Luisa Arraes chegou ofegante e pedindo desculpas após se atrasar levemente para a entrevista marcada no escritório de sua assessoria, no bairro do Jardim Botânico, Zona Sul do Rio.
E a justificativa estava na ponta da língua: havia acabado de fazer duas sessões de aulas de violão como parte da preparação para “Cássia — O filme”, projeto de Diego Freitas em que interpretará a cantora Cássia Eller (1962-2001).
No mesmo dia, tinha um terceiro encontro com o professor de violão.
A aproximadamente dois meses do início das filmagens a atriz se dedica dia após dia para o papel, que tem lhe dado a oportunidade de aprender novas coisas.
E esta não foi a primeira vez.
Para interpretar Grace, protagonista de “Muito prazer”, nova comédia de Jorge Furtado que chega aos cinemas brasileiros amanhã, Luisa fez aulas de pole dance.
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Na trama, ela interpreta a ex-funcionária de um motel abandonado que passou a morar no local após a morte do dono.
Quando o herdeiro do espaço, Rubem (Daniel de Oliveira), aparece, ela se recusa a ir embora enquanto não receber o que lhe é devido.
Os dois acabam unidos na empreitada de reviver o motel e, ao lado de Nalva (Samantha Jones), criam um plano para salvar o empreendimento.
— Amo ter um trabalho que me faz aprender coisas.
Já tive que aprender italiano, dança, slackline, piano, futebol de praia e a dirigir caminhão para projetos.
Agora, para fazer a Grace, tive que estudar pole dance — diz a atriz.
— Ela é uma personagem muito fora da caixa, um pouco ingênua, um pouco inconsequente, um pouco nonsense.
Senti como se fosse a “Alice no país das maravilhas”.
Atriz, roteirista e diretora Luisa Arraes
Marina Calderon / Agência O Globo
‘É quase ir para a Disney’
A carioca de 33 anos já havia sido dirigida por Jorge Furtado em “Rasga coração” (2018) e tinha colaborado com ele em outros projetos, como “Grande sertão” (2023), escrito por ele e dirigido pelo pai da atriz, Guel Arraes.
Em “Muito prazer”, ela pela primeira vez protagoniza um longa do cineasta.
Luisa Arraes, Samantha Jones e Daniel de Oliveira em cena de "Muito prazer", de Jorge Furtado
Divulgação/Fabio Rebelo
— É muito incrível trabalhar com Jorge.
O bonito dele é que na arte de fazer cinema tudo importa.
Ele se preocupa muito com o ator, dá muita liberdade — conta Luisa, que descreve o projeto como um “‘Saneamento básico’ erótico”.
— Filmar com ele em Porto Alegre é quase como ir para a Disney.
Você acorda, almoça, janta e trabalha junto, e passa o tempo inteiro mergulhada no filme de um jeito muito divertido.
Ao mesmo tempo em que promove o lançamento da comédia de Furtado, Luisa se prepara para encarnar Cássia Eller, um dos maiores desafios de sua vida.
— É um trabalho de formiguinha bem minucioso, com preparação de violão, voz, corpo, assistir a muitos materiais, tentar imitar, mas evitando que seja algo duro.
É muito diferente de tudo o que já fiz.
Fazer a biografia de alguém que existiu é o maior desafio na vida de um ator — diz a atriz, que passou por vários testes antes de ser anunciada como Cássia.
— Foram três meses de testes, senti que estava fazendo um concurso para juíza.
Luisa tinha apenas 8 anos quando Cássia morreu, vítima de parada cardíaca aos 39 anos, em 2001, mas guarda na memória a obra da artista.
— Cássia representa uma coisa muito forte para mim.
Ela morreu quando meus pais estavam se separando e lembro que minha mãe (a atriz Virgínia Cavendish) ouvia o “Acústico MTV” em looping.
Lembro de nós duas sozinhas em um apartamento, com colchão no chão, e vi muito minha mãe como esta mulher independente tentando recomeçar a vida.
E aquele disco representava isso para mim — diz a jovem, que se diverte ao lembrar uma conversa com a mãe sobre isso.
— Outro dia fui falar para ela: “Mãe, não é bonito que a Cássia representava aquela mulher que você queria ser, essa artista independente.” E ela respondeu: “Luisa, eu não pensava nada disso, só estava me separando e achava a música bonita.
Isso é uma interpretação sua.”
Luisa Arraes caracterizada como Cassia Eller
Divulgação
Após o anúncio como Cássia, Luisa foi alvo de críticas por já ser uma artista conhecida e filha de nomes consagrados.
— Esta foi a primeira vez que fui chamada de nepobaby, porque quando eu comecei a trabalhar, aos 16 anos, este termo não existia.
No começo da carreira, não conseguia aproveitar muito, sentia que precisava provar 20 vezes mais que merecia estar ali.
Mas já vou fazer 17 anos de carreira, essas coisas já não me abalam tanto.
Se fosse chamada de nepobaby aos 16 anos, eu com certeza ficaria chateada — diz a atriz.
— Claro que entendo o lugar de privilégio que eu nasci e que aprendi muito com meu pai e minha mãe, mas outro dia vi uma matéria sobre as nepobabys do Brasil e citavam Fernanda Torres e Débora Bloch.
