Edinho Silva protagonizou a primeira reação política do entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no sábado, horas depois de Javier Milei chamar o brasileiro de "ladrão" e "presidiário" em um ato de Flávio Bolsonaro, em São Paulo.
Os insultos abriram a pior crise diplomática entre os dois países nas últimas décadas.
Edinho, um dos homens de maior confiança de Lula e presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), recebeu o LA NACION em seu gabinete na sede nacional do partido para uma entrevista exclusiva.
'Nem apaga o motor': PF diz que Vorcaro orientou operação "discreta" para voo privado de Jaques Wagner
Leia mais: Lula diz que EUA ‘vão tentar interferir nas eleições para ajudar o lado de lá’
A menos de 70 dias das eleições presidenciais, Silva foi categórico: "Milei não pode vir ao Brasil e atacar as instituições brasileiras", advertiu.
O PT apresentou uma denúncia para investigar a origem dos recursos utilizados na viagem do presidente argentino e não descarta que o episódio resulte em sanções e até mesmo na anulação da candidatura do filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O que vocês buscam com a denúncia apresentada sobre a viagem de Milei?
É uma resposta política, mas também jurídica.
Milei é chefe de Estado, não pode confundir suas atribuições com as de um militante político.
Ele pode vir ao Brasil e dizer o que pensa, mas não pode atacar as instituições brasileiras: isso é algo inédito na história dos dois países.
Queremos saber a origem dos recursos utilizados em sua viagem.
Se foi dinheiro privado, não há problema.
Mas, se houve uso de dinheiro público, a lei brasileira proíbe que outro país interfira em nosso processo eleitoral, e isso configura crime.
Quais seriam as consequências caso isso seja comprovado?
Poderia haver até a anulação de uma candidatura, dependendo de como a Justiça Eleitoral enquadrar o caso.
O uso de recursos estrangeiros para interferir na campanha brasileira fere nossa soberania e nossa concepção de igualdade na disputa eleitoral, princípios valorizados pela legislação brasileira.
Espero que o Ministério Público investigue e que a Justiça Eleitoral atue com o rigor que o caso merece.
O senhor vê essa viagem como um alinhamento ideológico entre dois políticos ou como parte de uma estratégia regional, com sinal verde da Casa Branca?
São hipóteses que podem até se cruzar.
O grave é que Milei atacou o Estado brasileiro, não um partido, e isso prejudica empresas e trabalhadores argentinos que dependem dessa relação comercial, tendo o Brasil como principal parceiro comercial da Argentina.
Se ele quer reproduzir a agressividade de Trump, deve saber que Trump não representa todos os Estados Unidos, assim como Milei não representa todo o povo argentino.
Da mesma forma, tarifas são instrumentos para equilibrar o comércio, não para promover represálias políticas, e as grandes empresas de tecnologia não podem se transformar em ferramentas de ingerência.
Os governantes passam, os países permanecem.
Se Milei não entende isso, não tem estatura para o cargo que ocupa.
Na semana passada, o Itamaraty negou vistos a dois diplomatas americanos que viriam, segundo o jornal The Washington Post, questionar a legitimidade das urnas.
Isso antecipa um processo eleitoral que pode ser tão conturbado quanto o de 2022?
O governo agiu corretamente ao restringir a entrada desses funcionários.
O Brasil tem instituições que protegem a democracia e recebe observadores de todo o mundo, mas para acompanhar o processo, não para interferir nele.
Nós respeitamos as eleições dos Estados Unidos, embora tenham sido questionadas por sua própria liderança política.
Pedimos reciprocidade.
Não vamos aceitar qualquer tipo de ingerência.
Flávio Bolsonaro voltou a lançar dúvidas sobre as urnas eletrônicas em uma reunião com embaixadores.
Ele repete o mesmo roteiro de seu pai, que culminou na tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023.
As urnas foram auditadas por todos os órgãos imagináveis e ninguém conseguiu comprometer sua segurança.
O PT venceu e perdeu eleições com esse sistema e jamais questionou sua legitimidade.
Por trás desse discurso existe uma concepção autoritária, e é por isso que ele é grave.
Nas últimas semanas, diferentes pesquisas mostraram uma recuperação do governo em relação à oposição, com vantagem de cerca de cinco pontos em um eventual segundo turno.
A que o senhor atribui isso?
É o governo com o maior volume de entregas da nossa história.
Investimos mais de 1 trilhão de reais neste semestre no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), alcançamos a meta de 3 milhões de moradias do programa Minha Casa, Minha Vida, estamos entre as economias que mais crescem de forma sustentável entre as 20 maiores do mundo e conseguimos tirar novamente o Brasil do mapa da fome.
Quando a aprovação do governo melhora, melhora também nossa projeção eleitoral.
A imprensa brasileira fala em um "pacote de bondades" eleitorais, com subsídios e prorrogações de programas que somam mais de R$ 180 bilhões apenas neste ano.
Esse nível de gasto é sustentável, especialmente quando o governo cobra do Banco Central uma redução da taxa de juros?
Não se trata de programas novos, mas de ajustes em programas que já existiam, como o Desenrola.
O subsídio aos combustíveis responde a uma guerra que afetou a logística mundial do petróleo, algo que ninguém poderia prever.
Queremos a redução da taxa de juros: a inflação está cedendo, o dólar está estável e os fundamentos da economia permitem isso.
Que diferenças teria o programa de um eventual governo "Lula 4" em relação a este terceiro mandato?
Vamos melhorar a qualidade do gasto público e a produtividade, além de construir alianças internacionais em torno das reservas brasileiras de terras raras, com efetiva transferência de tecnologia.
Precisamos de um Estado forte que acompanhe a adoção da inteligência artificial e financie os trabalhadores que perderem seus empregos em razão dessa transformação.
Também precisamos de uma reforma política que fortaleça os partidos, com voto em lista, para acabar com a lógica das emendas parlamentares, o que abre espaço para a corrupção.
Insisto na questão do ajuste fiscal: essa medida, defendida por alguns setores do mercado, é vista como necessária em um novo mandato?
É justamente o que eu dizia: precisamos requalificar o gasto público.
Temos de pensar uma reforma do Estado e rever a política de isenções tributárias do país.
É preciso avaliar quais setores ainda necessitam desse incentivo e quais não precisam mais.
Os benefícios fiscais não podem ser permanentes: são mecanismos transitórios para setores em desenvolvimento, não privilégios eternos.
Lula disputará esta eleição aos 80 anos e não há dentro do PT uma liderança clara além dele.
Por que o partido não conseguiu consolidar um sucessor?
Esse é um tema que nos desafia: estou à frente do PT há um ano e uma de nossas prioridades é justamente a transição geracional.
Neste ano, promovemos uma política de filiação de jovens e, neste processo eleitoral, estamos incentivando candidaturas jovens para iniciar a renovação de nossas bancadas.
Nunca vamos produzir outro Lula.
Ele é um fenômeno surgido de condições históricas irrepetíveis: o declínio da ditadura, a ascensão dos movimentos sociais e a trajetória de um líder sindical que rejeitou todo o sistema político e propôs criar um partido que representasse a classe trabalhadora emergente.
Nosso desafio é fortalecer o PT para que outras lideranças deem continuidade a esse projeto.
Como o próprio Lula costuma dizer: "Meu sucessor não será um nome, será o PT".
Milei 'não pode confundir suas atribuições com as de um militante político', diz presidente do PT a jornal argentino
Fonte:
