Masha e o Urso: Com

Masha e o Urso: Com 'guia de cancelamento', desenho animado vira personagem inusitado da guerra entre Rússia e Ucrânia

Fonte: Bandeira da fonte

Enquanto a invasão russa à Ucrânia entra em seu quinto ano, e em meio a discussões sobre armamentos e estratégias militares, um novo embate no campo cultural começa a ganhar força: um desenho animado popular em dezenas de países — incluindo o Brasil — é alvo de ataques, pedidos de cancelamento e de acusações de ser parte da máquina de propaganda da Federação Russa.
Na Flip: Escritores ucranianos falam do desafio de narrar a guerra, dissociam o uso da língua russa do apoio a Putin e contam piada
Resiliente: Zelensky muda rumos da guerra na Ucrânia ao transformar afastamento de Trump em bênção disfarçada
No centro da polêmica está a série “Masha e o Urso”, produzida pela empresa Animacord e inspirada em um conhecido (e nem tão pueril) conto russo.
Ela conta a história de uma caótica menina chamada Masha, que vive sozinha perto de uma floresta, e de um pacífico urso (chamado Urso) que tenta levar uma rotina de paz após anos no circo.
Em uma cornucópia de cores berrantes, as histórias dos dois estão entrelaçadas pela confusão, e são acompanhadas por personagens peculiares, cada qual à sua maneira.
Além de Masha, a outra figura humana é Dasha, a comportada prima da protagonista.
A série registra mais de 235 bilhões de visualizações no Youtube — um episódio em russo, “Receita para a Confusão”, é o 16º vídeo mais reproduzido da História da plataforma —, e é exibida também em canais de TV e empresas de streaming.
Recentemente, a Netflix comprou mais duas temporadas, disponibilizadas em cerca de 100 países, uma transação que provocou abalos ligados à guerra.
Entrevista ao GLOBO: 'A guerra talvez se torne um estado permanente', afirma Andrei Kurkov, escritor ucraniano que participa da Flip
Em junho, o Congresso Mundial Ucraniano, uma organização que representa os grupos e associações da diáspora, acusou a produção de ser uma ferramenta de “poder brando" ("soft power”) russo e de promover valores tradicionais da cultura russa, alegando que ela “financia diretamente mísseis russos e exerce uma influência destrutiva sobre as mentes dos espectadores mais jovens”.

“O desenho animado promove a lealdade à Rússia entre crianças de todo o mundo por meio do uso de símbolos culturais russos reconhecíveis, incluindo kokoshniks, balalaikas, samovares e a imagem do urso, que é um símbolo não oficial da Federação Russa”, diz o comunicado, acompanhado pelo lançamento de uma campanha de boicote à Netflix e por um guia de cancelamento, que inclui o abandono da plataforma e postagens negativas nas redes.
Entre os exemplos de “doutrinação”, o Congresso cita elementos associados à Rússia e à União Soviética, como um chapéu usado por Masha e vinculado à NKVD, a polícia secreta de Josef Stálin.
Comentários nas redes sociais citam os diplomas em russo na casa do urso e uma placa no vagão ao lado da casa da protagonista, onde está escrita a rota daquele trem: Moscou-Pequim.
O Congresso critica ainda a personalidade de Masha, alegando que ela “não ensina empatia, respeito aos pais, limites pessoais ou responsabilidade, fomentando o egocentrismo e a agressividade nas crianças”.
“O mundo jamais toleraria conteúdo infantil que retratasse símbolos nazistas de forma positiva”, escreveu, na rede social X, o chanceler da Estônia, Margus Tsahkna, em apoio à campanha.
“Os símbolos soviéticos merecem a mesma clareza moral.
Para muitas nações, incluindo a Estônia, eles representam ocupação, assassinatos em massa, deportações e crimes contra a humanidade.”
Análise: Nem aumento do custo da guerra derrota teimosia de Putin na Ucrânia
A onda anti-Masha ganhou corpo também no Reino Unido, onde um grupo de 50 deputados lançou uma carta, no começo do mês, defendendo que as autoridades regulatórias suspendam a exibição na Netflix e na plataforma digital da rede ITV.
Os parlamentares afirmam que a produção “normaliza ativamente a iconografia militar soviética para um público global de crianças pequenas” e argumentam que “não é apenas um desenho, mas um instrumento de soft power” de Moscou.
“Os pais britânicos têm o direito de esperar que o conteúdo que chega aos seus filhos por meio de plataformas licenciadas tenha passado por uma análise adequada, especialmente quando preocupações fundamentadas sobre propaganda estatal são levantadas por nossos aliados”, diz a carta, que ainda não recebeu uma resposta oficial.

Em outra frente, Andriy Kovalenko, chefe do Centro de Combate à Desinformação, vinculado ao Conselho de Segurança e Defesa Nacional (NSDC) da Ucrânia, defendeu ao portal LB a aplicação de sanções à Animacord, proposta já levantada pelo Ministério da Cultura no ano passado..

— As sanções nos dariam base legal para solicitar ao YouTube o bloqueio desse conteúdo na Ucrânia — disse Kovalenko ao LB, se referindo ao canal em ucraniano do desenho, que tem mais de 18,4 milhões de seguidores.— Também nos permitiriam interagir com a Netflix com base legal
Segundo uma porta-voz, a Animacord “rejeita categoricamente a sugestão falsa e difamatória de que ‘Masha e o Urso’ esteja associado a propaganda”, e reafirma que o desenho fala apenas de temas universais como amizade e imaginação, sem mensagens políticas.
Em maio do ano passado, a sede da empresa em Moscou foi fechada e as operações transferidas para o Chipre, na União Europeia.
Além do risco de sanções, o estúdio queria tentar escapar das acusações de politização.
A empresa garante não ter vínculos com o Estado russo.
Em resposta à invasão russa: Literatura ucraniana passa por 'fase documental' e chama a atenção de editoras mundo afora
Nos primeiros momentos da invasão à Ucrânia, houve uma onda de cancelamento de artistas e obras ligados à Rússia, desde bandas modernas de rock até clássicos da literatura, ampliada conforme a guerra avançava sem dar sinais de terminar.
Por isso, Masha e seus amigos da floresta surgem como alvos óbvios, mas essa não é a primeira vez em que se veem em meio à política.
Há 11 anos, o governo do Irã baniu o desenho, alegando que a menina era um mau exemplo com suas constantes bravatas, desobediências e questionamentos à autoridade adulta — tal como em outras proibições culturais, o número de pessoas que começaram a consumir os episódios disparou.
No ano passado, em uma ironia digna da prosa de Nikolai Gogol, um ativista russo pró-Kremlin, Vadim Popov, pediu o fim da exibição na Rússia, citando a presença de “mensagens prejudiciais que contradizem os valores tradicionais russos”.
— Comecemos pelo fato de a personagem principal viver sozinha, sem os pais.
Um exemplo estranho e perigoso de alienação para uma criança pequena.
Em segundo lugar, Masha é uma menina caprichosa e materialista, para não dizer francamente problemática — afirmou ao portal MSK1.