Mais de um século após sua morte, Machado de Assis ainda desperta novas leituras e provoca reflexões sobre questões que permanecem atuais.
Racismo, desigualdade social, relações de poder, misoginia, vaidade e os limites entre razão e loucura, temas presentes em sua obra, voltam ao centro do debate em uma série de atividades culturais que ocupam Botafogo e a Gávea ao longo de agosto.
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A primeira delas é o projeto Machado Hoje, que transforma a Biblioteca Machado de Assis, no Sesc Botafogo, em um espaço de leitura compartilhada e debate.
Com concepção e curadoria da crítica literária Daniela Name e do escritor Marcelo Moutinho, a iniciativa reúne quatro escritores e especialistas para analisar contos do autor sob a perspectiva dos desafios do século XXI.
A cada encontro, um participante conduz a leitura de uma obra e propõe uma conversa com o público sobre os temas presentes na narrativa.
— Nossa proposta é ler e debater com o público quatro contos clássicos de Machado, de modo a destacar sua atualidade.
Para isso, vamos contar com três escritores que têm se destacado como vozes ativas da literatura contemporânea e com o professor João Cezar de Castro Rocha, conhecido por seu olhar original sobre a obra machadiana.
Na leitura e na conversa, trataremos tanto dos temas trazidos pelas histórias, quanto das opções estéticas e narrativas do autor.
É um mergulho em textos escritos há mais de um século e que continuam a falar, com graça, verve e contundência, para o tempo de hoje — avalia Moutinho.
Especialista.
Castro Rocha traz seu olhar sobre a obra machadiana
Divulgação/Machado Hoje
A abertura, terça-feira, será conduzida por Eliana Alves Cruz, que discutirá o conto “Pai contra mãe” a partir das desigualdades raciais e sociais retratadas por Machado.
No dia 11, Geovani Martins analisa “O homem célebre”, relacionando a narrativa à valorização de referências eurocêntricas e ao preconceito contra a cultura popular.
Bianca Ramoneda conduz, no dia 18, a leitura de “O relógio de ouro”, refletindo sobre a violência e a opressão enfrentadas pelas mulheres.
Encerrando a programação, em 25 de agosto, João Cezar de Castro Rocha debate “O espelho”, aproximando o conto machadiano da obra homônima de Guimarães Rosa.
Além das conversas, os participantes receberão gratuitamente edições artesanais impressas dos contos, para acompanhar a leitura.
O projeto Machado Hoje terá encontros sempre às terças-feiras, das 16h às 18h30, na biblioteca na Rua Farani 53.
A participação é gratuita, e a classificação é livre.
Outro clássico que retorna ao público é “O alienista”, um dos textos mais conhecidos do escritor, que ganha uma adaptação inédita em formato de solo musicado.
Dirigido por Eduardo Figueiredo e protagonizado por Victor Garbossa, o espetáculo acompanha a trajetória do médico Simão Bacamarte, personagem que dedica a vida ao estudo da mente humana e acaba colocando em xeque os limites entre sanidade e loucura.
Ao combinar teatro, música ao vivo, humor e recursos visuais, a montagem preserva a ironia e a crítica social de Machado, ao mesmo tempo em que estabelece um diálogo com temas atuais, como ciência, poder, desigualdade e normalidade.
— Em um momento onde a internet e o celular tomam conta da vida de nossas crianças e jovens, “O alienista” apresenta uma ótima opção de entretenimento com conteúdo educativo, que fomenta questionamentos importantes para os jovens e toda família.
Machado de Assis, o gigante de nossa literatura, é apresentado em uma aventura musical repleta de humor e efeitos visuais e teatrais, aproximando esse público da literatura e da arte — afirma o diretor.
A montagem ficará em cartaz entre os próximos dias 8 e 16, no Teatro dos 4, no Shopping da Gávea, com sessões aos sábados, às 16h; e aos domingos, às 15h.
O ingresso custa R$ 110 (inteira).
“O alienista”.
Peça estreia no próximo sábado e ficará em cartaz até dia 16
Divulgação/Ronaldo Gutierrez
A dramaturgia de Machado também ganha espaço com uma nova montagem de “Quase ministro”, comédia escrita em 1862 que satiriza a política brasileira.
A peça acompanha o deputado Luciano Martins, que acredita estar prestes a assumir um ministério e, antes mesmo da confirmação da nomeação, passa a receber uma série de visitas de bajuladores e oportunistas interessados em conquistar espaço no poder.
A adaptação, dirigida por Ana Hayss e Marcos Victorio, preserva o humor característico do autor para mostrar como as relações políticas descritas no século XIX continuam encontrando paralelos na sociedade atual.
— Machado de Assis, com seu perfil realista do século XIX, nos remete à certeza de que o mundo é cíclico e se confunde com os dias atuais.
A partir do seu humor satírico, a peça convida o público a refletir sobre história e relações sociais — diz Victorio.
“Quase ministro” estreia no quarta-feira (5) e terá sessões também nos próximos dias 12 e 19, sempre às quartas-feiras, às 20h, no Teatro Vannucci, no Shopping da Gávea.
O ingresso custam R$ 150 (inteira).
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