Janet Yellen: “Eu apostaria que veremos algum aumento das taxas para conter a inflação”
Paulo Bareta/Divulgação
A inflação ainda acima da meta, as tarifas adotadas pelo governo Donald Trump e as incertezas provocadas pelos conflitos no Oriente Médio devem manter os juros elevados nos Estados Unidos.
A avaliação é de Janet Yellen, ex-secretária do Tesouro americano e ex-presidente do Federal Reserve (Fed), que vê inclusive a possibilidade de novas altas se as pressões sobre os preços se intensificarem.
“Por enquanto, o Fed está em compasso de espera, mas acredito que esteja preparado para elevar os juros”, afirmou Yellen durante a Expert XP, em São Paulo.
Ela participou do painel “Perspectivas Econômicas dos EUA e Globais”, mediado por Caio Megale, economista-chefe da XP.
Em junho, o Fed manteve a taxa básica entre 3,5% e 3,75% ao ano e afirmou que a atividade econômica continuava em expansão.
A inflação ao consumidor recuou de 4,2% em maio para 3,5% em junho, mas permaneceu distante da meta de 2%.
Yellen disse que a inflação americana começou a perder força depois dos choques da pandemia, mas então as tarifas de Trump voltaram a pressionar os preços.
“Quando parecia que a inflação cairia, o presidente Trump impôs tarifas enormes, que fizeram a inflação disparar.”
Na avaliação da ex-secretária, o impacto direto das tarifas pode levar um ou dois anos para se dissipar.
Antes que esse processo se completasse, porém, a instabilidade no Oriente Médio trouxe uma nova pressão sobre a energia.
“Se a atual rodada de turbulência continuar ou se intensificar, eu apostaria que veremos algum aumento das taxas para conter a inflação.”
A economia americana cresceu a uma taxa anualizada de 2,1% no primeiro trimestre.
O mercado de trabalho permanece estável e, segundo Yellen, ainda não exerce pressão significativa sobre os preços.
Ela alertou, porém, para o risco de os choques contaminarem as expectativas.
A ex-secretária do Tesouro americano também contestou a ideia de que a inteligência artificial já ajude a reduzir a inflação.
Comparou o momento atual ao avanço da internet nos anos 1990, quando Alan Greenspan percebeu uma aceleração da produtividade antes que ela aparecesse nos dados oficiais.
Por enquanto, disse, essa transformação não se repetiu.
“Ainda não vemos evidência de melhora relevante da produtividade agregada, embora a IA esteja claramente produzindo efeitos em alguns setores.”
No curto prazo, o efeito tem sido o inverso.
A construção de centros de dados elevou a demanda por eletricidade e semicondutores, enquanto a valorização das empresas de tecnologia estimulou o consumo.
“Neste momento, a IA está pressionando a inflação para cima, e não o contrário”, afirmou.
Yellen também chamou a atenção para as contas públicas dos EUA.
Segundo ela, a dívida pública está próxima de 100% do PIB, enquanto o déficit gira em torno de 6%, mesmo sem uma recessão.
“Isso é muito incomum.
Há problemas estruturais que continuarão ampliando o déficit se nada for feito”, disse.
Para a economista, o envelhecimento da população tende a aumentar os gastos com aposentadorias e saúde, enquanto os juros encarecem a dívida.
“Não existe uma solução indolor”, disse Yellen.
O ajuste exigirá alguma combinação de aumento de impostos, redução de benefícios previdenciários e contenção das despesas médicas.
A preocupação com as contas públicas se soma a outra mudança observada por Yellen: a redução da presença do dólar nas reservas internacionais.
Bancos centrais estrangeiros vêm diminuindo a parcela aplicada na moeda americana e ampliando as compras de ouro.
Ela relacionou parte desse movimento ao congelamento dos ativos russos pelo G7 após a invasão da Ucrânia, em 2022.
A medida, disse, mostrou a outros governos que as reservas mantidas em dólares também podem ficar sujeitas a sanções americanas, o que estimulou a busca por alternativas.
Ela não vê, contudo, uma moeda capaz de substituir o dólar.
Segundo Yellen, o mercado de títulos dos EUA continua sem equivalente em tamanho, liquidez e segurança institucional.
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