'Lula lá, Ciro cá': aliados do candidato do PSDB ao governo do Ceará defendem 'voto casado' com o presidente no estado

Fonte: Bandeira da fonte

Aliados de Ciro Gomes (PSDB) adotaram como estratégia na corrida pelo governo do Ceará a defesa de um voto casado no tucano e no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), principal cabo eleitoral do estado.
O petista, por sua vez, tem o governador Elmano de Freitas (PT), que tenta a reeleição, como candidato.
Ele aparece atrás de Ciro nas pesquisas de intenção de voto.
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O ex-prefeito de Sobral Ivo Gomes é um dos que defende publicamente o voto casado.
Nas redes sociais, o irmão de Ciro e do senador Cid Gomes (PSB), que integra a chapa de Elmano, publicou uma imagem gerada por Inteligência Artificial (IA) que simula um aperto de mão entre o tucano e o presidente: “Lula lá, Ciro cá”, diz a postagem.

— Eu não tive como intenção primeira puxar uma corrente.
Manifestei meu voto.
Se puder influenciar quem eu puder, para atrair apoio aos meus candidatos, farei.
Se o Lula tem maioria no Ceará, obviamente Ciro precisa do voto de quem apoia o presidente — afirmou Ivo ao GLOBO.

Montagem publicada por Ivo Gomes
Reprodução
Ivo rompeu com Elmano após o petista formar aliança com a família Rodrigues, do prefeito de Sobral, Oscar Rodrigues, e do deputado Moses Rodrigues — rivais históricos dos Ferreira Gomes na região.
Ivo classificou o movimento como uma falta de consideração e uma traição pessoal, dado o desgaste que o apoio a Elmano já havia causado na relação com seus irmãos.

O voto casado também é defendido pelo deputado federal Mauro Benevides Filho (União), que foi vice-líder do governo Lula na Câmara até a semana passada.
Ele foi retirado da função por ter coordenado o programa de governo de Ciro.

— A campanha do Ceará é para libertar o estado das facções.
Defendo o voto em Ciro e em Lula — diz Benevides Filho.
A campanha de Ciro atua para evitar a nacionalização da disputa.
Há tentativa de atrair eleitores de diferentes campos ideológicos, tratando a segurança pública como principal tema do pleito deste ano.

Apesar de ter o PL na chapa, com a candidatura de Alcides Fernandes ao Senado, Ciro descarta a possibilidade de ter o presidenciável do partido, Flávio Bolsoanaro, em seu palanque.
Uma das estratégias da campanha de Elmano é a associação do tucano ao bolsonarismo local.

— Ciro não pode ter apoio dos bolsonaristas do Ceará, mas o Elmano pode? Júnior Mano, Yuri do Paredão, Moses Rodrigues, Oscar Rodrigues estão com Elmano — questiona Ivo Gomes.

Nesta semana, o Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TCE-CE) determinou a remoção de uma publicação de Camilo Santana (PT) na qual o senador afirma que Ciro é o “candidato de Flávio Bolsonaro” na disputa pelo governo estadual.
O vídeo traz declarações do tucano críticas a Lula e reforça o apoio do presidente à candidatura de Elmano.

“Elmano é o candidato de Lula no Ceará.
Ciro tenta enganar o cearense, mas não cola! Ciro é o candidato do PL de Bolsonaro.
Ele não pode negar.
O fato é que Elmano é Lula, e Lula é Elmano”, escreveu Camilo na postagem.

Cabos eleitorais
Pesquisa Datafolha divulgada neste mês mostra que Lula é o maior cabo eleitoral do estado, superando numericamente o senador Camilo, além do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e Flávio.

Os dados apontam que 41% dos eleitores cearenses declaram que votariam com certeza em um candidato apoiado por Lula.
Já 19% talvez votariam, 38% não votariam de jeito nenhum e 2% não opinaram.

Já o apoio de Flávio, por exemplo, levaria 22% dos eleitores cearenses a votarem com certeza no candidato referendado por ele.
Por outro lado, 14% talvez votariam, 62% não votariam de jeito nenhum e 2% não opinaram.

A pesquisa mostrou Ciro com 52% das intenções de voto no primeiro turno, contra 33% de Elmano.
O tucano também está na dianteira na simulação de segundo turno, com 55%.
Já o petista marca 37%.

Rompimento político
Nos últimos meses, Lula fez críticas pontuais a Ciro.
Em entrevista aos podcasts “As Cunhãs” e “Não Inviabilize”, no meio de agosto, o petista afirmou que o tucano é muito “personalista” e “acha que o mundo gira em torno dele”.

— Eu quando falo do Ciro falo de uma pessoa que gostei muito, não falo de uma pessoa que eu não gosto.
O problema é que o Ciro acha que o mundo gira em torno dele.
Quantos partidos ele já entrou? A única coisa que presta é o que ele acha que presta.
Ele não se enquadra em um coletivo — disse Lula, que completou: — Se ele fosse escrever um livro, o título seria “eu me amo”.

Lula disse, posteriormente, que quer guardar “as lembranças das coisas boas” que fizeram juntos:
— Não vou ao Ceará falar mal dele.
Ele tomou o destino dele.
Ele achou que ia ser a salva pátria da esquerda e não foi, do centro e não foi.
Ele disputou comigo, ele poderia ter ganho de mim.
Ele é tão sabido.
Ele tem que saber que a grande coisa de alguém que quer ser presidente é ter um pouco de humildade.
E ele não tem.
Esse é o dado concreto.

Lula e Ciro tiveram uma relação próxima, principalmente no primeiro mandato do petista, quando o hoje tucano foi ministro da Integração Nacional.

Com o correr dos anos, mantiveram o contato, apesar de alguns ataques pontuais.
O clima entre eles, porém, se deteriorou ao longo da eleição de 2018.
Lula era o candidato do PT, chegou a ser inscrito na Justiça Eleitoral, mas foi impedido de concorrer por causa de condenação na Lava-Jato — posteriormente anulada pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Os petistas ofereceram a Ciro a possibilidade ser vice de Lula para depois que ocorresse o indeferimento — desta forma, o tucano assumiria a cabeça da chapa.
Ciro classificou a oferta, entre outros termos, de “aberração” e “papelão” e disse que não aceitaria ser um “vice de araque”.

O tucano se candidatou ao Planalto pelo PDT na ocasião e terminou em terceiro lugar, com 12,46% dos votos válidos no primeiro turno.