Em busca de seu quarto mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou da convenção nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) na manhã deste domingo (2), em São Paulo, evento que confirmou sua candidatura à reeleição.
Durante um longo discurso, o presidente exaltou o vice Geraldo Alckmin e o ex-ministro Fernando Haddad, candidato ao governo de São Paulo, acenou ao eleitorado feminino e aos idosos e defendeu a soberania nacional.
O presidente abriu seu discurso com uma autocrítica e reclamou sobre a falta de mulheres na programação do evento.
De improviso, o petista convocou a primeira-dama Janja da Silva pra fazer um discurso antes dele:
— Nós, mulheres, que fazemos marmita para nosso maridos, limpamos a casa, chegamos em casa às dez horas da noite, vamos te eleger — disse Janja.
Antes da abertura oficial do evento, Marina Silva, Simone Tebet e Benedita da Silva participaram de entrevistas transmitidas ao vivo.
Nos discursos oficias, contudo, não havia mulheres escaladas.
Antes de Lula discursaram o presidente do PT, Edinho Silva; o candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad (PT), e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB).
Lula afirmou que está indo para a “sétima Copa do Mundo”, em referência ao número de eleições presidenciais disputadas desde 1989, e será tetra, otimista com a conquista do quarto mandato.
— Todo mundo sabe que somos a única candidatura que não tem que contar uma mentira, uma inverdade nessa campanha.
Não temos que inventar nada a dizer pro povo.
Quem fez, pode prometer mais.
Quem não fez, não tem o que prometer — discursou o petista.
Fez elogios a Alckmin, ao dizer que ele foi o melhor ministro da Indústria e Comércio que poderia ter.
E que tem “muita gente sabida da Faria Lima” dando sugestões na pasta, mas sem ter aplicação prática.
— Essa competência fez você ser meu vice outra vez.
Além da sua competência, a sua lealdade e o seu companheirismo.
O petista exaltou o alcance do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) ao alegar que “99%” das prefeituras foram contempladas com alguma obra e que o governo tem “autoridade em cada cidade e estado para defender com orgulho aquilo que fizemos”.
— Lógico que não dá para fazer tudo, mas a gente vai caminhando.
Deus demorou sete dias para criar o mundo e ainda não acabou — disse.
Em outro aceno às mulheres, dedicou parte da fala a políticas de combate à violência de gênero, ao dizer que se o eleitor “bater na mulher, não precisa votar em mim” e que “não existe contrato que permita ser dono” em relacionamentos afetivos, incentivando as vítimas a denunciarem seus agressores.
Lula lembrou do pedido de voto feito neste sábado (1º), em evento na Bahia, admitindo que pode ser multado pelo episódio diante das regras eleitorais que vedam campanha antecipada antes do dia 16 de agosto.
— Não fiquem preocupados com pesquisa.
A guerra não começou, o campeonato não começou.
Ela começa agora.
Não posso falar que eu sou candidato — reclamou o petista, que planeja evento no ABC paulista como partida da campanha.
— Tem um monte de gente que não é bolsonarista e que precisamos convencer.
Perto de terminar o discurso, Lula reclamou das indicações parlamentares dentro do orçamento público e do fundo partidário, enquanto parte do público deixava o espaço.
Pediu para os candidatos de esquerda serem eleitos em outubro, porque pretende fazer “briga democrática” dentro do Congresso em um eventual quarto mandato.
Elencou, também, uma série de compromissos caso seja reeleito, incluindo um programa voltado para o cuidado de idosos e investimentos na indústria da defesa, “para ninguém invadir esse país e levar o presidente” — ele não citou diretamente Nicolás Maduro, na Venezuela, que foi preso em uma operação dos Estados Unidos.
Discursos de aliados
Primeiro a discursar na convenção, Edinho Silva, presidente nacional do PT, defendeu que o país precisará "fazer uma escolha" nas urnas entre a "pequenez política", representada por Flávio, e um "grande líder" da democracia no mundo, que seria Lula.
— O Brasil do presidente Lula vai enfrentar o intervencionismo, o autoritarismo e defender a soberania do povo — disse.
O ex-ministro Fernando Haddad, candidato ao governo de São Paulo, focou sua fala na disputa nacional e afirmou que o país precisa de um “marujo confiável”.
— Não é exagero dizer que o mundo está muito turbulento, o mar está revolto.
Hoje você tem guerras, você tem a ascensão da extrema direita, que ocupou espaço depois da crise de 2008, que ocupa cada vez mais espaço, sobretudo na Europa, nos Estados Unidos, e agora na América Latina.
No momento como esse, de mar revolto, você precisa de um marujo confiável, experiente, e uma pessoa que sabe manejar o barco, manejar o navio, que sabe acionar os instrumentos necessários para proteger o Brasil — disse.
Haddad também manteve o tom de “nós contra eles” presente em toda a campanha e voltou a criticar a gestão Bolsonaro.
— O presidente Lula sucedeu um presidente que desorganizou o país em todos os sentidos.
Desorganizou o fundo, desorganizou as finanças, desorganizou a educação, a ciência e tecnologia, assistência — disse.
Apesar de não comentar sobre a disputa em São Paulo, onde vai enfrentar o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), a própria militância fez questão de destacar, com hinos e palavras de ordem, o eventual embate.
“Ele é de luta, é professor, Fernando Haddad governador”, cantaram os presentes.
Haddad relembrou a trajetória de Lula — das “entranhas” do país, em Garanhuns, até São Paulo, onde se estabeleceu.
