Em 11 de agosto, a Anthropic aderiu ao Código de Conduta europeu e anunciou que vai adicionar marcas d'água a textos e imagens criados por IA, não apenas no chatbot Claude, mas em todos os seus produtos - API, Claude Code, Claude Cowork, Claude Tag.
Em textos, a marca, imperceptível ao olho humano, acompanha cópias e colagens e pode resistir a algumas edições; em imagens, vídeos e áudios será usado o C2PA (Coalition for Content Provenance and Authenticity), padrão técnico aberto criado para identificar mídias geradas ou alteradas por IA.
A medida vale, por enquanto, para modelos lançados a partir de 2 de agosto de 2026; os anteriores estão sendo adaptados gradativamente.
A mudança atende às exigências da Lei de IA da União Europeia para o seu território, mas, por decisão da própria Anthropic, será adotada globalmente.
Esse movimento não é uma decisão isolada da Anthopic.
Desde 2023 o Google já embute em suas mídias geradas por IA o SynthID - desenvolvido pelo Google DeepMind insere marcas d’agua invisíveis; em maio de 2026, a OpenAI aderiu ao C2PA e, em parceria com o Google, adotou o SynthID.
A marcação de conteúdo gerado por IA está virando padrão de mercado.
O código de conduta, “Código de Práticas sobre Transparência de Conteúdo Gerado por IA”, apoia o cumprimento das obrigações previstas no Artigo 50(2), (4) e (5) da Lei de Inteligência Artificial europeia (AI Act) associadas à marcação e rotulagem de conteúdo gerado por IA, em vigência desde 2 de agosto de 2026.
Coordenado pelo Escritório de IA da Comissão Europeia, o código foi elaborado por especialistas independentes - a adesão é voluntária, mas as exigências da Lei de IA são obrigações legais, e o descumprimento pode gerar multa de até 15 milhões de euros ou 3% do faturamento global da empresa, o que for maior.
Em 8 de julho, a Comissão concluiu que o código é adequado para viabilizar essas obrigações, e no dia seguinte, o Conselho de Inteligência Artificial referendou a avaliação.
Até o final de julho, cerca de 190 organizações haviam aderido, entre elas Anthropic, Meta, Microsoft e OpenAI.
Qual a potencial confusão? A presença da marca d’agua não significa que o Claude tenha sido o autor do conteúdo; o sinal indica apenas que o material pode ter sido processado, de alguma forma, por inteligência artificial.
Ou seja, um texto pode receber a marca mesmo quando a IA foi usada apenas para traduzir, resumir, revisar ou padronizar um conteúdo escrito originalmente por uma pessoa.
Além disso, a própria Anthropic alerta que a sinalização pode falhar: marcas em textos podem ser apagadas se o texto for muito editado ou reescrito, e os metadados de um arquivo podem desaparecer com mudança de formato, captura de tela ou por outros processos - já existem, inclusive, técnicas de código aberto para remover metadados C2PA de um arquivo.
Ampliando o debate, a IA generativa mudou a maneira como experimentamos o processo de escrita.
Mark Coeckelbergh e David J.
Gunkel, em “Communicative AI: A Critical Introduction to Large Language Models” (2024), consideram que estamos caminhando para um cenário em que autoria de um texto ou de uma imagem não é apenas facilitada pela IA, mas em que deixa de existir um autor humano identificável.
O advento da IA generativa, baseadas em grandes modelos de linguagem (LLMs - Large language model), provocou a necessidade de ressignificar a relação entre humanos, tecnologia e linguagem, “em que nenhum dos dois está totalmente no controle e todos estão relacionados e interdependentes para a produção de significado e a criação/construção da autoria, que é sempre uma co-autoria”, ponderam os autores.
O debate sobre autoria não é novo.
