O ministro da Justiça e Segurança Pública de El Salvador, Gustavo Villatoro, defendeu nesta segunda-feira (31), durante evento na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), em São Paulo, o modelo de segurança do presidente Nayib Bukele como uma estratégia de guerra contra organizações criminosas que, segundo ele, haviam criado um “Estado criminal paralelo” no país.
Villatoro atribuiu a retomada do controle de territórios dominados por gangues ao regime de exceção decretado em 2022, ao endurecimento das leis e a mudanças na atuação do Judiciário.
A experiência salvadorenha tem servido de inspiração para candidatos de direita no Brasil, como Flávio Bolsonaro (PL), que se reuniu com Villatoro no domingo, e Sergio Moro (PL), candidato ao governo do Paraná.
Presente no evento, Moro anunciou que pretende batizar de “El Salvador” o presídio de segurança máxima que promete construir caso seja eleito.
Durante a palestra, Villatoro apresentou o regime de exceção, em vigor desde março de 2022, como uma das principais ferramentas para enfrentar o que chamou de “Estado criminal paralelo”.
— Um regime de exceção não traz soluções debaixo da manga.
É simplesmente a ferramenta constitucional com a qual declaramos guerra a um Estado criminal paralelo — afirmou.
O ministro disse que El Salvador passou de 3.962 homicídios em 2015 para 82 em 2025, uma queda de cerca de 98%.
Também afirmou que a impunidade para homicídios, que chegaria a 97% antes da atual política de segurança, caiu a zero.
— Se você tem 97% de impunidade no país em questões de homicídios, isso realmente para eles é maravilhoso, é muito lucrativo — disse.
Segundo Villatoro, os resultados são consequência da combinação entre repressão às organizações criminosas, mudanças na legislação e uma atuação mais integrada das forças de segurança e do Judiciário.
A estratégia, porém, é alvo de críticas de organizações internacionais.
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) afirmou em abril deste ano estar “seriamente preocupada” com os impactos do prolongamento do regime de exceção e pediu o fim de seu uso continuado.
A Human Rights Watch também documentou detenções arbitrárias, tortura e outras formas de maus-tratos, inclusive contra crianças e adolescentes.
Villatoro rejeitou as críticas e chamou seus opositores de “pseudo-defensores de direitos humanos”.
Segundo ele, essas organizações estariam mais preocupadas com os direitos dos criminosos do que com os das vítimas, discurso semelhante ao de parte da direita brasileira.
— Todos esses pseudo-defensores de direitos humanos são tão hipócritas que a melhor prova que um país pode ter é que eles não chegaram, não prestaram atenção, não comunicaram essas questões — afirmou.
O ministro atribuiu parte da expansão das organizações criminosas às políticas dos governos que antecederam Bukele.
Segundo ele, administrações de direita fracassaram com estratégias, enquanto o governo de esquerda de Mauricio Funes fez, em 2012, uma trégua com as gangues que, na avaliação de Villatoro, acabou entregando a elas o controle de territórios.
O evento da Fiesp reuniu, além de Villatoro, o senador Sergio Moro, ex-ministro da Justiça; o deputado federal Guilherme Derrite, ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo; o promotor Lincoln Gakiya, integrante do Conselho Superior de Segurança da Fiesp; o escritor Rodrigo Pimentel; e Giovanni Tartaglia Polcini, assessor do Ministério das Relações Exteriores da Itália e diretor adjunto do programa El Paccto 2.0.
Apesar de ter planejado uma transmissão ao vivo, a organização do evento foi informada poucos minutos antes da palestra que não poderia transmitir a participação do ministro salvadorenho na íntegra.
A justificativa é de que parte dos slides da apresentação do convidado era preservado por direitos autorais.
