Menstruação: como falar sobre esse assunto com meninas e meninos - QTU Questões do Universo

Menstruação: como falar sobre esse assunto com meninas e meninos

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Dúvidas da semana 🤷‍♀️🤷
“Minha filha tem 9 anos e entrou na puberdade, tendo sua primeira menstruação neste mês.
Como abordar o assunto para que ela aprenda a reconhecer as mudanças sem encarar esse processo como algo negativo?"
"Hoje meu filho de 10 anos perguntou o que é menstruação.
Perguntei por que queria saber e ele comentou que duas colegas da turma estavam falando sobre...
Qual a melhor forma de explicar? Inclusive sem fazer com que ele sinta nojo e dê risada de uma coleguinha se um dia 'vazar' o sangue dela na roupa?"
Quando a conversa é sobre menstruação, o mais comum é a gente pensar logo que o papo é só para meninas.
Mas nossos leitores (maravilhosos) são muito atentos, e uma pergunta enviada por uma mãe dá a pista de como isso precisa mudar: os meninos também têm que aprender sobre esse assunto.
Até porque um grande medo que acompanha a primeira menstruação é virar alvo de piadas dos garotos.
Na minha época, isso acontecia muito.
A gente escondia o absorvente, tinha pavor de ficar exposta, de alguém perceber.
Nesta edição, reunimos duas excelentes perguntas e ouvimos especialistas que dão dicas de como conversar sobre menstruação com meninas e meninos.
Antes que o primeiro vazamento ou a primeira piadinha aconteçam.
Leia também: Como falo sobre sexo e sexualidade com crianças e adolescentes?
👩‍🏫👨‍🏫 Palavra das especialistas 
Caroline Arcari
Pesquisadora em enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes; autora de "Pipo e Fifi - Ensinando proteção contra violência sexual"
🌱 A primeira coisa importante é lembrar que menstruar não significa “virar mulher”.
Uma menina de 9 anos que menstruou continua sendo uma criança de 9 anos.
Seu corpo iniciou uma nova etapa de maturação, mas isso não significa prontidão emocional, sexual ou reprodutiva.
🧠 Também é interessante não explicar a menstruação somente a partir da fertilidade.
Os hormônios envolvidos na puberdade são fundamentais para todo o desenvolvimento e funcionamento do organismo: participam do crescimento, da maturação dos órgãos, da saúde dos ossos, do metabolismo e de inúmeras outras funções.
A menstruação é um dos sinais de que esse processo de amadurecimento fisiológico está acontecendo.
🩸 Podemos explicar de maneira simples que existe dentro do corpo feminino um órgão chamado útero.
A parte interna dele, chamada endométrio, passa por modificações ao longo do ciclo e, quando esse tecido se desprende, parte dele é eliminada pela vagina junto com sangue.
Isso é a menstruação.
📚 Depois, conforme a criança cresce e faz perguntas, podemos acrescentar informações sobre ovários, óvulos, hormônios, ciclo menstrual e reprodução.
Não precisamos entregar uma aula de fisiologia inteira aos 9 anos, mas precisamos oferecer informações verdadeiras e adequadas à capacidade de compreensão daquela criança.
🔬 E podemos falar da menstruação também a partir de aspectos positivos.
O sangue menstrual não é “sangue sujo”.
Ele contém sangue, tecido endometrial, secreções e células.
🧬 Há, inclusive, células com características de células-tronco mesenquimais que podem ser isoladas do sangue menstrual e vêm sendo estudadas cientificamente por seu potencial em pesquisas de regeneração de tecidos.

✨ É uma curiosidade maravilhosa para mostrar às meninas: até aquilo que durante tanto tempo foi tratado como vergonhoso ou sujo é hoje fonte de conhecimento científico sobre o corpo feminino.
⚠️ Isso não significa romantizar a menstruação.
Menstruar pode ser inconveniente, pode haver vazamentos e pode existir desconforto.
Cólicas leves podem ocorrer, mas dor intensa ou incapacitante não deve ser simplesmente naturalizada como “coisa de mulher” e merece avaliação médica.
🧼 Na parte prática, a menina precisa ser ensinada:
Mostre como colocar e trocar o absorvente, como descartá-lo, como higienizar a vulva e lavar as mãos.

