Uma fotografia tirada pelo rover Curiosity, da Nasa, voltou a circular nas redes sociais nas últimas semanas por causa de uma sombra escura no canto esquerdo do quadro, com um contorno que lembra uma medusa com tentáculos pendendo para baixo.
A imagem foi capturada em 20 de agosto de 2023, às 19h27 (horário de Brasília), pela câmera de navegação direita do veículo, durante o Sol 3924 de sua jornada pela Cratera Gale.
Segundo a Nasa, a explicação mais provável não envolve nenhum objeto real na superfície do planeta: os registros indicam que a mancha foi produzida por uma partícula de alta energia vinda do espaço ao atingir o sensor da câmera no instante exato do disparo.
Comparação com fotos anteriores descarta objeto real
A Curiosity costuma fotografar o mesmo cenário mais de uma vez, prática que permitiu descartar a hipótese de um objeto físico no terreno marciano.
A câmera registrou a cena 13 e 25 segundos antes da foto que ficou famosa, e nenhuma das duas imagens anteriores mostra qualquer vestígio da silhueta.
Como a mancha aparece só em um único quadro e desaparece nos seguintes, o padrão é típico de uma interferência no próprio sensor, e não de algo pousado sobre uma rocha ou pairando na atmosfera do planeta.
Sondas e rovers em operação fora da proteção da Terra registram com frequência pontos e riscos claros ou escuros que não correspondem a nada no cenário fotografado.
De acordo com um levantamento de perguntas frequentes da Nasa sobre imagens brutas de suas missões, boa parte desses artefatos vem de raios cósmicos, partículas de altíssima energia emitidas pelo Sol ou por objetos distantes, como supernovas e quasares, que atingem o sensor da câmera de forma aleatória.
Quando a partícula acerta o sensor de frente, ilumina um único pixel; quando atinge em ângulo, pode acender uma fileira inteira, formando um risco na imagem.
Sensores com defeitos pontuais, os chamados pixels quentes, são outra causa possível, embora costumem aparecer sempre no mesmo local da imagem, o que não é o caso aqui.
Esse tipo de registro é rotineiro nas fotos da Curiosity.
Em nota à imprensa sobre um caso semelhante registrado em 2014, o engenheiro Justin Maki, do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da Nasa e responsável pela equipe da câmera de navegação do rover, afirmou: "vemos fotos com pontos claros quase toda semana, entre milhares recebidas da Curiosity".
Por que Marte deixa as câmeras mais expostas
Diferentemente da Terra, Marte não tem um campo magnético global capaz de desviar partículas carregadas vindas do espaço.
O planeta também tem uma atmosfera muito mais rarefeita: segundo a Agência Espacial Europeia (ESA), o volume atmosférico marciano corresponde a menos de 1% do volume da atmosfera terrestre.
Como resultado, equipamentos como as câmeras da Curiosity ficam mais expostos a esse tipo de radiação do que qualquer sensor fotográfico em operação na superfície da Terra.
Não é a primeira vez que uma imagem de Marte gera interpretações fora do comum: rochas com formatos que lembram rostos, ossos ou estruturas geométricas já viralizaram antes e, em casos anteriores, análises da equipe de imagens da missão atribuíram o fenômeno a formações geológicas comuns no planeta.
No caso da "medusa", porém, a equipe do JPL ainda não publicou uma análise específica confirmando a origem exata da mancha, o que significa que outras variações de artefato de câmera não podem ser descartadas por enquanto.
O que os três quadros consecutivos deixam claro é que, seja qual for a causa exata, o fenômeno ocorreu dentro do equipamento da Curiosity, e não na superfície de Marte.
