Irajá teve fortim militar, é reduto de fé e quase foi cidade - QTU Questões do Universo

Irajá teve fortim militar, é reduto de fé e quase foi cidade

Fonte: Bandeira da fonte

Após cinco minutos de caminhada, você encontra o cume do Monte Escada de Jacó, no Irajá.
Antigamente usado por traficantes para “micro-ondas”, hoje é um reduto de fé, em especial de evangélicos neopentecostais.
Em diversos cantos desse pequeno morro, assistimos a cultos, nos deparamos com pessoas estudando a Bíblia, orando de maneira particular ou até mesmo agradecendo.
Algumas em voz alta.
Outras, timidamente.
No sábado em que fui conhecer, estava bastante cheio.
Uma feira de itens religiosos já se forma ao redor.
Em 1711, o Rio de Janeiro foi invadido por corsários franceses.
A proteção portuguesa não funcionou.
Pior: o governador Francisco de Castro Morais, conhecido como Vaca, menosprezou o poder de fogo inimigo e, no fim, teve que fugir.
Foi um salve-se quem puder.
O líder francês René Duguay-Trouin foi claro na negociação: ou eles recebiam ouro e gado ou iriam pôr fogo na cidade.
Era um típico sequestro.
Foi feito um tipo de vaquinha e pagou-se a fatura.
Lógico que os traumas desse episódio perpetuariam e atitudes foram tomadas para a não repetição — uma delas foi a construção de inúmeras fortalezas e fortins.
No alto do Monte Escada de Jacó, em 1716, havia canhões e armas.
Soldados prestavam serviço.
Acabou se tornando mais um espaço de defesa no que hoje conhecemos como Zona Norte.
Há muito tempo, o professor e arqueólogo Cláudio Prado estuda a região.
Por e-mail, me informou que “já foram avistados e coletados fragmentos de louça, porcelana, faiança portuguesa dos séculos XVII e XVIII e também cerâmica que pode ser indígena ou quilombola.
(...) Também detectamos pequenos itens, como balas de mosquete (...)” É, portanto, um lugar com importância arqueológica.
Nesse instante, as pesquisas continuam e é fundamental que avancem, sempre respeitando uma boa relação entre fé e a História.
Já que estou em Irajá
Muito antes de Portugal saber direito o que faria com o Irajá, esse cantinho da cidade já se chamava Eiraiá.
Em 1578, o viajante francês Jean de Léry publicou o relato de sua viagem ao Brasil e listou as aldeias tupinambás que existiam em volta da Baía de Guanabara.
Uma delas era Eiraiá – hoje se pronuncia Irajá.
Segundo a vertente histórica mais aceita, o nome significa em tupi “terra onde brota o mel”.
Na prática, uma colmeia gigante: abelha era o que não faltava neste atual bairro.
Com a chegada dos portugueses e a montagem da colônia, ergueu-se no local a igreja em torno da qual o bairro se desenvolveu.
No século XIX, o nome ganhou ares de nobreza.
Por decreto imperial, Dom Pedro II criou o título de Conde de Irajá e o entregou a Dom Manuel do Monte Rodrigues de Araújo, nascido no Recife e então bispo do Rio de Janeiro.
Aviso: ele nunca morou no bairro.
Crianças enfrentando Hitler
Foi de porta em porta que crianças do subúrbio carioca ajudaram a derrotar Hitler.
Em 1942, meninos e meninas de Irajá, Vicente de Carvalho e Vaz Lobo saíram pelas ruas recolhendo latas, ferro, alumínio, cobre e até vidro.
Todo o material foi vendido e o dinheiro arrecadado financiou a compra de um avião.
A aeronave atravessou o subúrbio com as asas desmontadas, em cima de um bonde, e foi remontada no meio da praça de Irajá.
Ali mesmo, diante de autoridades, recebeu o nome de “Jangadeiro”.
A doação fazia parte de uma campanha nacional puxada pelo jornalista Assis Chateaubriand, com apoio do Ministério da Aeronáutica, sob o lema “Dêem asas ao Brasil”.
Aviões como aquele foram fundamentais no treinamento dos pilotos que defenderam o país durante a Segunda Guerra Mundial.
Depois da cerimônia, alunos dos ginásios da região desfilaram pelas ruas.
A festa terminou no Largo do Vaz Lobo, em uma enorme celebração.
Irajá quase foi uma cidade
Em maio de 1960, políticos, empresários e moradores se reuniram no salão onde funcionou por anos a Gafieira Danúbio e fundaram a Comissão Pró-Município de Irajá.
O território projetado previa os distritos de Pavuna, Rocha Miranda, Vila da Penha e Parada de Lucas, com Irajá como sede.
Havia até brasão.
Os botos lembravam a ligação do bairro com a Baía de Guanabara.
Irajá já foi coladinho na água.
A abelha e a colmeia vêm daquela tradução que escrevi anteriormente.
A igreja é a Nossa Senhora da Apresentação.
E o brasão é do Bispo Conde de Irajá.
As datas: 1613, fundação; 1962, o ano que seria o da emancipação.
Mas havia um problema, e ele se chamava Carlos Lacerda.
O governador fez enorme campanha contra.
O motivo era dinheiro: se Irajá virasse município, os impostos arrecadados no bairro deixariam de ir para o estado.
Em abril de 1963 veio o plebiscito: 95% votaram não.
Lacerda criou 20 Regiões Administrativas e distribuiu os brasões de brinde.
O sonho do município virou pó.