Prepare com ela um pequeno nécessaire para levar à escola, com absorventes, calcinha limpa e um saquinho para uma eventual roupa suja.

💡 Quanto mais ela souber o que fazer, menor será a insegurança.
E vale antecipar situações:
“E se menstruar na escola?”
“E se vazar?”
“E se eu sentir cólica?”
💪 Quando a criança já sabe como agir, uma situação inesperada deixa de parecer uma catástrofe.
👦 E os meninos também precisam aprender sobre menstruação.
O garoto de 10 anos que perguntou o que é menstruação abriu uma excelente oportunidade.
Mas, idealmente, ele nem precisaria ter perguntado para receber essa informação.
🗣️ Educação sexual deve ser proativa.
Não podemos esperar a menina menstruar para explicar a menstruação, esperar acontecer uma ereção para conversar com o menino ou esperar surgir uma situação constrangedora para ensinar privacidade e respeito.
Educação sexual prepara crianças e adolescentes para situações que ainda vão acontecer.
👨‍👩‍👧 Um menino pode aprender a mesma explicação básica: meninas e mulheres possuem útero, ovários e vagina; durante a puberdade, o organismo começa a apresentar ciclos menstruais, e a menstruação é uma manifestação normal do funcionamento do corpo feminino.
Mais tarde ele compreenderá também sua relação com ovulação e fertilidade.
🤝 E também é importante que ele conheça os aspectos positivos.
Menstruação não precisa ser apresentada aos meninos como “aquele sangue que as meninas têm”.
Podemos falar sobre o funcionamento extraordinário do corpo, sobre hormônios, desenvolvimento e até contar que células encontradas no sangue menstrual são objeto de pesquisas científicas.
🚫 Esse conhecimento também ajuda a prevenir o nojo, a zombaria e a humilhação.
🙌 Podemos conversar antecipadamente sobre um possível vazamento: se algum dia uma colega estiver com uma mancha de sangue na roupa, aquilo não é engraçado.
Não se aponta, não se chama os amigos para olhar e não se faz piada.
Se for possível, ele pode avisá-la discretamente ou procurar uma professora.
❤️ Isso é educação sexual também: conhecer o próprio corpo, conhecer o corpo do outro e aprender a respeitar sua intimidade.
🌿 A grande diferença está justamente na antecipação.
Crianças não deveriam descobrir o funcionamento do corpo somente quando alguma coisa acontece.
Quando oferecemos conhecimento antes, elas chegam às transformações da puberdade sabendo nomeá-las, compreendê-las e lidar com elas.
🌷 Para a menina, a mensagem pode ser: “Seu corpo está crescendo.
Você continua sendo criança e nós vamos ajudá-la a conhecer e cuidar desse corpo em cada nova etapa.”
🌎 E, para meninos e meninas, fica uma aprendizagem ainda maior: o corpo humano não é motivo de vergonha.
Quanto mais o conhecemos, mais preparados estamos para cuidar de nós mesmos, respeitar os outros e enfrentar as situações da vida com segurança.
E o celular? A partir de que idade posso dar um smartphone ao meu filho?
‘Meninas primeiro’: Faz sentido ensinar essa regra para crianças?
Carol Petrolini
Escritora e autora dos livros ‘A lua de Alice: uma história sobre a primeira menstruação e os ciclos femininos’ e ‘Depois da última Lua: uma história sobre o fim dos ciclos femininos e a idade madura’ (Cortez Editora).
Psicóloga no TJSP há 20 anos, com formação pela USP Ribeirão Preto e Hospital das Clínicas da FMUSP (@carol.petrolini)
💭 Muitas de nós, que hoje somos mães, avós, tias, vivenciamos a chegada da primeira menstruação com medo, vergonha, tabus e silenciamentos, recebendo poucas informações.
Mesmo quando tínhamos acesso às informações do funcionamento biológico, não havia espaço para conversarmos sobre nossas inseguranças.
😟 O temor das cólicas ou do sangue manchar a roupa, assim como esconder o absorvente na hora de ir ao banheiro na escola, marcaram muitas de nós.
👩‍👧 Como mãe de menina e psicóloga, me surpreendi quando, próximo à puberdade da minha filha, percebi que as meninas continuavam impactadas com os mesmos medos.
O pior: continuavam associando a menstruação a algo negativo.

