Isis Valverde prepara musical sobre Hilda Furacão e fala de planos para o segundo filho a pedido do primogênito, Rael - QTU Questões do Universo

Isis Valverde prepara musical sobre Hilda Furacão e fala de planos para o segundo filho a pedido do primogênito, Rael

Fonte: Bandeira da fonte

Ela muda de lugar duas vezes durante a conversa.
Procura a melhor luz da casa.
Interrompe o raciocínio para mostrar o jardim.
Depois, o vento.
Fala de Fernando Meirelles, emenda uma história de Hollywood, revive a infância no interior de Minas.
Com o mesmo fôlego, já está no filho, no descontrole hormonal, na vontade de produzir, na estreia profissional nos palcos.
E recomeça pelo café servido na casa da mãe, em Aiuruoca.
É nesse ritmo que Isis Valverde funciona.
Aos 39 anos, emenda dois lançamentos como atriz, compra os direitos de “Hilda Furacão” e lança uma coleção de moda inspirada nas próprias memórias.
Isis Valverde
Ivan Erick
Depois de 20 anos de carreira, o desafio já não está apenas na construção das personagens.
Quando terminou “Amor de mãe”, sua nona novela na TV Globo, entendeu que buscava outro lugar dentro do processo criativo.
“Percebi que talvez estivesse entrando numa caixa.
Queria mudar a temperatura da minha comunicação.”
O desejo era participar dos projetos desde o começo e criar as próprias narrativas.
Atualmente, desenvolve o primeiro longa construído a partir de uma ideia sua, ainda em fase inicial.
“Posso dizer que contratei uma equipe dos sonhos”, conta, sem dar mais pistas.
Fazer roteiros pode ser o próximo passo para a atriz, que já lançou dois livros de poesia — o último, “Vermelho rubro” (Citadel Grupo Editorial).
“Eu me comunico pela poesia.
Faço isso há anos.
Às vezes, pego um vinho, abro e fico lendo poemas sozinha.
Choro”, conta.
Com roteiro de cinema, ainda não aconteceu.
“Não me senti segura para escrever a história.
Diálogo é uma coisa que eu não manjo”, diz.
“Mas participar do processo criativo de um filme está sendo delicioso.”
Isis Valverde
Ivan Erick
A busca por novos desafios se reflete na escolha dos papéis.
Depois da estreia do suspense “Quarto do pânico”, no Globoplay, no início do ano, agora pode ser vista em “Corrida dos bichos”, disponível no Prime Video.
Dirigido por Fernando Meirelles, Rodrigo Pesavento e Ernesto Solis, o thriller mergulha na ficção científica, gênero pouco visitado pelo cinema brasileiro.
“Ninguém está acostumado a assistir a um futuro distópico com o Pão de Açúcar como cenário.
As pessoas ficam impactadas”, diz a atriz.
No filme, vive uma mulher com sede de poder que não é heroína nem vilã.
“A Nadine que Isis criou é ao mesmo tempo vulnerável e corajosa.
Frágil, mas inteligente.
Entrega muitas camadas”, elogia Fernando Meirelles.
“Não há nada pior do que um ator que interpreta, e você não a vê fazendo isso.
Ela simplesmente está lá e pronto, parece sem esforço”, completa.
A vontade de sair da caixa foi o que levou Isis a atuar em outro idioma.
Antes de conseguir um papel em “Código Alarum”, onde contracenou com Sylvester Stallone e Mike Colter, fez diversos testes para produções internacionais.
Não que sonhasse com uma carreira em Hollywood, mas queria experimentar um contexto diferente do que conhecia.
“Amo atravessar oceanos”.
Isis Valverd
Ivan Erick
Gravar em inglês foi só uma parte do desafio.
Durante as filmagens, era a única latina do elenco e passava os dias trabalhando num idioma que não era o seu.
“Saía de lá com dor de cabeça”, conta.
Também estranhou a dinâmica dos estúdios, onde cada ator permanecia no próprio trailer até ser chamado para gravar.
“Mas eles trabalham de uma forma impressionante”.
Por falar em trabalho, nos últimos meses, Isis teve de lidar com um processo movido por uma ex-cozinheira, que relatava jornadas exaustivas.
“As alegações não são verdadeiras.
Já me manifestei sobre isso, mas aproveito para reiterar: sempre agi dentro da lei, com respeito às pessoas e aos seus direitos.” O caso terminou em acordo.
Coordenar tantas frentes, afirma a atriz, exige método.
Com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) diagnosticado ainda na infância, Isis fez da musculação e da ioga parte do tratamento.
“Preciso movimentar o corpo para organizar a mente.”
A confiança de que construiria o próprio caminho veio cedo.
O pai, engraxate, vendeu balas no sinal e conseguiu entrar para uma universidade federal.
Formado em Bioquímica, chegou a dormir no chão do consultório, dava aulas pela manhã e trabalhava até a noite.
“Você conquista respeito com trabalho”, dizia a ela.
