Marli Pereira Soares, uma mulher negra moradora da Baixada Fluminense, mãe de quatro filhos, estava em casa com seu irmão de 18 anos quando o rapaz foi levado de lá por um grupo de extermínio.
Os criminosos, fortemente armados, usaram um cinto de Marli para prender as mãos de Paulo Pereira Soares nas costas e foram com ele até um terreno a cerca de 50 metros do imóvel, onde o rapaz foi executado a tiros, na frente da irmã e dos filhos pequenos dela, na noite de 12 de outubro de 1979.
Maria da Penha: O crime que deu origem à lei contra violência doméstica
Guerra do crime: Um confronto de seis dias no Morro Dona Marta, no Rio
Em plena ditadura militar, Marli não pensou duas vezes antes de ir até a delegacia para denunciar os policiais militares que cometeram o crime e passou meses exigindo que o contingente do batalhão local fosse apresentado para que ela reconhecesse os assassinos.
A carioca de então 25 anos foi ameaçada, perdeu o emprego de doméstica e teve a casa incendiada, mas não desistiu, conseguiu destaque para sua luta na imprensa da época e ficou conhecida como "Marli Coragem".
Acervo O GLOBO: Todas as edições do jornal digitalizadas para pesquisa
Em 1980, o cantor e compositor Ivan Lins gravou a música "Coragem Mulher", em homenagem a Marli, com o objetivo de dar ainda mais visibilidade à irmã do jovem assassinado.
Agora, mais de 46 anos depois, a cantora Juliane Gamboa, indicada ao Grammy Latino na categoria Revelação, está lançando uma nova versão da obra, em dueto com o próprio Ivan Lins, pela gravadora Biscoito Fino.
Além de resgatar a determinação da moradora de Belford Roxo, a releitura mostra como a música segue atual.
Marli dando entrevista em meio à repercussão do caso na imprensa em 1980
Anibal Philot/Agência O GLOBO
A Comissão Nacional da Verdade, no seu relatório final divulgado em 2014, reconheceu os nomes de 434 mortos e desaparecidos políticos em decorrência da repressão na ditadura.
A maioria deles eram guerrilheiros de esquerda que se opunham ao governo militar e foram vítimas da violência do estado.
Mas diferentes trabalhos de pesquisa chamam atenção para milhares de moradores das periferias de grandes cidades que não faziam parte da luta armada mas foram mortos pela polícia na ditadura.
Ditadura militar: A professora que sequestrou avião com filhos e fugiu pra Cuba
Comando Vermelho: Como decreto da ditadura levou à formação da facção no Rio
No livro "Rota 66: A história da polícia que mata", o jornalista Caco Barcellos mostra que 65% das mais de 4 mil pessoas mortas pela PM de São Paulo entre 1970 e 1992 não tinham anotações criminais.
Só na Vala de Perus, descoberta em 1990 no Cemitério Dom Bosco, na Zona Oeste de São Paulo, foram achadas mais de mil ossadas humanas não identificadas escondidas ali por agentes da ditadura.
Havia até crânios com marcas de perfuração de balas entre os restos mortais encontrados no local.
A pesquisa do historiador Lucas Pedretti explica como a violência sofrida pela população mais pobre durante o regime de exceção foi, de certa forma, ignorada depois da redemocratização, na segunda metade dos anos 1980.
Pedretti é autor dos livros "Dançando na mira da ditadura: bailes soul e violência contra a população negra nos anos 1970" (Arquivo Nacional) e "A transição inacabada: Violência de Estado e direitos humanos na redemocratização" (Companhia das Letras).
Zuzu Angel: A 'mãe coragem' que enfrentou ditadura para encontrar corpo do filho
O caso de Paulo Pereira Soares serve para exemplificar a violência sofrida pelas camadas mais pobres que não entraram na conta da repressão na ditadura.
No dia 27 de setembro de 1979, PMs fardados arrombaram a casa da família em Belford Roxo, no Rio, e, sem dar nenhuma justificativa, prenderam o rapaz, que vivia de biscates e estava prestando serviço militar obrigatório no Exército.
Paulo foi liberado quatro dias depois com marcas de tortura, mas, na noite de 12 de outubro, Dia de Nossa Senhora da Aparecida, oito homens armados sem farda se dizendo policiais invadiram de novo a casa.
Quase instintivamente, Marli enfiou o certificado de alistamento militar na cueca do irmão.
Mas isso não impediu o pesadelo de continuar.
Os invasores usaram um cinto da própria Marli para prender as mãos do garoto nas costas e o levaram pra um terreno perto da casa, onde Paulo foi executado com vários tiros.
Sem pensar duas vezes, a mulher foi à delegacia prestar queixas e, no dia seguinte, já estava dando entrevistas.
"Eu reconheço todos os assassinos do meu irmão.
Posso descrevê-los todos", disse ela ao Jornal O GLOBO.
"Vou identificar todos eles, se não for morta antes".
Ao longo de meses, Marli esteve dezenas de vezes no 20° BPM (Mesquita) para tentar identificar os assassinos, mas o comandante da unidade fez de tudo pra atrapalhar.
A pedido do delegado, a Justiça mandou reunir o batalhão todo, e a mulher chegou a passar uma tropa de 150 soldados em revista, olhando nos olhos de um por um, mas os assassinos não estavam lá.
Aquela unidade da PM tinha mais de 700 homens, e a Marli acusou o comandante na imprensa de proteger os culpados.
Muita gente teria medo de continuar acusando a PM publicamente.
A própria Marli foi perseguida, teve a casa incendiada, perdeu o emprego de doméstica, abriu mão da guarda dos filhos e teve que morar de favor, escondida.
Mas, nas entrevistas ao jornal O GLOBO e a outros tantos veículos, ela garantia que só ia parar se fosse morta.
"Tenho pavor de barata, mas de polícia, não", disse ela, que era devota de São Jorge, o Santo Guerreiro.
Essa declaração acabou virando título de um livro lançado em 1981, no qual a irmã de Paulo Pereira reconstrói a sua luta para encontrar os assassinos dele.
A moradora da Baixada identificou vários PMs ligados ao crime, mas o delegado do caso foi trocado, a polícia apresentou outros suspeitos e, no fim das contas, apenas um policial limitar acusado por ela foi, de fato, condenado.
Em 1993, em outro caso de violência, o filho mais velho da Marli, de 17 anos, foi encontrado morto em Jacarepaguá e, de acordo com testemunhas, ele tinha sido visto pela última vez num carro da PM.
O caso ganhou repercussão, e a mãe da vítima, revoltada, garantiu que iria "prender esses bandidos fardados como fiz da outra vez".
Mas a investigação não foi adiante.
