O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) diz que tem certeza que seu filho, Fábio Luís da Silva, o Lulinha, é inocente em relação a suspeitas de tráfico de influência, mas que, se ele for culpado, "pagará", em entrevista nesta quinta-feira (27).
"Não tem nenhuma acusação, são ilações tiradas de telefonemas, eu conheço isso muito bem porque já vivi isso", disse Lula, à TV Globo.
"Eu sou presidente da República e pai do Fábio, se o Fábio cometeu qualquer ilícito, ele vai pagar."
Lula diz que dívida pública não é motivo de preocupação
As declarações ocorreram em entrevista à TV Globo na quinta-feira (27), após o Jornal Nacional.
Lula é o quarto entrevistado da série promovida pela emissora.
Na quarta-feira (26), o convidado foi Renan Santos (Missão), na terça-feira (25), Ronaldo Caiado (PSD), e, na segunda-feira (24), Romeu Zema (Novo).
Lula comparou o caso à Operação Lava-Jato, pela qual chegou a ser condenado e preso.
"Fiquei 580 dias na cadeia porque só eu sabia a verdade.
Com meu filho vai acontecer a mesma coisa, só ele sabe a verdade, mas, se for culpado, pagará.
Ele sabe o que eu passei.
Ele sabe que a Marisa [Letícia, ex-primeira-dama] morreu por causa da acusação da Lava Jato, por isso ele tem obrigação de não ter feito."
Lula afirmou que todas as denúncias têm de ser investigadas, em uma contraposição velada à postura de Bolsonaro quando Flávio foi alvo de investigações por conta das “rachadinhas”.
No fim de julho, o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou a abertura de dois inquéritos relacionados a Lulinha.
Um deles apura a suposta atuação de Lulinha para obter contrato de fornecimento de cannabis medicinal com o Ministério da Saúde.
A Polícia Federal (PF) quer saber se ele atuou em favor de uma empresa ligada ao empresário Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, investigado por suspeita de envolvimento com o esquema na Previdência.
O negócio com a pasta, contudo, não foi para a frente.
Em agosto, Flávio Dino autorizou a abertura de um terceiro inquérito também envolvendo Lulinha.
Nos inquéritos aparece também a empresária Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha.
Ela é apontada pela PF como lobista e teria atuado para fechar contratos com o Ministério da Saúde.
Nas últimas semanas, reportagens revelaram trocas de mensagem em que ela sugere ter proximidade com Lulinha.
Foram encontradas também conversas com Marco Aurélio Santana Ribeiro, chefe de gabinete de Lula até julho deste ano, em que falaram sobre reunião com integrantes do Ministério da Saúde, em 2023.
O material ainda está sob sigilo.
Durante a entrevista, Lula afirmou que não conhece a empresária, mas disse ser "errada" a relação entre ela e seu ex-chefe de gabinete.
"Não é adequada, é errada relação de Marcola com Luchsinger", admitiu o presidente.
"Marcola era uma pessoa de minha total confiança, mas se cometeu erro, pagará", ponderou.
Pessoas próximas ao Planalto afirmam que o presidente ficou surpreso quando o envolvimento do então chefe de gabinete foi divulgado.
"O fato de ter pego as conversas no telefone não justifica absolutamente nada.
Até agora não existe nenhuma prova de nenhum centavo público", disse o presidente sobre o envolvimento de Lulinha.
"E eu tenho certeza que não fez.
Só digo uma coisa: meu filho vai ser investigado."
Defesa a Jaques Wagner
O presidente também defendeu o senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do governo no Senado, investigado no caso Master.
Em junho, o ex-líder do governo no Senado foi alvo de mandados de busca e apreensão na 9ª fase da Operação Compliance Zero.
"Não está provado que o Wagner tem relação com Master.
Ele tem relação com o Augusto Lima, que na época não estava no Master", disse Lula.
Segundo a Polícia Federal, "a relação mantida entre Augusto Ferreira Lima e Jaques Wagner mostra-se marcada por manifestações de afeto e proximidade pessoal e familiar, além do envio de ‘lembranças’ de final de ano, inseridas em contexto de presentes a autoridades do Estado da Bahia."
Lula relembrou a relação de amizade com o senador e disse confiar nele.
"Jaques é um homem que tem relação comigo há 45 anos, não posso colocar em dúvida a relação.
Tenho consciência de que Jaques é honesto", disse o presidente.
Fila do INSS
O presidente afirmou que a atual fila do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) "voltou ao normal" e que está com 251 mil pessoas.
O Valor mostrou que a fila de espera do INSS atingiu o menor patamar de todo o terceiro governo Lula, mas em um patamar diferente do apontado.
Há 1,282 milhão de requerimentos aguardando análise, de acordo com dados divulgados até segunda-feira (24).
Em fevereiro deste ano, a fila atingiu o patamar recorde de 3,128 milhões de pedidos aguardando resposta.
Da fila atual, há 660 mil requerimentos aguardando análise dentro do prazo legal de 45 dias e 261 mil estão fora desse prazo.
Outros 362 mil pedidos dependem de alguma ação do segurado para dar prosseguimento.
O índice de concessão em 2026 também é recorde, segundo dados do Ministério da Previdência Social e do INSS.
De janeiro a julho deste ano, o INSS concedeu, em média, 730 mil benefícios por mês, um aumento de 67% em relação ao mesmo período de 2022, último ano da gestão de Jair Bolsonaro — quando foram concedidos 438 mil benefícios, em média.
