Juros altos, recuperações judiciais e compras online afetam emprego formal em julho - QTU Questões do Universo

Juros altos, recuperações judiciais e compras online afetam emprego formal em julho

Fonte: Bandeira da fonte

A criação líquida de postos de trabalho com carteira assinada no país decepcionou em julho, deixando mais clara a desaceleração da atividade.
O esfriamento da economia pode ter começado a bater de forma mais evidente no mercado de trabalho, até então mais resiliente.
Juros altos, recuperações judiciais e preferência dos consumidores por compras online podem ter afetado o desempenho do emprego formal no país, apontam economistas.

EBC
O mercado de trabalho brasileiro registrou abertura líquida de 58.568 vagas com carteira assinada em julho, a menor para o mês desde o início da série histórica, em 2020.
Os dados fazem parte do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

O resultado de julho ficou abaixo da estimativa mediana de instituições financeiras, gestoras de recursos e consultorias, de abertura líquida de 114 mil vagas, segundo o VALOR DATA.
Ficou também abaixo da estimativa mínima.
As projeções variaram de 90 mil a 137,9 mil, todas de saldo positivo.
Foram registradas 2.262.888 admissões contra 2.204.320 desligamentos no mês passado.

O mercado de trabalho, ressalta Janaína Feijó, economista e pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), sente os efeitos da desaceleração, mas é o último a ser afetado.
“Observamos uma desaceleração mais expressiva no Caged a partir dos dados de julho.” Isso, diz, mostra que a desaceleração já começou a bater de forma mais clara no mercado de trabalho.
Com o resultado de julho, a economista diz que deve haver mudança na estimativa do FGV Ibre para o saldo líquido de vagas ao fim do ano.
A economista acredita que a estimativa de criação de postos formais caia para perto 1 milhão, ante 1,1 milhão anteriormente projetados.

Os dados de trabalho com carteira assinada de julho mostram perda de fôlego do emprego formal e reforçam cenário de baixo crescimento econômico a partir do terceiro trimestre de 2026, avalia o economista Rodolfo Margato, da XP.
Ele destaca que os dados recentes têm mostrado uma moderação do emprego e da renda, e não uma reversão do cenário de mercado de trabalho apertado.

A XP espera que o crescimento do PIB total ficará próximo de zero no segundo semestre de 2026, após a expansão robusta observada no primeiro semestre, com crescimento médio de 0,8% na comparação trimestral em ambos os trimestres.
Além disso, diz Margato, setores como construção civil, alojamento e alimentação e serviços domésticos parecem estar entre os mais afetados pela escassez de trabalhadores.
“Por fim, as incertezas em relação à condução da política econômica a partir de 2027 e eventuais mudanças na escala de trabalho 6x1 podem levar as empresas a adotarem uma postura mais cautelosa, adiando decisões de investimento e contratação.”

Dos cinco grandes setores da economia, quatro registraram saldo positivo de empregos formais em julho.
O comércio foi a exceção, com fechamento líquido de 2.056 vagas.
No acumulado do ano, o setor registra perda de 7.896 postos.

Ao comentar os dados de julho do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o ministro do Trabalho e Emprego em exercício, Chico Macena, afirmou que o varejo “vem sucessivamente perdendo postos de trabalho”.
Ainda assim, descartou a existência de uma crise estrutural no setor.

Na avaliação de Macena, o resultado representa um “reposicionamento momentâneo” pelo qual o varejo terá que passar.
Nos últimos meses, uma série de empresas do setor entrou com pedido de recuperação judicial.
O caso mais recente é o da Casas Bahia.

Feijó ressalta que o saldo líquido de vagas em julho ficou muito abaixo da expectativa, que já considerava o processo de desaceleração.
“O que se concretizou foi algo bem pior do que um cenário já cauteloso.”

Há muitos fatores contribuindo para essa desaceleração mais expressiva, diz.
“A manutenção da taxa de juros em patamar elevado é fator importante para determinar a capacidade de contratação das empresas e dificulta também a situação de pessoas inadimplentes, o que acaba afetando o acesso a consumo de bens e serviços.”

Os dados de julho, diz Feijó, mostram queda expressiva no comércio, que não passa por um bom momento, principalmente o segmento varejista, que tem sofrido com a preferência do consumidor pelas compras online.
“Temos essa mudança no varejo, que pode ser uma coisa que venha para ficar.
A questão da inadimplência é um fenômeno que também ganhou força nos últimos três meses, porque os níveis estão muito altos no Brasil.”

Segundo o Caged, houve abertura líquida de postos em serviços (24.098); agropecuária, produção florestal, pesca e aquicultura (12.523); indústria geral (11.315); construção (12.691).

Apesar do resultado positivo na abertura de vagas, diz Feijó, os serviços também mostraram desempenho fraco.
A atividade, nota, ficou com saldo abaixo da metade de igual mês do ano passado, quando foram abertas 51.014 postos no segmento.
“A atividade sempre funcionou como o principal motor do saldo total.” Os serviços, diz, chegaram a gerar o equivalente a 60% do saldo total de empregos formais.
Em julho, compara, essa taxa foi de 41%.
“Ou seja, o serviço também perdeu parte do seu protagonismo na geração de empregos totais.”

Feijó também destaca o impacto das recuperações judiciais no emprego formal.
“Há muitas empresas fechando, sabemos que a margem de operação no comércio e no serviço é muito curta.
Temos visto muitas empresas pedindo recuperação judicial e se espera que outras também peçam agora no segundo semestre.
O contexto macroeconômico vai influenciar o mercado de trabalho.”