O culto aos Orixás, que no Brasil se desenvolveu em diferentes tradições de Candomblé, teve nas mulheres africanas e afro-brasileiras algumas de suas principais guardiãs.
Foram elas que, em diferentes comunidades, contribuíram decisivamente para preservar e transmitir um legado religioso de raízes africanas em nosso país.
Além de manterem as línguas e os saberes de diferentes grupos e tradições, essas mulheres preservaram fundamentos, ensinamentos, cantigas, rezas, ritos, histórias e diferentes modos de compreender e vivenciar o sagrado.
Seus conhecimentos atravessaram gerações e ajudaram a manter vivo um patrimônio religioso e cultural que continua fazendo parte da identidade de milhares de brasileiros.
Entre outras grandes guardiãs dos saberes ancestrais, Ìyá Nàsó Oká e Ìyá Akálá são referências fundamentais na história da formação de importantes comunidades de Candomblé no Brasil.
A trajetória dessas mulheres se soma à de tantas outras sacerdotisas que, ao longo das gerações, dedicaram suas vidas ao culto dos Orixás, Voduns e Inkices, construindo uma história marcada pela resistência, pela fé e pelo compromisso com a ancestralidade.
Celebrando as matriarcas
É justamente para resguardar e celebrar essa força feminina que o Legado Cultural Africano promoverá uma grande homenagem às matriarcas do Candomblé.
Será um encontro de fé, sabedoria, memória e, sobretudo, de amor por aquelas que continuam guardando conhecimentos ancestrais e transmitindo às novas gerações aquilo que receberam dos mais velhos.
O evento reunirá 16 grandes matriarcas em um só lugar, celebrando a riqueza, a resistência e a força da nossa ancestralidade.
Mais do que homenagear trajetórias individuais, a iniciativa coloca em evidência o papel fundamental das mulheres na preservação das tradições religiosas de matriz africana.
Axés e diferentes tradições no mesmo espaço
O evento reúne tradições religiosas distintas em uma celebração única, exaltando saberes sagrados e o axé das Nações de Candomblé Angola, Jeje e Ketu, além da Umbanda.
A proposta é criar um espaço de encontro, respeito e valorização da diversidade existente entre tradições que têm na ancestralidade africana uma de suas importantes referências.
Mais do que um evento, a iniciativa pretende proporcionar uma oportunidade para honrar mulheres que preservam histórias, ouvir vozes carregadas de vivência e fortalecer os laços de respeito e comunhão entre diferentes vertentes das religiões afro-brasileiras.
Será uma verdadeira imersão na cultura, na memória e no amor que sustentam o nosso povo.
Um encontro de gerações
A ancestralidade vive na palavra dos mais velhos, nos ensinamentos transmitidos de geração em geração, nos cânticos, nos ritos, nas folhas, nos fundamentos e na maneira como cada Terreiro mantém viva sua relação com o sagrado.
Por isso, homenagear uma matriarca é muito mais do que reconhecer uma trajetória individual.
É reverenciar tudo aquilo que ela representa e reconhecer uma história que resistiu ao tempo, às dificuldades e às inúmeras formas de intolerância que atingiram as religiões de matriz africana.
Por trás de muitos Terreiros que hoje existem, há mulheres que trabalharam, ensinaram, cuidaram, enfrentaram dificuldades e protegeram seus conhecimentos para que o axé chegasse às gerações seguintes.
São histórias que precisam ser conhecidas, respeitadas e preservadas, porque fazem parte da memória religiosa e cultural do Brasil.
As 16 homenageadas
Com o tema “Matriarcal — A Força da Ancestralidade”, a 7ª edição do Legado Cultural Africano homenageará 16 sacerdotisas que representam diferentes experiências, tradições e caminhos dentro das religiões de matriz africana.
São elas: Ìyálórìṣà Edelzuita de Òṣàgiyán, Ìyálórìṣà Ọbagànjù, Mejitó Helena de Ɗǎɲ, Ìyálórìṣà Rosa de Yemọja, Ẹkẹdi Mocinha, Ìyálórìṣà Torody, Ìyálórìṣà Ọbaderàn, Kalulomi, Ìyálórìṣà Maria de Ṣàngó, Seci Caxi, Ɠaǐaƙu Veranice, Ìyálórìṣà Rita de Ọ̀ya, Ɠaǐaƙu Suely de Aƶáɲsuɲ, Ɦùɲɠǎɲ Jacira de Aƶáɲsuɲ, Ìyálórìṣà Janaína de Ọ̀sanyìn e Mãe Inara de Yánsàn.
Cada uma carrega uma trajetória própria, construída a partir de sua vivência e de seus conhecimentos, mas todas estarão unidas pelo reconhecimento de uma força maior: a força da ancestralidade.
Ao reunir essas mulheres, o evento também reconhece a importância da transmissão do conhecimento entre gerações e da continuidade dos saberes sagrados.
Uma celebração da memória
O encontro promete ser um momento especial para celebrar aquelas que vieram antes e que continuam iluminando os caminhos daqueles que estão por vir.
Em tempos em que a memória das religiões de matriz africana ainda é tantas vezes negligenciada ou atacada, celebrar as nossas matriarcas também é um ato de afirmação cultural.
É reconhecer que a nossa história existe, que nossos saberes têm valor, que nossas mulheres têm voz e que a ancestralidade continua viva.
É compreender que preservar a memória dos mais velhos também significa garantir que as novas gerações possam conhecer as raízes que sustentam sua fé e sua identidade religiosa.
Quando e onde
A 7ª edição do Legado Cultural Africano será realizada no dia 13 de setembro, às 11 horas, na Rua Prado Júnior, 123, Bairro Santa Maria, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense.
O evento é produzido pelo Legado Cultural Africano, sob a liderança do Ɗoté Ivo Pontual, e coordenado pelo Vòɗʊ́ɲgáɲ Valter de Àƶírí.
A principal proposta do projeto é reunir diferentes tradições em torno da valorização da cultura e da ancestralidade africana.
Será uma oportunidade para celebrar mulheres que representam muito mais do que seus títulos religiosos.
São mulheres de axé, de memória e de resistência, que carregam consigo histórias que precisam ser ouvidas, respeitadas e preservadas.
Quando uma matriarca é homenageada, não é apenas uma mulher que recebe a reverência.
É toda uma ancestralidade que é lembrada e valorizada.
Bọ̀wọ̀ fún àwọn ìyá-àgbà ni láti mọyì ìgbàgbọ́ àwọn baba ńlá! (Venerar as matriarcas é reconhecer a fé dos ancestrais!)
Axé para todos!
Legado Cultural Africano homenageia a força das Matriarcas do Candomblé
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