📖 Mobilizada por essa percepção, parti em busca de um novo olhar para a menarca (primeira menstruação) e para o ciclo menstrual, nascendo daí o livro “A lua de Alice: uma história sobre a primeira menstruação e os ciclos femininos” (Cortez Editora).

📕 No livro, a menina Alice, de 12 anos, está passando um final de semana na casa da avó quando acontece a chegada de sua primeira menstruação.
Como tantas meninas, ela havia aprendido sobre isso na escola, mas lembrou da referência negativa que ouviu das amigas que já haviam menstruado.
O que Alice não sabia é que a avó iria lhe oferecer um outro olhar sobre esse momento, transformando a chegada de suas “luas” em uma experiência inesquecível e acolhedora.
🌙 Como abordar de forma respeitosa e acolhedora a chegada da menstruação e do ciclo menstrual? A avó encontra um caminho.
Ela começa explicando para Alice que, na natureza, muitos fenômenos acontecem em ciclos.
Temos as estações do ano (primavera, verão, outono e inverno), as fases da lua (crescente, cheia, minguante e lua nova) e o movimento das marés (maré alta e maré baixa), que se repetem continuamente.

🔄 Da mesma forma, existe um ciclo da natureza que acontece dentro do corpo das meninas e mulheres: é o ciclo menstrual.
E que, assim como os outros ciclos da natureza, ele tem fases de expansão (fase pré-ovulatória e ovulatória) e fases de retraimento/recolhimento (fase pré-menstrual e fase menstrual), nas quais tanto a parte física como emocional vai sentindo essa transformação.
A partir daí, a menina Alice vai aprendendo sobre cada fase do ciclo menstrual, em comparação com as estações do ano e as fases da lua, de forma lúdica e afetiva.

☀️ Ela compreende que, na fase ovulatória, assim como acontece com a natureza no auge do verão, ela pode se sentir exuberante, mais expansiva, enquanto na fase pré-menstrual, tal como acontece no movimento do outono, ela pode se perceber mais introspectiva, quando o útero se prepara para descartar o óvulo que não foi fecundado, deixando ir o que não serve mais, no físico e nas emoções.

🫂 “TPM” recebe um novo olhar, podendo significar “Tempo Para Mim”, respeitando essa necessidade de maior acolhimento consigo.
Até as cólicas podem diminuir quando consigo respeitar mais esse “tempo para mim”, com mais repouso ou fazendo uma compressa quente.
E quando essas cólicas se tornam muito intensas, é preciso buscar um olhar profissional que traga qualidade de vida.
📚 A leitura de “A lua de Alice” junto com as filhas pode ser um importante mediador para construir uma relação diferente do que as gerações anteriores tiveram com os próprios ciclos.
Pode ser o passo inicial para o diálogo e a escuta de dúvidas e expectativas das meninas, ainda que falem através das personagens do livro.
🌸 Isso não quer dizer que a partir daí as meninas vão adorar menstruar e tudo serão flores.
Até porque estamos mergulhadas em uma cultura patriarcal em que as referências ao Feminino (entre elas, a menstruação) são historicamente marcadas por tabus e depreciação.
Mas o que percebemos na prática é que, a partir desse diálogo acolhedor e respeitoso, as meninas conseguem se apropriar de seu funcionamento cíclico (diferente do funcionamento linear dos homens) não como desvantagem ou algo a ser silenciado, mas como um autoconhecimento poderoso.
👧 Outro ponto importante: a chegada da primeira menstruação não significa “virar mocinha”, como tantas de nós ouvimos.
A menina que menstrua aos 9 ou 10 anos continua sendo criança, e sua necessidade de brincar e de ter a infância resguardada é fundamental.
Da mesma forma, quando uma adolescente que tem 13 anos ainda não menstruou, isso não quer dizer que ainda seja criança, caso ela já se perceba adolescente e queira ser tratada como tal.
👦 É fundamental incluirmos também os meninos nessa conversa.
Embora o ciclo menstrual só aconteça no corpo das meninas, eles convivem o tempo todo com mães, irmãs e colegas de escola.
Os meninos precisam compreender o que está acontecendo no corpo e nas emoções das meninas e mulheres à sua volta.
Não através de piadinhas e olhar torto, como “ah, minha mãe tá de TPM”, mas sim com um olhar de respeito e compreensão que, na maioria das vezes, não chega até eles.

