Katie Kitamura:

Katie Kitamura: 'As histórias também acontecem para quem está no meio da vida'

Fonte: Bandeira da fonte

A escritora americana Katie Kitamura participou da 24º Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em mesa junto à autora espanhola Marta Pérez-Carbonell, na última sexta-feira (24).
Seu romance ‘Audição’, lançado em junho no Brasil pela editora Fósforo e traduzido por Érika Nogueira Vieira, foi finalista do Pulitzer, do Booker Prize e do National Book Critics Circle Award de Ficção.
O livro ainda foi citado pelo ex-presidente Barack Obama como uma de suas melhores leituras em 2025.
O thriller psicológico de 160 páginas, que traz uma discussão sobre papéis sociais e encenações também na vida privada, é composto de duas metades quase espelhadas.

Na primeira, um rapaz desconhecido pela narradora -- uma atriz de meia-idade -- diz acreditar ser seu filho, o que ela sabe ser impossível, já que nunca deu à luz nenhum bebê.
Na segunda, a trama muda radicalmente, e os personagens aparecem como se fossem de fato da mesma família.
Katie Kitamura deixa claro que não se trata de descobrir qual é a “realidade”, e há pistas ao longo do romance que endossam diferentes interpretações.

Nesta terça-feira (28), a autora americana esteve no Rio de Janeiro para lançar o livro após a Flip, na Livraria da Travessa.

Kitamura tem 46 anos e nasceu na Califórnia, filha de imigrantes japoneses.
Além de escritora, é jornalista e crítica, e colabora com publicações como The Guardian, The New York Times e Wired.
Também está publicado no Brasil seu livro ‘Uma separação’, com tradução de Sonia Moreira, pela Companhia das Letras.
O romance ‘Intimacies’ chegará ao país pela Fósforo ainda neste ano.
Em entrevista à CBN durante a Flip, a escritora falou sobre como o "meio" tem sido uma questão recorrente em sua escrita, sua visão da literatura, cinema, momento político dos Estados Unidos e também discutiu a necessidade humana de encenação.
Livros de Katie Kitamura
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São várias possibilidades para a trama de ‘Audição’: um sonho, uma encenação, uma realidade alternativa, uma questão mental… O fato de a interpretação estar em aberto traz um estranhamento que nos faz questionar o que é a realidade e também as encenações da nossa própria vida.
Podemos falar sobre isso?
Katie Kitamura: Acho que eu pensei esse livro, primeiro de tudo, como leitora.
Quase mais do que eu fiz como escritora.
Eu passo a maior parte do meu tempo lendo, e leio muito mais horas em um dia do que eu escrevo.
Sinto que ler é um ato profundamente criativo.

E eu sou muito consciente do quanto eu estou trazendo para o livro e o quanto ele está mudando através da minha interpretação.
A interpretação em si é um ato generativo.
Não existe livro estável: o livro está sempre mudando, dependendo de quem lê.

Com ‘Audição’, eu queria escrever um livro que honrasse a importância da interpretação.
Por isso, é possível ler de diferentes maneiras, deliberadamente.
Quando eu escrevi, pensei em quatro.
Mas eu conheci vários leitores ao longo desse período de mais de um ano em que o livro foi lançado nos Estados Unidos, e há muitas outras.
As pessoas continuam encontrando novas interpretações.
Katie Kitamura: Exatamente.
Há um momento em que a personagem central, que é atriz, afirma que uma performance existe no espaço entre o ator e o público.
E eu acho que é o mesmo com o livro, em que existe em um espaço entre o leitor e o escritor.

Estou muito feliz que as pessoas entrem no espírito.
Eu me refiro a ‘Audição’ como a "Ilusão do pato–coelho", que são ilustrações para crianças que existem nos Estados Unidos em que, se você olhar de um ângulo, você vê um coelho, e se olhar de outro, vê um pato.
Mas, quando eu era criança, o prazer de olhar para esses desenhos era na verdade ver ambos ao mesmo tempo.
Ilusão do pato–coelho.
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Como você vê a relação entre forma e enredo na literatura?
Katie Kitamura: Eu dou aulas de escrita criativa, e a coisa que geralmente mais preocupa os alunos é a questão do enredo.
Muitas vezes, eles pensam em enredo como uma série de eventos.
E eu penso muito diferente.
Considero o enredo como uma série de mudanças no entendimento dos leitores, ou dos personagens, das suas circunstâncias.

