Legado da Rio-2016: ex-judocas brasileiros se tornam treinadores após aposentadoria e já formam campeões - QTU Questões do Universo

Legado da Rio-2016: ex-judocas brasileiros se tornam treinadores após aposentadoria e já formam campeões

Fonte: Bandeira da fonte

É como um ciclo virtuoso: no judô, especialmente na última década, ex-atletas de sucesso têm se mantido nos tatames mesmo após a aposentadoria, mas para desempenhar uma nova função.
No papel de treinadores, eles passam adiante tudo o que aprenderam e já garantem bons resultados para jovens talentos da modalidade.
Dos 14 judocas que disputaram a Olimpíada do Rio, há dez anos, oito são técnicos atualmente e um lidera um projeto social voltado para a formação de atletas.
O objetivo é continuar fazendo girar a engrenagem da modalidade que mais rendeu medalhas olímpicas para o país até hoje, com 28 pódios desde Los Angeles-1984.
Maria Portela e Érika Miranda fazem parte dessa lista de ex-atletas que se tornaram treinadoras.
Com êxito imediato: no ano passado, as duas “produziram” duas campeãs mundiais em suas antigas categorias de peso: Clarisse Vallim (cadete até 70kg) e Nicole Marques (júnior até 52kg).
Portela é a treinadora da seleção brasileira cadete (sub-18), e Érika, que atualmente é técnica da seleção canadense júnior, estava à frente da equipe júnior do Brasil (sub-21) na ocasião.
— O judô é uma mãe e valoriza os seus.
Temos treinadores, gestores, fisioterapeutas e por aí vai.
É muito legal continuar na modalidade — celebra Érika.
Ontem, sob o comando de Portela, Clarisse voltou a vencer o Mundial Cadete, disputado em Guayaquil, no Equador, e, aos 15 anos, tornou-se bicampeã nos 70kg.
Ela também compete no júnior e está perto de confirmar sua vaga na seleção para o Mundial da categoria, em novembro, no Uzbequistão.
Maria Portela, ex-atleta que agora treina a seleção cadete do Brasil: levar o conhecimento adiante
Divulgação CBJ
No Mundial Cadete de 2026, o país obteve três medalhas: um ouro, uma prata e um bronze.
Já na edição de 2025, registrou sua melhor campanha histórica, com cinco pódios: além da conquista de Clarisse, levou outro ouro, uma prata e dois bronzes.
O mesmo ocorreu na última edição do Mundial Júnior: além do título de Nicole, o Brasil conquistou outros dois ouros e três bronzes.
Os feitos de Clarisse e Nicole fazem parte de uma campanha de 13 medalhas do judô brasileiro em Mundiais de todas as categorias na temporada 2025 (quatro ouros, três pratas e seis bronzes).
Clarisse Vallim em treino de judô na Gávea (Flamengo)
Foto: PaulaReis/Flamengo
Inspirações
Clarisse começou no judô aos 4 anos, após incentivo do pai e do avô, também judocas, no projeto social Samurais do Morro, na Zona Norte do Rio.
Hoje, representa o Flamengo e considera um privilégio contar com Portela na seleção:
— A Portela luta junto comigo.
Quando olho para ela, me passa confiança.
Ela viveu tudo isso, foi atleta olímpica na minha categoria.
É um privilégio, um alívio estar com uma treinadora que conhece tão bem o meio e a categoria — conta Clarisse.
Orgulhosa da pupila, Portela concorda que ambas têm sintonia.
Relembra o início dessa parceria e festeja o sucesso obtido no início da nova carreira:
— Lembro da nossa primeira conquista em 2025.
Era como se eu estivesse lutando junto mesmo.
Claro que tem o trabalho dos clubes, que é essencial.
Mas tem o dia D, a competição em si.
Eu já tinha passado por muitas situações semelhantes e tentei auxiliá-la da melhor maneira possível.
Criei estratégias para mim e pude utilizá-las novamente.
Acho que os judocas se sentem seguros.
Quando atleta, Portela já era chamada a comandar treinos, dar aquecimento e exercícios de mobilidade.
Sem perceber, já estava sendo preparada para o novo ofício.
Começou na Sogipa e logo chegou à seleção cadete.
Em 2024, primeiro ano como treinadora, foi convidada a integrar a comissão técnica do Brasil no Mundial Cadete como assistente.
E foi ela quem acompanhou Nycolly Carneiro (48kg) na disputa pelo bronze, vencida pela brasileira.
Ela revela que a transição de carreira “foi assustadora” e que teve muitas dúvidas.
