de US$ 1,7 bilhão na Argentina.
Em 2025, porém, o investimento direto brasileiro no país foi de aproximadamente US$ 100 milhões.
Em termos práticos, o Brasil possui maior margem para prescindir dos investimentos argentinos”
Por outro lado, a título de comparação, a relação comercial é robusta e estrutural.
Em 2025, o Brasil exportou cerca de US$ 18 bilhões para a Argentina, seu terceiro principal destino de exportações, enquanto importou aproximadamente US$ 13 bilhões do país, que tem o Brasil como principal mercado para suas vendas externas.
Na avaliação de Figueiredo, os investimentos diretos, por envolverem decisões de longo prazo, ativos produtivos e custos elevados de entrada e saída, tendem a ser menos sensíveis a episódios pontuais de tensão diplomática do que o comércio.
Ainda assim, podem ser afetados por uma eventual instabilidade regulatória, jurídica ou econômica.
A Camarbra pondera que as fricções institucionais e as incertezas conjunturais entre os dois países elevam o prêmio de risco para projetos de longo prazo, e o impacto imediato se dá no “compasso de espera” adotado por investidores.
Ao analisar os cenários para o médio e o longo prazos, Figueiredo afirma que será preciso acompanhar a evolução da relação bilateral.
Segundo ele, Milei pauta parte de seu comportamento político na atuação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, marcada por mudanças frequentes de posicionamento nas relações internacionais.
Caso esse comportamento seja reproduzido de maneira consistente em relação ao Brasil, poderá haver uma deterioração das relações diplomáticas e, consequentemente, um desincentivo à realização de novos investimentos brasileiros na Argentina.
Ainda assim, o especialista salienta que o país vizinho é o principal interessado em evitar que as tensões prejudiquem os fluxos de investimento e de comércio com o Brasil.
“A Argentina não dispõe da mesma posição internacional dos Estados Unidos, e o Brasil exerce papel central e preponderante na economia regional.
Em termos práticos, o Brasil possui maior margem para prescindir dos investimentos argentinos, enquanto a Argentina teria muito mais a perder com uma redução dos investimentos brasileiros e com o enfraquecimento da relação econômica bilateral.”
O presidente da Camarbra, Federico Servideo, defende que a Argentina precisará de investimentos para consolidar o plano de ajuste econômico buscado por Milei.
O país não tem poupança nem mercado de capitais próprios para bancar esses investimentos, diz.
“Nós somos prudentemente otimistas de que empresas brasileiras capitalizadas e com experiência podem vir a aproveitar oportunidades de investimento na Argentina”, afirma Servideo.
Do lado oposto, poucas empresas argentinas têm capital suficiente para fazer o caminho inverso, segundo ele.
O Brasil é parceiro muito importante para a Argentina.
A Argentina é menos importante para o Brasil”
Servideo diz que o plano do presidente argentino tem a “direção correta” no ajuste macroeconômico, mas alguns setores sofrem com efeitos colaterais e recessão, como o varejo e a construção civil.
Segundo integrantes do governo brasileiro, a reação negativa às declarações de Milei dentro da própria Argentina não se limitou aos opositores do atual governante.
Segundo essas fontes, houve reações de diversos setores motivadas tanto pelo impacto institucional das falas quanto pela relevância do Brasil para a economia argentina.
A avaliação é a de que esses grupos podem forçar por uma mudança de postura do governo argentino.
“Os governos respondem à pressão de empresários que constituem parte da sua base de apoio”, disse uma fonte.
No domingo, porém, Milei, elevou a crise diplomática ao retomar os ataques contra Lula, chamando o petista de “ladrão” e “corrupto” durante entrevista à emissora local LN+.
Matías Vernengo, professor da Universidade de Bucknell, também avalia que a estratégia do presidente argentino não tem efeitos positivos no país.
Disse que a China é um dos principais mercados para as exportações argentinas de soja, e Milei havia dito que não negociaria com comunistas na campanha eleitoral de 2023.
“No verão de 2024, foi a linha de swap com o Banco Popular da China que ajudou a sustentar a situação externa argentina e a evitar uma aceleração ainda maior da inflação”, disse Vernengo.
“Imagino, embora possa estar errado, que também terá de recuar em relação ao Brasil.
O Brasil é um parceiro muito importante para a Argentina.
A Argentina, por sua vez, é relativamente menos importante para o Brasil.”
A Camarbra acredita que, apesar das limitações de capital, existem rotas para o crescimento sustentável do investimento bilateral em áreas como integração energética, mineração, tecnologia, software, serviços financeiros, agritech e comércio eletrônico.
A entidade destaca ainda o potencial na integração energética e mineral, impulsionada pela demanda brasileira por gás natural de Vaca Muerta e pela corrida global por minerais críticos, como o lítio argentino.
Investimento direto retrata distanciamento entre Brasil e Argentina
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