O exemplo ajudou a moldar a segurança com que Isis olhava para o próprio futuro.
“Se ele conseguiu, eu sabia que também conseguiria.”
Isis Valverde
Ivan Erick
Entre os antigos sonhos, há uma realizado recentemente: A atriz comprou os direitos de “Hilda Furacão”, romance de Roberto Drummond, e estuda adaptá-lo para o teatro musical.
Ambientada na Belo Horizonte do início dos anos 1960, a história acompanha uma jovem da alta sociedade que rompe com as convenções e vai viver na zona boêmia da cidade.
Há anos, Isis sonha com o papel.
“Ela vem de Minas e me conecta com as minhas raízes.” Na memória da atriz está a minissérie da Globo exibida em 1998, com Ana Paula Arósio no papel-título e direção de Wolf Maya.
“Não se falava em empoderamento feminino na época.
Eu, menina, fiquei chocada com aquela mulher enfrentando uma sociedade machista e controladora para ser dona da própria história.”
A identificação passava pelo que via e ouvia em casa.
“Minha mãe sempre me preparou para o que as mulheres passam”, lembra.
E a avó também.
Numa época em que separações ainda causavam escândalo, colocou o marido para fora de casa e precisou encontrar uma forma de se sustentar.
Passou a costurar para outras pessoas, tornou-se professora, diretora de escola e, mais tarde, prefeita da cidade.
“Minha obstinação com a independência financeira vem desse berço.
Minha avó me ensinou que só assim a mulher é livre.”
Levar Hilda aos palcos reaproxima a atriz de outro pedaço da infância.
Sua mãe fazia parte de uma companhia de teatro e ela, filha única, cresceu naquele universo.
Aos 5 anos, já circulava pelos bastidores, remendava figurinos, abria e fechava a cortina de veludo vermelho.
Até os 10, quando a mãe deixou a carreira para estudar Direito, viveu entre coxias.
Depois vieram as câmeras: novelas, séries e filmes que deixaram o tablado mais distante, mas ainda na memória.
“ O cheiro da madeira, do palco, da plateia me transporta para aquele tempo.”
Isis Valverde
Ivan Erick
Agora, Isis se prepara para a estreia teatral, ainda sem data confirmada.
Leva para a nova função uma regra aprendida quando garota, espiando ensaios e apresentações: no teatro, ninguém faz uma coisa só.
Desta vez, estará no centro da cena, mas também nos bastidores, como produtora.
“Quando o ator ganha mais tração, quer ir para dentro da engrenagem.
É um movimento natural”, diz.
A inquietação da atriz também encontrou eco na moda.
Em parceria com a Gammba, do designer baiano Vitorino Campos, acaba de lançar uma collab que traduz a hospitalidade mineira.
“Ela entrou como criativa.
Trouxe ideias, participou de tudo.
A coleção ficou com muito da Gammba e muito da Isis.
Minas com Bahia”, diz o fotógrafo Ivan Erick, sócio da marca e autor das imagens desta reportagem.
É para a cidade onde cresceu, hoje com cerca de 6 mil habitantes, que ela volta quando precisa desacelerar.
Rael, de 7 anos, costuma acompanhá-la.
Filho do casamento com o modelo André Resende, com quem ficou de 2018 a 2022, o garoto anda a cavalo, entra no mato, pega ovos no galinheiro e experimenta um pouco da Aiuruoca que a mãe conheceu quando tinha a sua idade.
Foi dele o pedido que a fez repensar a ideia de ter outro filho.
Depois do casamento com o empresário Marcus Buaiz, em 2024, Rael passou a conviver com os enteados de Isis como irmãos.
Um dia, sentou no chão do quarto e foi direto ao ponto.
“Mamãe, é o seguinte: me sinto muito sozinho nessa casa.
Todos os meus amigos têm irmãos e eu não.” Ela saiu da conversa convencida de que era hora da segunda gestação.
Isis Valverde
Ivan Erick
O período seguinte foi marcado pela expectativa.
Vieram o cansaço, os atrasos na menstruação, a insônia e ondas de calor.
“Fazia exames numa alegria.
Aí vinha a frustração.
Minha e do meu marido”, lembra.
Chegou a pensar numa menopausa precoce, mas descobriu outra coisa: a doença celíaca, com a qual convive há anos, havia desorganizado o organismo.
Os hormônios estavam alterados e a reserva ovariana abaixo do esperado.
A médica foi direta: talvez nem conseguisse fazer uma fertilização in vitro.
Isis reorganizou o tratamento, voltou a ter ciclos menstruais regulares e continua tentando engravidar naturalmente.
“Decidi que vou viver esse processo com leveza”, diz.
No meio disso tudo, uma palavra de origem grega, aprendida nas aulas de filosofia, ganhou novo sentido: kairós (em português livre, “o momento oportuno”).
“Na vida a gente tem muitos desejos e muitos sonhos.
Mas, às vezes, não é o momento.
É preciso aguardar e entender que cada coisa tem seu tempo.” Sem pressa.