Por isso, procurou se especializar, fez cursos, como o do Comitê Olímpico do Brasil, e um intercâmbio na Hungria.
Tentou reescrever a história, já que, quando era atleta no Centro Olímpico (SP), aos 19 anos, teve apenas um medalhista olímpico como técnico: Henrique Guimarães.
— Esse movimento é mais recente e já tem impacto no Brasil.
Hoje, o mercado internacional está mais aberto — explica Portela, que já teve convite para trabalhar na seleção do Chile, mas decidiu permanecer com a equipe brasileira e, no ano que vem, atuará com atletas do júnior.
— Acho que os judocas continuam no esporte por amor ao judô mesmo.
O difícil é não continuar no meio.
Quero, como treinadora, alcançar o que não consegui como atleta: chegar ao pódio olímpico.
E pelo Brasil.
Sucesso no exterior
Ao contrário de Portela, Érika não pensava em ser treinadora.
A ex-judoca se aposentou em 2018 e quis atuar na área de gestão esportiva.
Viajou ao Canadá para se preparar e, no meio do caminho, foi chamada para treinar a equipe principal de judô na Alemanha.
Érika Miranda, ex-judoca que agora é treinadora no Canadá: brasileiros têm oportunidade no exterior
Divulgação CBJ
— Me apaixonei — confessa Érika, que atuou no Centro Olímpico de Munique de 2021 a 2023.
— Desenvolvia as atletas e senti que podia contribuir.
Tive muito sucesso e aprendizado.
A ex-judoca conta que, diferentemente do que ocorre no Brasil, atletas no exterior treinam e estudam (ou treinam e trabalham).
Por isso, ao encerrarem as carreiras no tatame, seguem para áreas diversas de atuação.
— Há muita oportunidade para treinadores no exterior.
O judô praticado no Brasil é apreciado no mundo inteiro.
Na Europa, o judô é físico.
Na Ásia, técnico.
E o Brasil tem a mescla.
A gente se encaixa em qualquer lugar.
Sem contar que o povo brasileiro é aberto, sabe lidar com mudanças, tem criatividade e improviso.
E isso é único.
Apesar de focar na carreira internacional, Érika tem carinho especial pela fase em que esteve à frente da seleção júnior do Brasil.
Ela, que defendeu a seleção brasileira por mais de dez anos, foi a duas Olimpíadas e faturou cinco medalhas em Mundiais, conta que viu Nicole, campeã mundial júnior, nascer e treinou com o pai dela quando era pequena.
Nicole, de 18 anos, foi revelada na mesma academia da mentora, a Espaço Marques, no Distrito Federal.
— Vê-la campeã mundial foi muito lindo.
Ainda vamos escutar muito sobre a Nicole — diz Érika.
Nicole Marques e a treinadora Érika Miranda: parceria vencedora
Gabriela Sabau/IJF
Além de Portela e Érika, a equipe olímpica feminina da Rio-2016 foi formada por Sarah Menezes (48kg), Rafaela Silva (57kg), Mariana Silva (63kg), Mayra Aguiar (78kg) e Maria Suelen Altheman (+78kg).
Rafaela é a única que ainda compete, e Mariana Silva, a única que deixou a área: é advogada.
O time masculino contou com Felipe Kitadai (60kg), Charles Chibana (66kg), Alex Pombo (73kg), Victor Penalber (81kg), Tiago Camilo (90kg), Rafael Buzacarini (100kg) e Rafael Silva (+100kg).
Buzacarini ainda não se aposentou.
Dessa geração, assim como Portela e Érika, tornaram-se técnicos Maria Suelen (Pinheiros), Kitadai (seleção da Alemanha), Chibana (Israel), Pombo (Grêmio) e Penalber (também diretor técnico do Instituto Reação).
O judô foi uma das modalidades protagonistas do Brasil em Paris-2024.
O pódio mais emocionante foi o bronze da equipe mista, com Rafaela Silva, ouro na Rio-2016.
Cinco dias após perder a disputa pelo bronze no individual, ela se reinventou para fazer o ponto decisivo do torneio.
Na modalidade, o país obteve um ouro, com Beatriz Souza, e dois bronzes, com Larissa Pimenta e a equipe mista.
Sarah Menezes, técnica do sênior por quatro anos, até março de 2026, estava à frente do time feminino nesses Jogos.
É a primeira e única campeã olímpica como atleta e treinadora do judô brasileiro.
Além disso, todos os medalhistas do Brasil faziam parte, à época, do Pinheiros, onde Rafael Silva, o Baby, é supervisor técnico; Leandro Guilheiro, treinador-chefe; e Maria Suelen, técnica.
Eles são ex-atletas olímpicos recheados de títulos.