Disse que o presidente nunca traiu seus princípios de vida desde que assumiu, em seu primeiro discurso no ABC, na Grande São Paulo.
E reforçou a parceria com Geraldo Alckmin, que segundo ele devolveu ao povo brasileiro o dinheiro que o ex-presidente Jair Bolsonaro “surrupiou”.
— Essa dupla [Lula e Aclkmin] recolocou no orçamento da saúde 100 bilhões que o Bolsonaro surrupiou.
Colocou no orçamento da educação outros 100 bilhões que o Bolsonaro surrupiou.
Fez o Brasil crescer o dobro do que vinha crescendo, com inflação controlada.
Fez ajuste, mas não fez ajuste no lombo do trabalhador — apontou.
Em uma única referência a Tarcísio, Haddad pontuou que o país não vai “baixar a cabeça” e “botar o boné” de outros presidentes.
Ao apoiar a eleição de Donald Trump, no ano passado, Tarcísio usou o adereço com a frase “ Make América Great Again", slogan do americano.
— O Brasil está sendo reconstruído e vai continuar seguindo em frente.
De cabeça erguida, sem baixar a cabeça para presidente de nenhum outro país.
Sem botar boné presidente de nenhum outro país, defendendo os interesses nacionais.
Independentemente do teor das ameaças que sejam feitas”.
O vice Geraldo Alckmin comparou o governo Lula com o anterior, criticando a "campanha negacionista contra as vacinas" na pandemia de covid-19 por parte do ex-presidente Jair Bolsonaro e a "depredação do meio ambiente" ocorrida durante o mandato do adversário político.
— Estivemos aqui, há quatro anos, para salvar a democracia, que estava em risco.
Se os nossos adversários, perdendo as eleições, tentaram um golpe de estado e tinham como projeto matar aqueles que foram eleitos pelo povo, imaginem se tivessem ganhado as eleições.
Aliás, quem não acredita no voto popular nem deveria ser candidato a presidente — afirmou o vice-presidente.
Alckmin declarou ainda que o descrédito nas urnas demonstrado por Flávio numa reunião com diplomatas é "cheiro de derrota".
— A urna eletrônica é tão competente que não aceita voto de argentino e americano — ironizou.
O vice lembrou, de forma bem-humorada, do apelido "picolé de chuchu", criado pelo jornalista José Simão para descrever o seu estilo discreto.
— É um hit nas paradas de sucesso.
Lula com chuchu, vamos presidente! — brincou.
Durante a convenção, o PT fez entrevistas com aliados políticos antes da abertura oficial, de forma a tornar o evento "mais dinâmico".
Uma das críticas internas feitas à organização do ato do PL foi o de que o auditório estava esvaziado durante o discurso de Flávio, com algumas caravanas de partida ao interior.
Na prévia da propaganda eleitoral exibida, o governo Lula é apresentado como uma gestão de "entregas", citando programas como Pé-de-Meia e a isenção de IR para quem ganha até R$ 5 mil -- mas a "maioria do povo nem sabe o que foi feito", segundo dito numa das apostas de conteúdo, em formato de rap.
A convenção ocorre em um dos pavilhões do Expocenter Norte, na capital paulista.
Com o maior colégio eleitoral do país, o estado de São Paulo é o principal foco do presidente nesta corrida eleitoral.
Democracia e soberania
Com Flávio Bolsonaro (PL), principal rival de Lula, estagnado nas pesquisas, a campanha do petista investe no binômio democracia e soberania.
As palavras são vistas em camisetas, bonés e faixas levadas por militantes ao evento do PT.
O mote da democracia é explorado diante da condenação do ex-presidente Jair Bolosnaro por tentativa de golpe de Estado.
Nas redes de apoiadores petistas, Flávio, apelidado de Bolsonarinho, é associado ao extremismo.
O questionamento recente do candidato às urnas eletrônicas impulsionou o discurso.
Já o tarifaço aplicado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, às exportações brasileiras ofereceu ao petista um discurso nacionalista e de recusa a interferências estrangeiras.
Ampliado ainda com a participação de Javier Milei, presidente argentino ultraliberal, na convenção de Flávio.
Rejeição alta
A campanha petista está otimista neste momento da disputa, uma vez que Flávio não conseguiu fechar alianças com importante partidos do Centrão — a federação União-PP anunciou neutralidade na corrida nacional — e tem vivido reveses na comunicação da campanha, sem conseguir acertar o tom.
Lula, no entanto, precisa enfrentar um cenário de rejeição.
Pesquisa Datafolha divulgada no último dia 24 mostrou que 46% dos entrevistados não votariam no petista de jeito nenhum.
Os números, contudo, são ruins para o bolsonarista também: 48% se posicionaram da mesma forma em relação a Flávio.
O levantamento apontou que o presidente Lula tem 40% das intenções de voto no cenário de 1º turno, oito pontos à frente do senador Flávio Bolsonaro, com 32%.
No levantamento anterior, divulgado em 20 de junho, o presidente tinha 41% e o senador, 31%.
Os números mostram um cenário de estabilidade.
Além de PT, PCdoB e PV, que integram a Federação Brasil da Esperança, PSOL, Rede, PSB e PDT vão compor a base de apoio à corrida de Lula pelo quarto mandato.
Assim como em 2022, a chapa terá Geraldo Alckmin como candidato a vice.
O nome foi oficializado em convenção do PSB realizada em Brasília na última quarta-feira.