De muitas maneiras, eu acho que você pode olhar para ‘Audição’ e dizer que nada acontece de fato, mas o que acontece é que o entendimento dos personagens sobre quem eles são, e quem as outras pessoas são, muda radicalmente ao longo do livro.
Com 'Audição', eu estava muito curiosa para ver se eu poderia escrever algo em que a estrutura e a forma do livro fariam parte do trabalho que nós comumente associamos com o enredo.
Então, seria possível usar a estrutura e a forma para configurar algo como um plot twist? Seria possível usar a forma e a estrutura para criar momentum ao longo do livro, mesmo que não parecesse estar acontecendo muita coisa?
Esses foram alguns dos desafios que criei para mim mesma.
Como escritora, você sempre quer usar todas as ferramentas que estão disponíveis.
E, obviamente, a forma é uma ferramenta muito, muito importante.
Nos Estados Unidos, tem um gênero emergente que se chama "ficção sem enredo".
São, ostensivamente, livros em que nada realmente acontece.
Às vezes, meus livros são colocados nessa categoria, mas eu espero que ainda tenham uma certa tensão, a qual eu busco em outras fontes além do enredo.
Cada um dos seus personagens do núcleo familiar parece uma versão diferente de si ao longo do livro.
Como você quis trabalhar esse estranhamento e as mudanças de percepção sobre as pessoas mais próximas?
Katie Kitamura: O ponto de partida desse livro foi uma manchete que vi, que era “Um estranho me disse que era meu filho”, e eu me interessei muito por essa premissa.
Eu não não li o artigo nem descobri o que significava, porque já estava pensando que queria escrever a partir disso.
Eu tinha a sensação de que o artigo teria uma explicação lógica e narrativa, como um caso de adoção, e eu estava muito mais interessada na natureza existencial dessa manchete.

Mas eu não consegui encontrar o meu caminho até falar com uma amiga cujo filho, naquela época, tinha uns 20 e poucos anos, e ela disse: “Sabe, isso é apenas uma descrição do que é ter filhos.
Toda vez que meu filho volta da faculdade, é como se um estranho tivesse entrado no apartamento.”
Imediatamente eu pensei que isso era o interessante para mim, falar sobre essas contradições, que são quase aspectos incomensuráveis de experiências muito universais de maternidade, de amizade, de casamento, de fazer arte, e o fato de que existem essas experiências que não podem ser reconciliadas.

De alguma maneira, 'Audição' é sobre o longo e necessário processo pelo qual um filho se torna um estranho para seus pais, o que eu acho que é a definição do crescimento -- o que é natural, mas muito doloroso.
Me chamou a atenção como você dá ênfase ao meio.
A atriz está no meio da vida, em um momento em que pensa que tudo é sólido, quando vê essas certezas desestabilizadas.
Ela está fazendo uma peça e tem dificuldade com a cena central, que precisa dividir sua personagem de modo que ela saia transformada a partir dali.
Isso é um indicativo das cisões que vamos encontrar na segunda parte do livro?
Katie Kitamura: Sim, absolutamente.
Não é necessariamente metalinguístico, apesar de muitas pessoas entenderem desse jeito – então você não precisa ler uma metade do livro como se fosse a peça em si.
Mas, definitivamente, o livro é dividido em duas partes que ocupam duas realidades diferentes e a peça que está no coração do livro, bem no meio, é estruturada da mesma maneira.
E acho que isso é um pequeno mapa do caminho para o leitor, para sinalizar que esse é um jeito de abordar a estrutura do livro.

