Melhor língua do Rio fica na esquina do Sambódromo - QTU Questões do Universo

Melhor língua do Rio fica na esquina do Sambódromo

Fonte: Bandeira da fonte

Pode ser que você já tenha passado pela esquina da Avenida Salvador de Sá com a Travessa Lopes, na Cidade Nova, e não tenha reparado.
Por isso venho avisar.
Nas mesas do bar que ocupa essa dobradiça de ruas sem muita poesia é servida a melhor língua do Rio de Janeiro.
Não está em ranking algum, muito menos em listas badaladas.
O título é orgulho local, concedido pela clientela e assumido por eles mesmos, num misto de autoestima, humor e suor.
Entre a mimosa e o pão na chapa: brunches têm uma licença social que libera qualquer um para beber antes do meio-dia
No Maracanã: Naquela mesa estão faltando eles
Essa história começa no fim dos anos 1970, com a chegada de Norberto André Neto.
De Guaraciaba do Norte, no Ceará, trabalhou como garçom em vários restaurantes até abrir seu primeiro bar, em Laranjeiras.
Rodou um pouquinho e, em 1998, encontrou a esquina do Sambódromo, de onde nunca mais saiu.
O lugar sempre teve tudo o que um botequim bom tem: comida gostosa, farta e em conta, horário amplo, estufa com alguma coisa esquecida lá dentro, prateleira com garrafas quentes desalinhadas na parede e gente fazendo isso acontecer.
Um punhado de anos atrás, a chegada do filho Anderson ao balcão deu uma sacolejada, principalmente na cozinha.
O rapaz começou a fazer um teste aqui, defumar uma ou outra coisa ali e incrementou alguns empratamentos e descrições para ficar bem nas fotos das redes sociais.
O arroz de polvo com tomates defumados e confitados com lascas de bacon poderia compor o feed de um restaurante badalado.
O polvoralho, petisco de polvo servido no pão de alho e geleia de pimenta, também.
Talvez só mudassem o nome.
Tem língua ensopadinha, à parmegiana e à moda da casa, defumada no eucalipto por quatro horas, e empanada na panko
Marcella Sobral
De tão bonitos os pratos, houve uma época em que desavisados se frustravam ao chegar no botequim.
Nunca pela comida.
Os que ficavam se encantavam e recomendavam o destino pitoresco aos amigos.
Mas tinha gente que nem saltava do táxi quando via, ou melhor, não via um salão refrigerado, estofado pomposo e louça delicada.
Fez-se necessário um pronunciamento oficial, reforçando a vocação local: “somos um botequim com decoração de gosto duvidoso, que abre às 8h da manhã pra vender 51 no balcão e aquele cafezinho de máquina antiga, não temos ovo colorido hoje, mas já tivemos por aqui essa iguaria, não faz muito tempo”.
A questão aqui é de reparação histórica.
Já que tem muito fine dining de petisco se chamando de botequim, nada mais justo que um botequim se valha de molhos pincelados, quenelles e afins para vender seu peixe, seu polvo ou sua língua.
Leia também: No barulho da Lapa, o bar que não grita
Manjar dos balcões, a língua ainda não conquistou lugar no mainstream, como as hoje reputadas rabada e moela.
Segue injustiçada, com menos espaço no mundinho aesthetic atual.
Mas não no Sambódromo: lá, a língua de boi tem tratamento especial, pulserinha VIP, e ganhou até um festival sem data para acabar.
Tem língua ensopadinha, à parmegiana e à moda da casa, defumada no eucalipto por quatro horas, e empanada na panko.
Daí você decide se quer prová-la como rebola queixo ou refeição mesmo, com arroz, purê, feijão e farofa.
Pedindo com jeitinho, rola até um macarrão para acompanhar.
Quando passar por aquela esquina novamente, lembre: ali fica um botequim de cozinha internacional, com inspirações que vão da Ásia ao tucupi, passando pela feijoada impecável às sextas.
E ainda tem samba no domingo.