Se elas são chamadas de nepobay, então tudo bem.
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Além da relação com os pais, o nome de Luisa foi questionado em razão do relacionamento com o cantor e compositor Chico Chico, com quem vive um romance de idas e vindas desde 2024.
— Essa repercussão me deixou um pouco triste: não passei porque tenho uma história e me dediquei por três meses de testes, passei porque sou filha do meu pai e porque namorei o filho da Cássia.
Como diz o Caetano, “todo mundo quer saber com quem você se deita”, mas isso não é relevante em nenhuma outra profissão e não deveria importar também na atuação — diz.
Estreia na direção de longas
Após o trabalho em “Muito prazer”, Luisa Arraes já tem novo projeto com a Casa de Cinema de Porto Alegre, produtora de Jorge Furtado, Nora Goulart, casada com o diretor, Ana Luiza Azevedo e Giba Assis Brasil.
E trata-se de um filme muito especial para a artista: sua estreia na direção de longas.
— Vou dirigir um filme que se chama “Dias de fúrias”, que vai acompanhar cinco dias de fúria na vida de cinco mulheres de idades diferentes.
Começa com uma bebê de 3 meses e depois temos mulheres de 15, 25, 35 e 45 anos — conta Luisa, que não deve atuar na produção.
— Há três anos eu escrevi e dirigi o curta “Dependências”, que venceu o Festival do Rio e viajou o mundo.
Eu achava que nunca iria dirigir um filme, mas depois dessa experiência eu fiquei louca e me apaixonei pela direção.
Acho que foi a maior droga que já tomei na vida.
O processo da direção é um pouco mais gentil, você tem mais tempo de preparo, de estudo.
Luisa Arraes lança a comédia "Muito prazer", de Jorge Furtado
Marina Calderon / Agência O Globo
Apesar de “contaminada” pela direção, Luisa explica que nunca abrirá mão da atuação e da escrita.
Nos últimos dois meses, a atriz esteve em cartaz no Rio de Janeiro com a peça “O beijo no asfalto”, nova montagem do clássico de Nelson Rodrigues idealizada por Rafael Raposo, com direção de Marco André Nunes.
Na produção, a atriz contracenou com Edson Celulari, Eduardo Sterblitch, André Mattos, Ernani Moraes e Nina Tomsic.
— Nunca fiquei um ano sem fazer teatro, mas não me lembro de ter sido tão feliz no palco como nesta peça.
Acho que estou mais madura para poder me divertir.
Foi uma alegria muito grande ver o teatro lotado, com filas na bilheteria desde as 8 horas da manhã — diz a atriz.
— Nunca tinha feito Nelson e só agora eu entendi como ele é genial.
Ele fez este texto há 60 anos, falando do erótico dentro da família, falando de um homem que beija outro na rua, falando do sensacionalismo.
Não adaptamos uma vírgula.
É uma dramaturgia impecável, nenhuma cena fora do lugar, fiquei fascinada por ele e agora quero fazer tudo.
A atriz entende que a temporada curta e o fato da montagem ter sido apresentada em um teatro pequeno (o Teatro Gláucio Gil, em Copacabana) fez com que muitas pessoas não conseguissem assistir à obra.
— Queremos muito voltar com a peça.
Só não sabemos quando e onde porque as agendas são uma loucura.
Mas a gente quer voltar e circular com a peça por um bom tempo — conta.
— O teatro tem essa coisa de juntar uma turma e tentar fazer, às vezes mesmo sem dinheiro, é muito bonito.
O teatro para mim é um deleite.
Edson Celulari, Luisa Arraes e Eduardo Sterblich como Aprígio, Selminha e Arandir de "O beijo no asfalto"
Divulgação/Lucio Luna
Durante a montagem da peça, a atriz recebeu a visita e a benção de Fernanda Montenegro, atriz de 96 anos que deu vida a Selminha, personagem de Luisa na peça, na versão original de 1961, dirigida e produzida por Fernando Torres.
Por sinal, Nelson escreveu a obra a pedido da veterana.
— Foi uma glória.
Se estivéssemos na Inglaterra, seria Dama Fernanda Montenegro.
Ela entra no teatro, e todo mundo da coxia já fica com vontade de aplaudir.
Foi o encontro de tanta coisa bonita ali.
Essa peça existe por causa dela.
Ela é uma atriz que inspira a todas nós que queremos trilhar nossas carreiras com as próprias mãos — diz Luisa, que lembra de trabalhar ao lado de Fernanda na novela “Babilônia” (2015), de Gilberto Braga.
— Ela é muito fofa e gentil com suas colegas.
Era minha primeira novela, dividíamos o camarim, eu me lembro de todos os dias com ela.
'Coitada da minha analista'
Repleta de projetos, Luisa fala sobre o momento workaholic.
— Terminei a peça, vou fazer “Cássia” e estou muito animada para dirigir meu filme.
Não lembro a última vez que tive um dia de folga.
Diria que psiquicamente não é recomendado para ninguém, coitada da minha analista.
Mas, quando tiro férias, eu quero morrer — diz a atriz.
— Se me perguntam na folga, quer ir para a praia ou ao teatro? E eu respondo, para o teatro.
(Lucas Salgado)
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