Tendo a soberania digital como uma prioridade de um eventual novo mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou nesta quinta-feira (20), no Rio Grande do Norte, um pacote de R$ 2,3 bilhões para a compra de um supercomputador e uma nova infraestrutura de supercomputação que envolve também transferência de tecnologia, desenvolvimento de Inteligência Artificial (IA) em português e formação de pessoal.
Também fazem parte do pacote a instalação do Centro Nacional de Transparência Algorítmica e IA Confiável e um acordo de cooperação técnica para a estruturação da nuvem brasileira a ser utilizada por governos, pesquisadores e empresas.
A americana Nvidia é apontada nos bastidores por fontes do governo federal como a mais forte participante na concorrência que será aberta para a compra do supercomputador.
Segundo fontes, a máquina estará entre as 10 maiores do mundo em capacidade processamento de IA, podendo realizar 7,2 quintilhões de cálculos por segundo.
O equipamento, cujo valor é estimado em R$ 1 bilhão, será instalado no parque tecnológico da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
O local foi escolhido por causa do potencial de fornecimento de energia.
Já a infraestrutura de supercomputação, a ser instalada no Rio de Janeiro, será uma parceria envolvendo a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) e as chinesas Huawei e iFlytek.
Essa parceria deverá ampliar a capacidade de processamento disponível no país, a transferência de tecnologia, parcerias de pesquisa e o desenvolvimento de uma pilha de software (conjunto de programas, linguagens, bancos de dados e ferramentas que trabalham juntas para criar e executar uma aplicação) soberana.
Além disso, 3 mil profissionais brasileiros serão capacitados no prazo de cinco anos.
O investimento no supercomputador e a nuvem brasileira foram antecipados pelo Valor em 19 de junho.
Fonte do governo informou nesta semana que os R$ 2,3 bilhões são apenas uma cifra inicial, pois há mais etapas planejadas.
A previsão é que o supercomputador esteja operando no final de 2027 e a nova estrutura de processamento, em meados do mesmo ano.
Com esse investimento, governos e empresas poderão treinar suas IAs no Brasil.
Hoje, esse serviço precisa ser contratado no exterior.
A governança dessa nova estrutura ainda será formulada.
Já a nuvem brasileira permitirá que o armazenamento e o processamento de dados sejam realizados em território nacional.
Isso já ocorre com dados do governo federal, mas a ideia é que também dados de empresas e centros de pesquisa fiquem por aqui.
Como isso será feito, inclusive no que se refere a custos, é algo que ainda vai ser discutido.
Um acordo de cooperação entre o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), a estatal de processamento de dados Serpro, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) iniciará a estruturação desse projeto.
A definição do modelo será feita após ouvir o setor privado.
A previsão é que ocorra até o final deste ano.
Nesse processo, o poder de compra do Estado deverá ser usado para criar escala a fornecedores brasileiros e estimular o desenvolvimento de ferramentas no país, para atender aos setores público e privado.
O Centro Nacional de Transparência Algorítmica e IA Confiável será instalado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde já funciona um centro de pesquisa aplicada em IA.
A ideia é avaliar como os sistemas funcionam, identificar riscos e tornar seus resultados mais transparentes e rastreáveis.
O centro poderá desenvolver ferramentas de identificação de vieses, por exemplo.
Técnicos dizem que o trabalho desse centro poderá apoiar o cumprimento de pontos da chamada versão digital do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que trata da proteção desse público na internet.
Outra potencialidade é aumentar a segurança de empresas que adotam IA, ao analisar "o que de fato tem ali".
Além desses pontos, será anunciada uma estratégia de mais longo prazo para aumentar a capacidade do Brasil em desenvolver chips e reduzir a dependência de tecnologia desenvolvida em outros países.
Será baseada numa tecnologia aberta e não proprietária chamada RISC-V, em parceria com um ecossistema de inovação com sede em Barcelona (Espanha).
Do lado brasileiro, estão Instituto Eldorado e Universidade de Campinas (Unicamp).
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