Por muito tempo tenho me preocupado com o meio.
Meu livro ‘Intimacies’, que foi publicado antes deste nos Estados Unidos, era sobre uma mulher que estava no meio da vida, com quase 40 anos, e ela trabalha em um tribunal de crimes de guerra em Haia, nos Países Baixos, após se mudar de Nova Iorque.
E em quase todas as descrições do romance as pessoas a definiam como uma "jovem mulher".
Fiquei realmente fascinada, porque ela é explicitamente não jovem no livro.
Parece que há quase uma suposição cultural de que a história, a narrativa, é algo que acontece para os jovens, ou talvez para os mais velhos, mas não para as pessoas que estão no meio.
E realmente não é o caso.
Há muita volatilidade e mutabilidade no meio da vida das pessoas.

Eu estava interessada em olhar o que acontece debaixo da superfície de um personagem que parece muito solidificado em sua vida.
Acho que também há uma parte de mim que se volta às possibilidades narrativas.
Por exemplo, se você tem um casal e você não está contando a história de como eles se uniram, nem de como eles se separaram, você está apenas olhando para o meio da relação, certas perguntas não estão em jogo.
Estou interessada em para onde, com esse espaço aberto, pode-se direcionar a atenção do leitor.

Como você vê a maternidade e os papéis sociais atribuídos à mulher?
Katie Kitamura: Eu pensava que a maternidade seria uma coisa muito óbvia, e até mesmo natural.
Quando tive meus filhos, me tornei muito consciente do quanto a narrativa sobre o que é ser uma boa mãe e a imagem da maternidade foram moldadas pela cultura.
Moldadas pelo capitalismo, claro, mas também pelos nossos pais, pelas nossas lembranças da infância.
Há muitas narrativas diferentes pressionando essa experiência, que está entre as mais íntimas que você pode ter na sua vida.

Eu tinha uma sensação muito poderosa de que, entre mim e meu filho, pesavam as expectativas que talvez eu estivesse colocando sobre mim mesma.
Havia algo muito performativo sobre ser mãe, especialmente quando se está em público, mas mesmo em momentos privados.
E eu estava interessada em pensar sobre isso.

Muitas vezes, quando as pessoas pensam em performance, particularmente em relações que são muito íntimas, como casamento ou em relação aos filhos, pensam que é algo negativo.
Mas não acho que seja necessariamente assim.
Meus filhos faziam muitas encenações aos quatro, cinco anos de idade.
Eles fingiam ser professores, ou mães, ou motoristas de ônibus, etc.
Quando você vai ao médico, ele pergunta se seu filho está usando a imaginação, e diz que este é um sinal de que a criança está se desenvolvendo, que é como a criança aprende o que significa ser uma pessoa no mundo.
É fascinante para mim que, quando você chega aos 16 ou 17 anos, de repente, é como se aquele período de jogo parasse, e sua identidade fosse fixada.
E não é mais permitido usar a performance conscientemente para entender quem você é, sua identidade e seu lugar no mundo.
Mas eu acho que, na verdade, nós continuamos a relacionar com a interpretação nas nossas casas, nas nossas amizades, no nosso trabalho, na nossa vida em família.
Esse livro é um pouco sobre isso.
Você também fala muito sobre encenação em ‘Uma separação’ que está publicado no Brasil pela Companhia das Letras.
É um tema que você deseja continuar explorando?
Katie Kitamura: Eu devo ter escrito ‘Uma separação’ há dez anos, e talvez seja o livro em que o tema da performance apareça de forma mais explícita, porque a protagonista interpreta o papel de uma viúva enlutada, embora ela não seja exatamente isso.
E esse papel acaba tomando conta da vida interior dela, passando a determinar a forma como entende quem é e como enxerga o próprio casamento.
Os dois livros seguintes também foram muito marcados por essa preocupação com a performance.
Costumo dizer que essa trilogia (‘Uma separação’, ‘Intimacies’ e ‘Audição’) encerra essa fase, e que agora é hora de seguir em frente.
No momento, estou trabalhando em dois livros, e acho que nenhum deles trata explicitamente desse assunto.
Acho que uma década pensando nesses temas já é suficiente.
Mas também acredito que, como escritora, é muito difícil ter controle absoluto sobre aquilo que você escreve.
Existem certas questões que simplesmente nos acompanham e voltam o tempo todo.
A questão da tradução e a experiência de viver entre diferentes línguas, por exemplo, são temas que sempre vão me acompanhar.
Fazem parte de quem eu sou e da minha vida desde a infância.
Por isso, mesmo que eu diga a mim mesma que não vou mais escrever sobre tradução, tenho certeza de que esse tema continuará aparecendo, de uma forma ou de outra, no meu trabalho.