🏫 No trabalho que realizo em algumas escolas, levando o conteúdo de “A lua de Alice” a alunos de 5º e 6º anos do Ensino Fundamental, a turma toda é incluída na conversa.
E os meninos têm a possibilidade de trazer suas dúvidas – que são várias – sobre a menstruação.
É importante explicar que os homens têm um funcionamento linear ao longo do mês, sem tantas oscilações físicas e emocionais, e que as mulheres têm um funcionamento cíclico.

🔎 Ao mesmo tempo, mostramos de forma ilustrativa o movimento que acontece nos ovários e útero, o ciclo da vida que se repete a cada mês no corpo das mulheres.
🫱🏻‍🫲🏽 Acredito que para construir um mundo em que os homens se relacionem de forma respeitosa com as mulheres, os meninos precisam ser incluídos nessa conversa sobre o ciclo menstrual desde o início.
A empatia e o respeito começam aí.
Médicos explicam: A puberdade tem acontecido cada vez mais cedo em meninas: isso é normal? Quais são as causas?
Daniel Becker: Ser menina não deveria doer; a questão invisível da dignidade menstrual
NO RADAR 👀 - 3 livros e 1 filme para tratar do tema
🌙 A lua de Alice: Uma história sobre a primeira menstruação e os ciclos femininos (Carol Petrolini | Ilustrações de Laura Barbeiro | Cortez Editora)
Alice tem 12 anos e é surpreendida pela chegada da primeira menstruação durante um fim de semana na casa da avó.
Entre dúvidas e inseguranças, ela descobre uma nova maneira de olhar para a menarca e os ciclos femininos, além de refletir sobre os saberes transmitidos entre gerações.
💗 Celebre Seu Corpo (e suas mudanças também!) (Sonya Renee Taylor | Editora Melhoramentos)
Um guia para meninas que estão entrando na puberdade e querem entender as transformações do corpo e das emoções.
O livro aborda menstruação, crescimento dos seios, pelos, sentimentos, amizades e autoestima, com uma linguagem direta e acolhedora que ajuda a transformar dúvidas em confiança.
🌙 A menina que virou lua (Morena Cardoso | Ilustrações de Julia Vargas | Editora Letramento)
O livro apresenta a primeira menstruação como um rito de passagem inspirado em saberes e tradições ancestrais.
A história convida a olhar para o corpo feminino a partir de uma perspectiva de pertencimento e força, recuperando conhecimentos transmitidos entre gerações.
🐼 Red: Crescer é uma Fera (Disney+)
Mei Lee tem 13 anos e vive as transformações da adolescência: mudanças no corpo, novas emoções, amizades e conflitos com a mãe.
Quando fica muito emocionada, transforma-se em um panda-vermelho gigante, uma metáfora para as mudanças da puberdade e uma oportunidade para conversar sobre crescimento.
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