Já em 1967, no ensaio “A Morte do Autor”, Roland Barthes argumentava contra a prática da crítica literária de buscar interpretar a intenção do autor, defendendo que a primazia da interpretação cabe a cada leitor, atribuindo ao autor apenas a função de produzir a obra, e não de explicá-la.
No texto “A IA sinaliza a morte do autor” (AI Signals The Death Of The Author, 04 de junho de 2025), Gunkel pondera que a autoria não está explícita no “material escrito”, mas nos pensamentos, intenções e caráter originais de quem escreve.
As palavras têm significado porque um autor as utiliza para se referir e dizer algo, “e o grande problema com os LLMs é que eles não têm essa capacidade: eles manipulam palavras sem saber (ou se importar) a que essas palavras se refere”.
No entanto, ele contesta o comentário de Noam Chomsky de que o ChatGPT é basicamente “plágio de alta tecnologia” (entrevista, EduKitchen, 2023), pois os LLMs não recortam nem resumem textos, eles detectam padrões nos dados de treinamento e geram conteúdo original, inédito.
Um caso recente ilustra bem essa confusão.
Após fechar um contrato de US$ 2 milhões com a Minotaur (selo do grupo americano Mcmillan) para publicar o romance policial “Call me, I’ll hide the body”, o escritor nigeriano-americano Jerry Adelayo Falade viu os agentes literários retirarem o manuscrito do mercado por suspeitas de que o romance teria sido escrito com auxílio de IA generativa.
“Em seis horas após o surgimento dos rumores, perdi oportunidades nos EUA, no Reino Unido, traduções e adaptações cinematográficas, sem sequer ter a chance de explicar meu processo de escrita”, escreveu o autor em sua conta do Instagram.
Ele também publicou mensagens de texto e e-mails de 2021 - anteriores ao surgimento do ChatGPT - sobre o livro, para demonstrar que não havia usado IA para escrevê-lo.
Quatorze editoras haviam feito propostas pelo romance de estréia de Falade, supõe-se em reconhecimento a qualidade do texto.
A agência Europa Content, que conduzia o leilão, divulgou um email publicado pelo The Guardian: “Jerry Falade produziu um manuscrito incrível que nos encantou, assim como a profissionais renomados do mundo editorial.
Infelizmente, não podemos mais verificar como o manuscrito se desenvolveu desde sua concepção até sua conclusão.
Analisamos o manuscrito com Jerry em busca de informações sobre IA e confiamos em sua afirmação de que havia sido escrito sem o uso de IA como recurso no processo de escrita ou edição.
Não podemos mais corroborar essa afirmação, portanto, estamos retirando o livro do leilão.”
A crítica mais consistente que circula nas redes sociais não é contra a existência da marcação em si, mas contra o risco que esse sinal - probabilístico, incapaz de identificar autoria e sujeito a falhas - passe a ser tratado como prova definitiva de que algo foi ou não gerado por IA.
As reações mais contundentes vieram de usuários que utilizam o Claude, como a autora desta coluna, para revisar textos - segundo o Business Insider, dezenas de usuários estão cancelando suas assinaturas do Claude citando como motivo a marca d’agua.
Em paralelo, reconhecendo que a identificação pode reduzir o uso do Gemini, o Google disponibilizou uma opção para remover a marca d’agua visível em imagens, vídeos e músicas, sem afetar a marca invisível SynthID.
Em paralelo, observam-se supostas “detecções” do uso de IA em textos alheios, como o uso de travessão - que, definitivamente, não é uma invenção da IA generativa, mas uma prática gramatical antiga.
No século XVII, os textos em inglês já empregavam travessões (dash) com certa regularidade; edições de Shakespeare mostram o sinal representando interrupções e suspensões dramáticas no texto.
Mas foi nos séculos XVIII e XIX que o travessão foi consagrado por escritores como Emily Dickinson, para “capturar a mente em movimento” (a vírgula era suave demais).
Vale sempre lembrar que o mundo não começou em novembro de 2022.
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