Falando sobre viver entre diferentes línguas, culturas e nacionalidades… Como você se sente sob o segundo governo de Donald Trump?
Katie Kitamura: Eu me sinto muito mal.
Muito mal mesmo.
E acho que uma das coisas mais assustadoras foi a rapidez com que muitas instituições cederam, passando a cooperar de forma quase preventiva com o governo dele.
E estamos falando de instituições muito poderosas, com recursos enormes, como universidades e empresas de mídia.
Foi algo surpreendentemente rápido.
Isso aconteceu logo nos primeiros meses do segundo mandato.
De repente, vimos que as instituições não estavam dispostas a enfrentar o governo e preferiram cooperar com ele.
E isso foi muito, muito assustador.
Acho que os sinais da descida rumo ao autoritarismo nos Estados Unidos apareceram em uma velocidade incomum.
E não digo isso apenas com base em uma impressão pessoal.
Pesquisadores que estudam o autoritarismo também analisaram esse processo e concluíram que ele tem sido bastante acelerado.
Então, eu realmente não sei.
Tenho um amigo que trabalha com direitos eleitorais.
Ele é advogado e acredita que as eleições de meio de mandato não serão comprometidas.
Mas também diz que não sabe o que pode acontecer depois disso.
Portanto, não é um cenário nada animador.
Acho que precisamos chamar as coisas pelo que elas são: o que estamos vendo nos Estados Unidos é um crescimento do autoritarismo.
É isso que está acontecendo.
Definitivamente, não me sinto bem.
Esta Flip trouxe vários escritores cujas raízes se originam em países que vivem problemas com o autoritarismo ou conflitos bélicos, como Kamel Daoud, que relatou ser perseguido pelo governo argelino, e os ucranianos Andrei Kurkov e Maria Reva, que falaram sobre a guerra contra a Rússia.
Como você vê essa reunião aqui no Brasil?
Katie Kitamura: Acho que é uma honra imensa estar aqui, e também é extremamente inspirador, porque aqui conseguimos compreender o contexto mais amplo em que as obras são produzidas.
Como você mencionou, há muitas lições valiosas que todos nós podemos aprender, mas especialmente os escritores americanos que vivem hoje nos Estados Unidos.

Acredito que a maior parte do que eu leio seja ficção traduzida.
Por isso, sempre tive muita consciência de que existem inúmeras tradições literárias diferentes e de como essas tradições se cruzam com a história e a política.
Também me fascina a maneira muito viva como os romancistas, ao longo da história, usaram a forma do romance para escrever sobre realidades políticas e históricas.
Acho que isso acontece mesmo quando, à primeira vista, um livro não parece ser um romance político.
Ainda assim, é possível perceber como a ficção está realizando parte desse trabalho de refletir e elaborar essas questões.
Então, é maravilhoso estar em um lugar que celebra justamente isso.
A diversidade de vozes aqui é extraordinária, e é muito empolgante estar presente e ter a oportunidade de conhecer autores brasileiros.
Nos Estados Unidos, temos um índice de publicação de literatura traduzida tão baixo que é preocupante e constrangedor.
Acho que algo em torno de apenas 3% de todos os livros publicados no país são traduções para o inglês.
Isso torna bastante restrito o universo de obras ao qual temos acesso como leitores.
Espero que isso esteja mudando aos poucos, mas ainda é uma realidade.
E considero isso um problema, porque acaba criando uma literatura nacional um pouco fechada em si mesma.
Se não estamos lendo autores do mundo todo, estamos nos isolando.
E acho que, especialmente no momento atual, isso é muito perigoso.
Você tem algum autor brasileiro favorito?
Katie Kitamura: Além de Machado de Assis, tenho a resposta mais óbvia de todas, que é Clarice Lispector.
Eu sei que todo mundo fala dela.
Mas foi engraçado: eu estava na Colômbia e disse: "Será que é óbvio demais citar Gabriel García Márquez?".
E todos responderam: "Não, pode citar o Márquez sem problema."
Também li livros brasileiros mais recentes.
Gosto muito de Daniel Galera, acho que ele é um grande escritor.
Lembro ainda do ‘Pandora’, de Ana Paula Pacheco, um romance extremamente imaginativo, lindamente escrito.
É excelente.
Agora, gostaria de falar sobre cinema.
‘Audição’ trouxe uma sensação parecida com a que tive assistindo ‘Cidade dos sonhos’, de David Lynch.
Depois, descobri que foi uma das suas inspirações.

Katie Kitamura: Sim, foi! Quase sempre, quando estou escrevendo, meus principais pontos de referência são outros romances.
No caso deste livro, porém, foram filmes.
Em especial, filmes que transitam entre diferentes realidades sem oferecer uma explicação excessivamente organizada ou definitiva.

‘Cidade dos sonhos’ foi uma influência enorme nesse sentido.
Além disso, o filme também tem esse elemento da performance e dos atores, é claro.
Ainda me lembro da primeira vez que vi no cinema.
Na época, eu nem sabia que era possível contar uma história daquela maneira, porque David Lynch não lhe dá tempo para pensar nesses termos.
Ele captura o espectador e o envolve de forma tão completa e poderosa naquele universo que você simplesmente acompanha a lógica da narrativa e da construção daquele mundo sem questionar.
Outro filme de Lynch que foi muito importante para 'Audição' é ‘A estrada perdida’, cuja estrutura alterna de maneira muito precisa entre duas realidades diferentes.
As relações, os desejos e até alguns dos atores permanecem os mesmos, mas tudo muda muito rapidamente.
‘Persona’, de Ingmar Bergman, também foi uma influência evidente.
E há ainda uma referência talvez menos conhecida, sobre a qual vivi uma experiência muito curiosa.
Sou apaixonada pelo trabalho do cineasta tailandês Apichatpong Weerasethakul.
Acho que seu filme mais conhecido é ‘Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas’.
Ele costuma introduzir uma espécie de ruptura no meio de seus filmes.
Acompanho a obra dele há cerca de 25 anos.
Há dois filmes, ‘Eternamente Sua’ e ‘Mal dos Trópicos’, que são divididos ao meio, e durante muito tempo achei que fossem minhas principais referências enquanto escrevia este livro.
Mas, recentemente, revi um filme mais antigo dele chamado ‘Síndromes e um Século’.
Ele foi lançado há cerca de vinte anos, eu o tinha visto no cinema na época e nunca mais o havia revisto.
E percebi que a estrutura desse filme é quase exatamente a mesma do meu livro.
Acho que alguma parte do meu subconsciente havia absorvido essa estrutura.
Minha mente consciente a tinha esquecido, mas o subconsciente a preservou quase intacta e acabou reproduzindo-a em forma de ficção.
Pode nos contar algo sobre os novos livros que está escrevendo?
Katie Kitamura: Estou tentando decidir entre dois projetos, o que é incomum para mim.
Mas, sem dúvida, estou trabalhando em duas coisas ao mesmo tempo, e são bem diferentes entre si.
Acho que um dos livros é sobre amizade feminina e meia-idade.
O outro é um livro de não ficção sobre o cinema japonês no período pós-guerra.
Um deles exige muito mais pesquisa; o outro, menos.
Então vamos ver qual será escrito primeiro.
Gosto muito das etapas iniciais da escrita porque as possibilidades parecem quase ilimitadas e o livro ainda pode se transformar em qualquer coisa.
E acho que uma das razões de estar gostando de trabalhar com duas possibilidades ao mesmo tempo é justamente porque não quero chegar tão rápido ao fim desse processo.

*A repórter viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026.